Correio do Minho

Braga, terça-feira

- +

Maioridade

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

Ideias

2015-05-17 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Tivemos um negócio com submarinos, e agora temos um igualmen- te peculiar com aviões. Levando a ementa a peito, poderíamos juntar pratos igualmente suculentos, tais como as já arrumadas sucatas, as gentilezas a uma sociedade de obras públicas, os vistos dourados, e o que mais se venha ainda a saber na intersecção das operações judiciais em curso.

Aqui e ali vem à baila um primeiro-ministro ou um ministro, um adjunto ou um conselheiro bem posicionado. Perante isto interrogamo-nos: é normal? Não está em causa a veracidade dos factos ou das alegações, matéria em que os tribunais competentes a seu tempo se pronunciarão. A questão é outra, em concreto: por que fragilidades do sistema ocorrem estas situações?

Pode obstar-se que nem o mais perfeito e escrutinável dos sistemas sociais impediria o fenómeno da corrupção ou do arranjo esconso, episódios que espelham tão-só a cupidez e as falhas de carácter dos envolvidos. Não sei, talvez eu seja idealista e fantasie uma ordem de governo que permita um acompanhamento permanente dos negócios do Estado, da transparência dos actos, da probidade dos intervenientes.

Serão as características invocadas típicas duma democracia que atingiu a maioridade? Democracia que se apresente aos olhos de todos como estável, previsível, verdadeiramente auto-regulada, exemplar? Mais longe eu leve a analogia, e uma conclusão desconcertante se impõe: as democracias não atingirão a maioridade aos 18 anos! Pelo menos a portuguesa, que de tempo de vida conta com um generoso dobro.

Deuses e demónios me defendam de todo o discurso moralista. Parece-me evidente, porém, que quanto mais as coisas se façam por por- tas travessas, mais isso vicia a sã e virtuosa competição em que supostamente assenta o capitalismo. E não nos digam que o capitalismo está a atravessar um momento de particular saúde, pelo menos em Portugal.

Involuntariamente vem-me à memória o banco da catequese e o 4o mandamento na versão desses tempos: honrar pai e mãe e nossos legítimos superiores! Que outro legítimo superior que não o governo no seu todo! Para mais, investido pela confiança legítima do voto popular. Entra governo, sai governo, e a política do arranjinho mantém- se a mesma? Perante tal panorama como não exclamar a mil vozes: ora isso também nós sabemos!!! Interrogar-se-á, adiante, o mesmo coro de mil vozes: e se o país não sai da cepa torta, não será porque os ilustres consomem todo o tempo a tratar da sua vidinha, tanto como olimpicamente se marimbam para a dos outros? Para o Estado?

Embora aqui e ali me pareça que estou a resvalar perigosamente pa- ra o clube dos Velhos do Restelo, tenho abertura suficiente para acei- tar que porventura será mais fácil comentar ou criticar que propria- mente fazer. Posso mesmo reconhecer que talvez não tivesse arcaboiço para tal empresa. Mas que se faça ao touro quem é destemi- do e tenha braço forte.

Se a maioridade das democracias é incerta ou flutuante, bem baliza- da ela é por aplicação aos indivíduos, sendo a capacidade eleitoral uma das prerrogativas bem conhecidas dessa condição. Preparam-se dois actos eleitorais. Bom era, que os jovens que no ano em curso atingem o direito de voto, dele não declinassem, antes procurando exercê-lo de modo informado, responsável e exigente.

A democracia é uma construção e algum dia há de atingir um estádio de maturidade virtuosa. Entretanto, a todas as reais Anas e hipotéticas Zulmiras, a todos os eventuais Abeis e desconhecidos Zeferinos, votos duma feliz entrada no clube dos maiores.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

30 Novembro 2020

Um Natal diferente

29 Novembro 2020

O que devemos aos políticos

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho