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Macaco pintado…

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Macaco pintado…

Ideias

2019-04-14 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz


Inteire-se o meu estimado leitor dos seguintes ensaios científicos com macacos capuchinho. Têm anos, estes estudos laboratoriais. Acrescento que as cobaias são por norma bem tratadas, de modo que pode o leitor embrenhar-se na presente crónica, sem receio de ver-se ferido nos seus sentimentos.
Duas celas, separadas por barras verticais, um macaco em cada, digamos o A e o B. Rodelas de pepino são dadas a ambos, logo que devolvem um seixo que acabam de receber do experimentador – recolhem a pedra na metade direita, devolvem-na pela metade esquerda da estrutura, e ganham direito a uma porção de pepino. Entregam-se ao «trabalho» com afinco, até que eventualmente saciam ou a tarefa se torna fastidiosa.
Eis que o macaco A recebe a sua dose ordinária de pepino, e o macaco B recebe um bago de uva de mesa. Assinale-se que os macacos capuchinho encontram mais atractivo nas uvas do que no pepino. Come cada um o que lhe tocou, vendo o A, claramente, que a recompensa do colega foi melhor do que a sua.
Nova ronda. Filado no B, o sujeito A opera normalmente, recebe o disco de pepino, mordisca-o e atira-o de imediato contra o técnico que conduz o experimento. Amplia a revolta, abana as grades, bate com a mão energicamente no tampo em que assenta a gaiola. O macaco B come a sua uva.
Ronda seguinte. Atenda o leitor que o macaco A não abandona a tarefa, dá-se ao incómodo, até, de investigar a joga que anda entre cá e lá, para se certificar de que tudo é igual, menos a recompensa. Os protestos são infrutíferos. Amua, e põe fim à colaboração.
Revi esta experiência, há dias, num canal francês. Sem que o dissessem taxativamente, ilustravam um bloco informativo sobre o movimento dos «coletes amarelos».
As pesquisas do biólogo-primatologista Frans de Waal e colaboradores são mais vastas. Inscrevem-se no campo da psicobiologia, vale dizer que em espécimes animais se indagam das raízes de comportamentos que cremos intrinsecamente humanos, neste caso, as bases da moral, do sentido de justiça, da cooperação, da empatia…
Numa série avançada, com indivíduos da mesma estirpe, procedeu-se a idêntico protocolo, medindo, simultaneamente, indicadores cerebrais, que evidenciaram sinais inequívocos de stress e desprazer no macaco abonado com bagos de uva. Com alguns pares de indivíduos, chegaram a deparar-se com a recusa do macaco B em aceitar a uva, enquanto que ao colega não fosse atribuída a mesma paga. Quero evitar falar em «ordenado», mas a semântica é o menos.
Se estamos formatados para reconhecer a desigualdade abusiva e reagir com veemência, por que razão optamos por saídas tímidas, por racionalizações em torno da impotência? A força do colectivo suplanta a do sedicioso, mas a hoste dos que recebe de pepino para baixo é maior do que a da camarilha que engole de uva para cima. Substituímos a providência divina pela da cabeça reinante, e não saímos da cepa torta. Trocamos as famílias reais por lideranças de semelhantes, e continuamos a patinar. Um que outro, da roda de cima, faz como o macaco B, e abre os cordões à bolsa de estado para bodo aos pobres, mas, à maior parte dos despenseiros, não se lhes azeda a passa na boca.
Vamos como o fumador que está careca de saber que fumar faz mal. Os ordenamentos sociais oprimem, depreciam, alienam, e teorizam profusamente sobre o status quo vigente. Se do alto não vem a mudança, e se os intentos esboçados da base estão condenados ao fracasso, que nos resta, então? Não termos nós aulas de teoria política com um macaco capuchino, evadido dos laboratórios Yerkes.

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