Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Mais uma vez a Grécia: Economia ou Política?

Macron - Micron

Ideias

2015-06-26 às 06h00

Margarida Proença

Confesso que, talvez como muitas outras pessoas, começo a não perceber o que se passa com a negociação do acordo com a Grécia. O impasse das negociações é tão grande que custa a acreditar que existam razões fortes, de natureza económica, que justifiquem o que se está a passar. Sempre entendi que compete à política económica encontrar os instrumentos adequados para encontrar soluções que, de uma forma eficiente, consigam obter os melhores resultados, digamos assim. E por melhores resultados, entende-se para todos, de forma a que pelo menos alguns possam ficar melhor, sem que os demais fiquem pior.

Mas não parece ser o caso agora; faz-me lembrar uma expressão que ouvi muitas vezes em Macau - “perder a face”. O contexto em que era referido remetia para a vantagem de, num conflito, evitar qualquer situação em que uma das partes ficasse deveras humilhado. Porque nesse caso muitas vezes não se conseguem antecipar consequências.

Escrevo esta breve crónica numa altura em que o acordo ainda não foi assinado. Por outro lado, o ruído á volta de todo este problema é elevado, nunca se sabendo bem quais são os termos exatos em discussão. As últimas informações, na manhã do dia 25 de junho, apontam para uma nova rejeição das propostas gregas; aparentemente, não foi aceite a subida do IRC para 29%, nem um imposto especial sobre os lucros das grandes empresas.

Os credores não abrem mão de um maior acréscimo no IVA, impostos sobre o rendimento mais elevados, e a reforma completa do sistema de pensões. Em termos de números, querem mais austeridade, exatamente cortes de mais 2,3 mil milhões de euros do que o proposto. Parece entretanto que o governo grego apresentou novas medidas, que reduziam as divergências de uma forma muito clara, mas foram novamente rejeitadas, segundo o que vem sendo adiantado na imprensa internacional e nacional, nomeadamente o Financial Times e o Expresso.

Parece que a rejeição tem a ver já não com o montante global da consolidação orçamental (a diferença entre a proposta grega e a exigência dos credores internacionais anda apenas por 0,01%), mas com uma posição cada vez mais ideológica relativamente á reforma do sistema de pensões e novos cortes salariais na função pública. Os credores rejeitaram a proposta de criação de um imposto especial sobre os lucros das grandes empresas, entre outras.

Neste ping-pong em tudo nada claro, começa cada vez mais a parecer que os credores, no fundo, o que querem não correspondem a qualquer teoria económica, de orientação mais ou menos ortodoxa ou liberal. Quase parece que se pretende é criar condições para que os gregos, cansados, assustados e desmoralizados, forcem a queda do governo grego, e a eleição de um novo governo que aceite as condições todas, na forma exata que pretendem. No processo em curso, pode acontecer que de facto o governo grego caia e que a Grécia seja forçada a sair do Euro.

Trata-se do domínio da política pura e simples - e não da economia, ou melhor dizendo, do mero exercício de relações de poder. Ao credor, interessa-lhe que o devedor pague; pode até estabelecer de forma rigorosa timings para os pagamentos, e sanções para o incumprimento. Mas a decisão última, e a responsabilidade correspondente, tem de competir ao devedor.

Ninguém consegue antever claramente , e sem margem para dúvidas razoáveis, qual será o futuro se não existir acordo, e a Grécia sair do euro. Alguns economistas de reputação inquestionável consideram que, ao fim e ao cabo, a volta ao dracma pode conseguir resolver as questões de uma forma melhor, e que o euro poderá aguentar-se, se um determinado conjunto de condições estiver reunido.

Outros acham que não, e antevêm o fim do euro, possivelmente o princípio do fim da União Europeia. É possível que qualquer dos cenários esteja errado, por demasiado optimismo ou pessimismo.
O que me preocupa é que a construção de cenários se está a tornar uma actividade cada vez mais difícil, e aberta à imaginação. É isso que assusta.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.