Correio do Minho

Braga, sábado

Mais velho que a Sé de Braga...

Escrever e falar bem Português

Conta o Leitor

2011-08-20 às 06h00

Escritor

Por Rui Ferreira

Parecia ainda invernoso o cenário daquele dia. A temerosa chuva que caía e o vento arrepiante que me atravessava o âmago, aglutinava todas as minhas energias. A natureza lentamente afastava de si o negrume e começava a reverdecer. “Vida!” - dizia eu, alegre pelos singelos sinais de mudança. Que beleza encerra esta passagem do Inverno para a Primavera, tal como o caminho da morte à vida! Interiorizei este sentimento como se a natureza me agregasse por osmose. O cheiro da terra molhada, depois da chuva, recordava-me a necessidade de me debruçar sobre as minhas próprias raízes. Só assim crescemos e somos.
Sou brácaro desde sempre. Tal como os meus antepassados, e os avós dos mesmos. Braga corre-me nas veias, como néctar frondoso da alma, factor identitário que me forma e refaz a cada passo que dou.
Dizem que as cidades, tal como nós, também têm alma… Respiram por si mesmas e exalam vida. Exibem as cicatrizes e marcas dos acontecimentos passados, aludindo a um dinamismo inevitável. Tal como os homens, sentem o peso do tempo - nascem, crescem e envelhecem - tendo porém a inaudita capacidade de se regenerarem.
Braga é assim. E quem quiser atrever-se a descobrir a sua alma, terá que ir ao centro da sua existência.
A Sé. Não sei porquê, mas nos dias em que me sinto mais inquieto consigo encontrar segurança atrás daquelas grossas paredes graníticas. Sentei-me num dos escabelos da nave lateral esquerda a saborear o silêncio, só quebrado pelo sussurrar das orações de uma bonançosa velhinha que estava a alguns bancos de distância de mim. Fechei os olhos e, concentrado no ribombar do meu coração, senti-me longe, muito longe…
Voltei a abrir os olhos e não acreditei no cenário que, então, me envolvia. Havia viajado no tempo! As minhas roupas também foram investidas neste milagre cronológico. Já não estava ali onde me achava antes, apesar de continuar a ver muitas colunas altíssimas. Pareceu-me estar num local de culto, tal era o ambiente recolhido que se vivia. Este templo, segundo me informaram, era dedicado à deusa Ísis e ali ao lado podia ver um mercado onde os cidadãos faziam as suas trocas comerciais. A violenta muralha que cercava esta cidade estava ali mesmo, quase sobreposta ao templo. Já então este local era sagrado. Decidi sair. O contexto era deslumbrante. Edifícios imponentes, estátuas de enormes dimensões, fontes… Estava numa cidade romana. Bracara Augusta.
Voltei a entrar no templo. Desejava observá-lo intensamente, de forma a jamais esquecer o que esta experiência me concedia. Quando entrei, o edifício romano parecia transformado, apesar de lá se manterem as mesmas firmes colunas. Vi, ao fundo, um crucifixo e reparei que estava no interior de um templo já cristão. Um alvoroço enorme acontecia enquanto tentava retirar as minhas ilações. As pessoas pareciam nervosas. 'Eles vêm aí!'- dizia impaciente uma singela senhora de meia idade. 'Eles quem?', pensei eu, na minha ignorância. Estava então na Braga suévica, a capital do reino deste povo nórdico. Os Visigodos preparavam-se para invadir a cidade. Os visigodos venceram… Estávamos no ano de 585 e Braga era uma das mais importantes dioceses da Península e esta era já a sua Catedral. Recordei entretanto que, com o advento do novo povo, este edifício passou a ser usado como estábulo.
Saí. Voltei costas à rude construção e quando volvi o meu olhar, já nada existia. Estava num local ermo: ruínas, pedras sobrepostas, muitos arbustos e um silêncio sepulcral. Todavia, no local onde outrora se levantava a Catedral, nada crescia. Lembrei-me da história. Os arábes, encolerizados contra os cristãos, quiseram provocar o epílogo de um dos bastiões da cristandade ibérica. Destruíram a cidade e mandaram salgar o lugar da Sé, para que nada pudesse nascer naquele sítio. Estávamos em 716.
Caminhei por uns instantes, um pouco desolado com aquele cenário. Vi entretanto uma série de pessoas a aproximarem-se. A cidade parecia renascer como Fénix das cinzas. Os empenhados cristãos trabalhavam para dar vida nova à mítica capital da Galécia. Mais de três séculos depois a Sé voltou a ser erguida. No dia 28 de Agosto de 1089, o bispo D. Pedro, acompanhado de outras autoridades, inaugurava o culto na nova Catedral. Ocupava o centro da nova urbe medieval e era o edifício mais destacado pelas proporções e monumentalidade. Decidi sentar-me num canto para me deleitar com o júbilo daquelas pessoas.
Adormeci e quando abri os olhos tinham passado quase 918 anos. Ali estava eu de volta à Sé Primaz das Espanhas. Como estava diferente de então! As colunas continuavam no mesmo sítio, as paredes não serão muito diferentes das actuais e ali o povo continuava a buscar o seu refúgio.
Ao atravessar a porta principal pareceu-me ver ao longe o vulto de D. Rodrigo, o arcebispo que usava tacões para chegar ao altar, pois tinha apenas metro e vinte de altura, mas que foi um dos maiores prelados que esta cidade conheceu. A ele se deve a actual fachada da Catedral, bem como grande parte das decorações que hoje vemos no interior.
Saí da Sé percebendo porque sempre encontrava aqui força para enfrentar os meus medos e coragem para desafiar as inquietações. Durante séculos aqui encontraram os bracarenses a segurança. Em tempo de guerra estas eram as paredes mais difíceis de transpor. Aqui morava a paz.
A velha Sé continua hoje a desafiar o tempo e a oferecer incessantemente protecção e solidez àqueles que a procuram; continua a ser sinal de uma Luz que teima em não querer apagar-se.

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