Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Mais uma vez Natal para fugir à rotina!...

Sinais de pontuação

Ideias

2016-12-18 às 06h00

Artur Coimbra

Estamos mais uma vez em plena época natalícia, o período do ano que, sacramentalmente, reservamos para afivelar a máscara da pretensa solidariedade, da caridade, da fingida fraternidade universal.
“Hoje é dia de ser bom…” - como escreveu o poeta António Gedeão, parodiando os sentimentos que deveriam estender-se e repartir-se pelo ano inteiro, porque o espírito do Natal não deveria ser a excepção mas a regra.
Pelo Natal, quase como dever de consciência, lembramos os desfavorecidos da sorte, apoiamos os pobrezinhos, coitadinhos, participamos em campanhas solidárias para auxiliar causas sociais, adquirimos produtos que incorporam percen- tagem destinada a instituições de solidariedade social.

Pelo Natal, somos todos alegremente menos egoístas e mais sociais. Pelo menos aparentemente, enquanto nos afadigamos em comprar o máximo de presentes para familiares e amigos, correndo lojas e hipermercados como se não houvesse amanhã.
Pelo Natal, não nos importamos de ver, pela quinquagésima vez, o “Sozinho em Casa” ou uma das sequelas do “Harry Potter”, bem como uma sucessão de “enlatados” que no resto do ano não conseguiríamos suportar.
Pelo Natal, respiramos belos conceitos como humanidade, filantropia, amor ao próximo.

Voluntária ou involuntariamente, todos somos cristãos nesta quadra que brilha nas iluminações das cidades, nas luzes doiradas que recortam as igrejas na paisagem rural e que imensa beleza espalham. Conseguimos reparar que ao lado da nossa casa há gente a sofrer, homens que a crise dos últimos anos empurrou para o desemprego e para a miséria, mulheres que não conseguem ter condições para proporcionar à família uma alimentação minimamente saudável, crianças que vão com fome para a escola, idosos solitários e abandonados, a quem nem os filhos nem muito menos os netos ligam nenhuma. Ao longo dos 365 dias do ano…

Afinal, o espírito do Natal consiste em olhar para o lado, mais perto ou mais longe. Porque não há felicidade alguma, quando ao lado a pobreza é o modo de vida de famílias inteiras.
Natal é não esquecer os dois milhões de portugueses que vivem no desumano limiar da pobreza, que significa não ter rendimentos para levar uma vida com saúde, com a dignidade e o aprumo humano a que todos têm direito. A paz (essa ainda vai havendo, felizmente…), o pão, habitação, saúde, educação - como cantava o Sérgio Godinho nos primeiros anos da sua brilhante carreira.

Como é não esquecer a injustiça de, enquanto tal acontece, haver gente a ganhar 30 mil euros por mês, a gerir instituições bancárias que, quando dão lucro, é distribuído pelos accionistas e quando vão ao charco, a dívida é distribuída pelos portugueses que pagam, a classe média, pois os mais pobres estão isentos e os mais ricos arranjam maneira de colocar os seus capitais ou as sedes das suas empresas nos paraísos fiscais. É assim que se ajuda o país a crescer, e os pobres a ganharem dignidade!...

Natal é também não esquecer que para o estado comatoso em que se encontra o país, além da fuga dos dividendos das maiores empresas para a Holanda ou para as Bahamas, contribui poderosamente a cultura da corrupção que campeia historicamente neste país.
“Vivemos num país onde a corrupção está enraizada”, escrevia a historiadora Maria Filomena Mónica, no Jornal de Negócios, há escassos dias.

E não é preciso ir mais longe - até José Sócrates, ou a processos como Face Oculta, Sobreiros, Submarinos, etc.- que a semana passada. Foram presos Cunha Ribeiro, ex-presidente do INEM e da Administração Regional de Saúde em Lisboa e Vale do Tejo, em Lisboa e Lalanda e Castro, ex-presidente da Octapharma, na Alemanha. De acordo com as suspeitas, entraram em conluio para a compra e venda de sangue, entre 1999 e 2005. Os montantes envolvidos chegam aos 137 milhões de euros. Em fundo, suspeitas de corrupção, suborno e favorecimento, pago com duas casas, automóvel, dezenas de milhares de euros, material informático e viagens.

Ficou também a saber-se que uma rede de importação de carros da Alemanha para Portugal, vindos por Espanha, com recursos a vigarices e a estratagemas, ludibriou o Estado em milhões de euros.

E tantos exemplos se poderiam multiplicar: a corrupção é de facto o cancro maior deste país, a gangrena que impede o seu desenvolvimento. Há uma cultura generalizada de fuga ao fisco, de fuga às responsabilidades e deveres dos cidadãos e das empresas que encontram sempre “buracos” na lei para escapar, ou pura e simplesmente não pagam as suas obrigações, lesando o erário público em milhões e milhões de euros. E depois ainda têm a lata de virem à praça pública reclamar melhor educação, melhor saúde, melhores pensões, melhor segurança social, justiça mais célere. Se todos cumprissem escrupulosamente as suas obrigações, como se faz nos países civilizados onde o chico-espertismo saloio é denunciado vigorosamente, todos pagariam bem menos, sem dúvida, e o país teria recursos para enfrentar os seus gastos sociais.
Natal é também olhar para mais longe do que o território do nosso umbigo.

Para a tragédia dos imigrantes que fogem da guerra, da fome, da pobreza, das violações, da degradação humana, de África ao Médio Oriente. Desde 2014, já ficaram sepultados no cemitério do Mediterrâneo mais de 10 mil pessoas que debandaram dos cenários de conflito.
E também para os campos de guerra onde se morre hoje aos milhares, na Síria, sobretudo em Aleppo, onde a esperança em sair vivo sucumbe a cada segundo de brutais bombardeamentos criminosos. Bárbaros crimes contra a humanidade que deverão ser julgados pelas instâncias internacionais adequadas!

Natal é olhar também para este lado negro da vida: os refugiados, os presos, os perseguidos, os violentados, os doentes, os pobres, as crianças com fome, as crianças vítimas de trabalho infantil ou de tráfico, os velhos sem protecção e sem futuro.
Nesta quadra, que se espera anuncie no nascimento do Deus Menino uma nova era (quem dera!...), vão os votos sinceros de Festas Felizes para a direcção, jornalistas e leitores do Correio do Minho e um ano de 2017 que, sendo possível, concretize o melhor dos seus sonhos!

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