Correio do Minho

Braga,

Mais vale tarde do que nunca

Está confirmado, vem aí o Natal

Ideias

2011-03-08 às 06h00

Jorge Cruz

Finalmente, o Conselho de Ministros aprovou a classificação das Sete Fontes, em Braga, como monumento nacional. De facto, na semana passada e ao fim de longos 16 anos, o antigo sistema de abastecimento de águas à cidade foi oficialmente classificado. Este é claramente um dos casos em que é lícito dizer-se que mais vale tarde do que nunca, embora se tenha que reconhecer que o atraso na decisão prejudicou enormemente o conjunto mandado erigir pelo Arcebispo D. José de Bragança no século XVIII.

A burocracia, a falta de empenhamento de alguns e, eventualmente, as pressões desenvolvidas por interesses imobiliários levaram a que tivessem mediado oito anos entre a apresentação do pedido de classificação e a sua homologação pelo ministro da tutela. Curiosamente, foi preciso esperar mais oito longos anos para a classificação oficial acontecer.

Julgo que pouco importa, agora, saber de quem foi o mérito. Da mesma forma, será um tanto ou quanto irrelevante conhecer a identidade dos que terão colocado entraves à classificação de monumento nacional. Muito mais importante será congregar todos esforços para preservar definitivamente este conjunto histórico-monumental, o que pode passar pela criação de um parque que garanta o valor científico, cultural e patrimonial do velho sistema de abastecimento de águas.

A zona especial de protecção do novo monumento nacional, cuja publicação se aguarda com expectativa e urgência, servirá, naturalmente, para balizar as movimentações de terras mas poderá tornar-se insuficiente face às ameaças que têm vindo a pairar sobre o local. Convém não esquecer que a última das mães de água foi entretanto vítima da insensibilidade de uma construtora, que a destruiu.

Impõe-se, por isso, um grande empenhamento quer das entidades políticas com responsabilidades na área quer da própria sociedade civil que, aliás, teve um papel preponderante em todo este processo de “salvamento” do conjunto monumental.

A petição pela salvaguarda do conjunto, lançada quando estavam iminentes novas agressões, designadamente através da edificação de viadutos para acesso ao novo hospital de Braga, constituiu um excelente exemplo de participação cívica e terá sido determinante para que o projecto inicial tivesse sido abandonado.

Também por essas razões, creio que será um erro que pode revelar-se fatal considerar que a classificação das Sete Fontes como monumento nacional constitui o culminar de todo o processo, ou seja, que com essa decisão governamental os problemas envolvendo o complexo ficam definitivamente solucionados.

Para os defensores do sítio histórico a decisão do Conselho de Ministros corresponde, efectivamente, a uma vitória, tardia é certo, mas que nem por isso deixa de ser uma vitória. Todavia, este triunfo pode não representar o fim da guerra, o desfecho de uma cruzada iniciada há 16 anos pela preservação e revitalização do património construído.

Todos sabemos que as acessibilidades ao novo hospital estão longe de estarem concluídas, aventando-se mesmo hipóteses de novas ligações. Por outro lado, sabe-se que a apetência construtiva dificilmente esmorece, sendo de admitir que a pressão urbanística se venha a desenvolver com novas estratégias.

Subsistem, portanto, razões mais que suficientes para que todos se mantenham em estado de alerta, não apenas para afastar os perigos e garantir a protecção do conjunto, mas também para pressionar os responsáveis no sentido da sua revitalização, o que pode e deve passar pela criação do parque monumental que o monumento merece e os cidadãos reclamam.

E ao falar das Sete Fontes não resisto a abordar de novo a candente questão do Hospital de Braga. Não se trata ainda da nova unidade hospitalar que se vai instalar naquela zona previsivelmente a partir de Maio próximo, mas do velhinho S. Marcos, que os gestores privados da Escala Braga rebaptizaram.

Também sobre a alarmante situação que se vive nesta unidade se pode dizer que finalmente parece existir um consenso cada dia mais alargado. De facto, tem-se assistido com inusitada frequência a um longo rol de queixas e denúncias de acontecimentos que em nada contribuem para a credibilidade que uma instituição como esta, que é parte integrante do Serviço Nacional de Saúde, deve apresentar.

Partidos políticos, deputados, sindicatos, trabalhadores da saúde e até órgãos da tutela já manifestaram preocupação por situações que afectam o normal funcionamento do hospital e, em determinados casos, contrariam o acordo firmado no âmbito da parceria público-privada. Na passada semana ficamos a saber que também a Câmara Municipal de Braga, através do seu presidente, manifestou a sua inquietação pelo que se está a passar no Hospital e que pode pôr em causa a qualidade do serviço aos cidadãos utentes.
Aqui está mais um exemplo de que mais vale tarde do que nunca.

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