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Luto à la carte

Palavras cruzadas e encriptação linguística

Luto à la carte

Ideias

2020-11-04 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Nem sei o que dizer. Confissão suicidária, paradoxo de um exame que visa coluna de jornal. Que atenção merece torturada divagação, quando carecemos de certezas, de coerências, de linhas de rumo que nos marquem caminho para além deste vão?
Um luto estipula o Governo: no dois de Novembro, que recordemos, que choremos, os que o vírus ceifou. Quão em desacordo estou! Reproduzo o que outros compilaram e faço eco de uns milhares de óbitos a mais, comparação feita com a média dos últimos cinco anos. Milhares, de que apenas uma fracção seria pelo vírus que grassa na actualidade. Pergunto-me, então, que racional preside a lutuosa homenagem de um, contra a desconsideração militante de dois ou de três? Porque se realça, com compunção de Estado, aquele que sucumbe a infecção nova, no mesmo transe que se obliteram os que os serviços de estado descuidaram, aqueles a quem disseram que não tinham vez? Doentes de primeira e de segunda, mortos de primeira e de segunda. Ministros de que gabarito?
Jornada nacional de luto por ceifa pandémica com ressonância a número de ilusionista, que soa a tapa-bocas atirado por cima de ideia peregrina de encerrar cemitérios, por cima de despótico enclausuramento de um país que não vai da capital à província no tapete mágico de bilhete para récita ou cantoria, do salvo-conduto de meritória acção política, sindical e excepções quejandas, sacolejadas a crivo zincado de mestre em funilaria avulsa, repuxador exímio em recomendações agravadas. Eis-nos personagens de história viva, de medieval encenação, eis-nos servos da gleba adstritos a um canto, a um senhor. Que nos falta: a prerrogativa da primeira noite? Que Bastilha se impõe que tomemos?
Cerimónia de correr e andar, hino despachado e bandeira a meia haste, sem missita de circunstância de Patriarca, recamada de figuras gradas dispostas a higiénica distância, de máscaras alindadas com logótipos oficiais, de telefones vibrantes, grilando alertas de infectados entre os próximos de suas excelências. Lata que um rebate de decoro talvez tivesse atalhado, mas com discursito de vir a rol o que os empenhados fazem e o que os descuidados descuram, o desígnio nacional, a vigilância, a ladainha de meses em que não entra a burrada do autódromo.
Aliás, quem não se lembra das semanas de reprovações do Avante e de Fátima? Quem não se lembra das «percepções agravadas» veiculadas pelo magistrado salva-vidas? Não lhe sobressaía o rumorejar contrário de largas franjas da população, determinasse a DGS as restrições que entendesse, garantidas e cumpridas fossem as mais abrangentes normas de segurança? De similar, como se dá que a nada tenhamos assistido a respeito da F1? Quem determinou o tabu? Porque lhe passou ao lado o grosso dos Media? É curioso: se os promotores da gincana venderam bilhetes além do estipulado, tanto que houve quem não entrasse para a bancada paga, que multa lhes foi passada na hora? Ou não era situação que previsse penalidades bondosas?
O bicho, e os discursos apocalípticos em torno do bicho, com variações em dó do óbito às sequelas. O bicho, e as prisões aclamadas para que dele não sejamos pasto – fica em casa, no teu bairro ou vila, e o gel, e a máscara até aos Reis, ao Entrudo, à romaria do diabo que nos leve, e a aplicação, e a garrafita de vinho que depois das oito é para esquecer, e os maus de um lado, e a raiva nos moralistas de radiofonia com espaço para ouvintes. E o recolher obrigatório, e a «emergência suave». Chiça!
Governo de funâmbulos contorcionistas, em tosco equilíbrio em curva chata.

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