Correio do Minho

Braga, terça-feira

Mal fica

Combater a DPOC

Ideias

2018-03-09 às 06h00

José Manuel Cruz

O que é que o acto de saldar uma divida tem a ver com o desfecho de malfadado desafio de futebol? Por seis batatas que encaixou do Braga, quanto lhes viria arrastando de calote o nosso Salvador? Mereceria o Estoril semelhante desarrazoado?
Respondo à terceira das questões que coloco, posto que as precedentes não determinam esforço de aclaração. Não, o Estoril não merecia esta mesquinhice; o plantel do Estoril não merecia este concerto de bombinhas de mau-cheiro. Concedo que foi o treinador estorilista que deu o mote, em cima do acontecimento, no dia mesmo da derrocada. Esteve abaixo de cão: a barca que comandava vinha de naufragar – e não era ele o timoneiro? Preparou bem o embate, mas uns quantos jogadores, quiçá com outros aconchegos, resolveram dormir na forma, sabotando o trabalho da colectividade: seria isso que quereria assinalar, com inspiração bíblica – lavo daí as minhas mãos?
Vivemos na ressaca do episódio do Rio Ave. Dê no que der, desnecessário é que nos perguntemos se há corrupção no futebol. Homessa! Mas quando é que não houve? Mais justamente: em que é que o futebol é menos do que a política, do que a economia? Um jogador que corre ao contrário, que dá uma pranchada escusada, sendo expulso e provocando um penalti… Cruzes! Credo! Que coisa feia. Ou tão ao deslizar do pêlo, à luz de dois milhões de um contracto, de uma empreitada.
Baldo-me para as denúncias anónimas, recupero a oração de sapiência de comentador encartado, político e «dr» de Direito, o que só lhe fica bem. Pois não dizia, o cangalheiro da verdade, no rescaldo do jogo perdido pelo Braga face ao Porto, que a equipa bracarense tinha facilitado de forma suspeita? Tadinho dele, tão habituadinho a ver o mundo ao espelho das manigâncias.
Por muito que o futebol não seja uma ciência, é mais do que evidente que o FCP jamais perderia aquela partida. Sim, acontece que o último ganha ao primeiro, ou coisa de semelhante tipo, mas é certo e sabido que a façanha não se repete em enfrentamento que reeditem três dias depois. Maus jogos todos têm; bons jogos todos têm. No caso presente, o FCP estava liminarmente proibido de perder a segunda chance de suplantar um espinho imprevisto: os adeptos cobrá-lo-iam com sangue, digamos, metaforicamente. Bem a talhe de foice, basta que nos recordemos do que aconteceu no centro de treinos do Vitória de Guimarães.
O Porto tem jogadores que “resolvem” numa escala distinta do Estoril, do Braga até, independentemente de sonharmos com uma classificação às avessas, e com o Senhor Presidente da República a decretar novíssimo feriado nacional. Aspira o Braga aos píncaros, anseio idêntico, o do Guimarães, e dizem as más línguas que o VAR nos deposita, sãos em salvos, nos braços da realidade.
A propaganda – essa arte de multiplicar verdades – é como uma punheta de bacalhau – facílima de confeccionar e agradabilíssima ao paladar. Alucinam, fervorosos antitripeiros, com a ideia de que os da Invicta teriam sinalizado que saldariam o débito, desde que os canarinhos piassem baixinho, ou nem piassem. Ora repita sff! Em que universo de realidade paralela tal passaria impune?
A propaganda, o boato, a sugestão capciosa de inverdades, florescem na exacta medida em que não abdicamos de olhar para o nosso umbigo, na precisa medida em que achamos que o mundo só pode estar de acordo connosco. Não há adepto que não seja criatura mimada e caprichosa, birrento do “eu quero, porque quero”. Para a genuína malta da bola, os “outros” são sempre um obstáculo desprezível.
Não sabemos quem triunfará no desfecho deste campeonato. Pressentimos, porém, que o Sérgio Conceição tem a atitude correcta, e que o nosso Abel vai fazendo pela vida. O Rui Vitória deixa-se ir, ciente de que já ganhou e de que nada tem a demonstrar. O Jesus, deixa-se ir, ciente de que dificilmente voltará a ganhar.
Joga-se bem, e perde-se; joga-se mal, e ganha-se. Há um elemento indesmentível de sorte e de azar. Dizia, conhecido que muito prezo, e que é treinador de divisão secundaríssima, que ganhou o último jogo com dois cantos mal batidos, na segunda parte, quando, os bem batidos da primeira, em nada tinham dado. É nisto que reside a verdadeira beleza do futebol, do jogo que nos surpreende, que nos contraria, que nos defrauda, uma vez que não podemos ser sempre nós a ganhar, ou da forma como achamos própria. Não compreender a derrota, é não estar capaz de perceber as razões íntimas da vitória. Entretanto, a quem o imprevisto não satisfaça, recomendo apimentada punheta de bacalhau, mas do lombo, bem demolhado, e regado de azeite virgem. E com cebola de fazer chorar. E broa de milho. E verde tinto, para deslaçar.

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