Correio do Minho

Braga,

Maior que a própria vida

Patologia respiratória no idoso

Escreve quem sabe

2013-12-31 às 06h00

Cristina Palhares

O culminar das minhas crónicas dedicadas a uma história de vida: por todas as crianças e jovens que passaram pela ANEIS. Com todos aprendi um bocadinho, com todos construí esta narrativa que aqui apresentei em pequenos excertos, certa de que muitos pais, professores e jovens se revêm plenamente nas linhas que fui tecendo.

Uma história de vida que começa relatando um desenvolvimento precoce, passa pela fase escolar de uma forma bem conturbada que não é um fenómeno novo, pois tal como podemos comprovar na literatura existente, sabemos que pessoas com grandes problemas de rendimento nos seus anos escolares, tiveram, mais tarde, contribuições excelentes para a sociedade e humanidade em geral (Sánchez, 2000), e que terminou assim no artigo anterior: “Lembram-se da minha mão? Aquela que eu tanto mirei em pequena, que cedo começou a escrever e que durante uns tempos parou para fazer apenas aquilo que queria, pois agora tornou-se outra vez o meu centro... eu era a redatora da escola. Adorava as entrevistas a alunos, pais, professores, encarregados de educação, e passava tudo para o meu jornal. Conquistei montes de amigos que me ajudavam nesta tarefa. Claro que o mérito foi todo da minha diretora de turma, que apostou em mim!”

Relembrei o pensamento humanista que referencia a diferença entre os professores não no que eles sabem sobre a educação, mas no que fazem, na maneira como agem. (Guenther, 2000). E a ação é refletida no ambiente de aprendizagem. Se para as crianças com necessidades educativas especiais o ambiente de aprendizagem é flucral para o seu desenvolvimento, para estas crianças com necessidades educativas específicas é-o do mesmo modo. O ambiente de aprendizagem para lá de todos os recursos materiais exigidos e exigíveis tem sempre em permanência o maior recurso que qualquer criança merece: o professor. Assim ele o perceba. (Palhares, 2009).

E assim, finalmente, no dia em que alguém apostou naquela aluna a sua vida transformou-se. Estava no 9.º ano, o primeiro de muitos. Sonha com o futuro e já é capaz de dizer:
“Vejo fotografias. Mas... sou eu daqui a muitos anos. Que engraçado! Ali estou eu, num palco, representando... noutra com um microfone... falando a uma multidão... Noutra ainda... na redação de um jornal... noutra... escrevendo, lendo... de caneta azul na mão... A minha caneta azul. Lembras-te dela? Olha... a minha secretária... ainda é a mesma! Clips, capas, arquivadores, computador,... E agora, que velhota!!! Estou numa missão qualquer, internacional, pois está tudo com auscultadores da tradução simultânea... E eu falo, falo... Aquilo que eu soube fazer sempre tão bem. Lembras-te? E ainda..., ouvindo... num pequeno gabinete... crianças, pais, professores, rabiscando algumas notas... Talvez passando o meu testemunho, ajudando aqueles que, como eu, também choraram na escola, também tiveram notas menos boas, também encontraram professores menos bons, mas, ajudando aqueles que, como eu, também sorriram na escola, também tiveram boas notas, também encontraram professores bons, e... como eu, se tornaram maiores que a própria vida”.

O que melhor exprime o saber (aprendido ou compreendido) está na capacidade de tirar prazer (para além dos êxitos ou fracassos) que se alcança pela admiração. O “espanto” aristoteliano, o “prazer” rebouliano nasce, com certeza, do desenvolvimento de um grande talento: a capacidade para admirarmos. Para admirarmos o mundo que nos rodeia, as relações que estabelecemos, as crianças com quem partilhamos o nosso dia a dia. “Admirar” é olhar o outro por dentro, o reconhecer o porquê das nossas relações é, numa palavra, compreender. “O prazer de nos espantarmos” uma máxima a colocar no caderno de qualquer educador: que consigamos entusiasmar os nossos alunos a tirar prazer do seu espanto desenvolvendo-lhes a capacidade de admiração.

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