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Maça de junho

A Martins Sarmento e as Festas Nicolinas em Tempo de Pandemia

Maça de junho

Escreve quem sabe

2020-06-23 às 06h00

Ricardo Moura Ricardo Moura

Ainda não tinha dado uma dúzia de voltas ao Sol quando entrou no meu ouvido a voz de Jorge Palma. Foi um clarão. O rouco do timbre, a dança do corpo, o rebelde da palavra, tudo nele enxotou os meus dias de remanso. A música desenhava um rir que não tinha, mas mexia com frases que me desinquietavam – «Ser o teu mestre só por um instante, iluminar o teu refúgio, aquecer-te essas mãos, rasgar-te a máscara sufocante». Nunca mais o larguei.

Passado o tempo magro, aquele que esventra o desejo, dei por mim a burilar a mente em novos elos. Foram anos com o boletim meteorológico em glória. Cedo percebi que não havia pó nas entrelinhas. Esse chão, asseado, casava bem com a terra dos meus sonhos de infância. Havia, é certo, aqui e acolá, um lado errado da noite. Porém, apesar dos hiatos entre os discos, continuou em marcha pelo passeio dos prodígios.
Há em Palma a genialidade de Gainsbourg. Uma sobrevivência no cordão da loucura. Pintam letras. Provocam demónios. Um trapézio onde não habita boçalidade. Ambos intimam o melhor da doçura e do amargo. Uma mescla que abraça e expulsa.

A educação de Palma é nobre. Um alicerce erguido na fina flor da cultura. Passada a puberdade, o muro que pulou foi sorriso para os amantes do metro de Paris. Noites brancas que combateram o obscuro dos desamores.
Ainda toquei em traços deste Palma. Aconteceu em 2002, ano que levou para casa o prémio José Afonso. Meses antes tinha colocado na rua o tão aguardado sucessor de Bairro do Amor. Foi um misto de fera e desnorte no palco da praça do município de Montalegre. Quem viu não mais o esquece. A camisa branca desbotoada, o cabelo desgrenhado, as palavras sem rede, o cru da guitarra, o deslumbre do piano, tudo era voo sem travão. No final do concerto lançou o corpo na poltrona do camarim improvisado, hoje, por ironia, meu gabinete profissional.

Estava diante de mim a liberdade maluca. Uma besta dependência que não impediu o glamour da palavra. Foram horas de memórias desarticuladas. Por perto, a fragrância escocesa. Foi nessa noite que libei, pela primeira vez, o aroma de uma James Martin's, até hoje o meu scotch predileto.
Havia nele uma valsa intempestiva. Um encanto fatal. Francisco era pequeno e irrequieto. A noite virou madrugada. Palma queria saber como era acordar em Barroso. Sentir o odor da manhã. O espreguiçar em silêncio. Falava do telefone que não tocava. Do ruído da cidade. Da falta, excessiva, de um tempo vivido no arame. Sorria. Muito.

Quando desci as escadas do edifício dei de frente com a praça vazia. O luar iluminou-me os passos. No bolso, levava mais do que a entrevista que, horas depois, ficou destapada na casa da rádio. Ia comigo um tempo que conta. Um ser que não coloca divórcio no que acredita. Fiel a si próprio. Talvez, quem sabe, tenha bebido parte dessa verticalidade no Liceu Camões quando teve como professor Vergílio Ferreira. O escritor beirão confessou um dia que escrevia a pensar no eu. Não um eu individualista, mas alargado à comunidade. As canções são as emoções de Palma. Escreve porque lhe apetece escrever. Felizes os que gostam. Que assumem a sonata número 8, opus 13 (Pathetique), de Beethoven, da mesma forma que escutam e clamam pelo “Portugal, Portugal”.

O último concerto sossegou-me. Observei-o longe do olhar de lince à cata do melhor ângulo para mais tarde recordar. Tive o Palma que quis ver. Aquele que quero manter enquanto houver estrada para andar.

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