Correio do Minho

Braga, quinta-feira

‘Os abantesmas da consciência’, Ana Leonor Godinho

Pecado Original

Conta o Leitor

2012-07-05 às 06h00

Escritor

As torres sineiras da Sé Catedral implodem a sua sonoridade como um antelóquio vespertino que se propaga pelas redondezas desvendando musicalmente as horas, mas também a altura em que a igreja acolhe os fiéis para o ato da confissão antes da missa. Portador das aquiescências do seu juramento ante o amor sacro e eterno a Deus e aos Seus ensinamentos, padre Almeida desloca-se pelos andurriais da catedral até ao confessionário. Passado pouco tempo, escuta-se o presságio de um ruído que assinala a chegada do confessor.

- Meu filho diz-me quais os teus pecados, para que Deus te absolva! - Pediu de forma mecanizada.
- Perdoe-me padre, porque vou pecar - Confessa uma voz feminina, misteriosa e sussurrada pela pequena divisória.
- E porquê minha filha? - Continuou o padre.
- Amanhã os meus atos serão notícia espalhada pela região.
Logo após este último desabafo murmurado nada mais se ouviu, porém o padre remanesceu estático com os olhos atirados pensativos sobre o rosário negro, onde o seu silêncio meditabundo interiorizava a conquista de um sentimento familiar que esta voz lhe comunicara. Mas findos os seus próprios pensamentos, concluiu tratar-se de uma pobre alma perturbada e deixou perecer o caso.

A manhã seguinte despontou numa torrente lacrimal de tristeza e escuridão, mas sem interferir com a saída habitual do padre Almeida pelo centro histórico da cidade. Parou num dos tradicionais quiosques da Arcada para comprar o jornal, que dobrou e enfiou debaixo do braço, e seguiu caminheiro em direção ao café - A Brasileira - para degustar o tão afamado cafezinho de saco.

Ao primeiro trago do líquido anfigúrico, adocicado e morno, desdobra o jornal e fica horrorizado com a manchete principal onde se lê: ‘Homicídio macabro no Santuário da Falperra’. Ávido por mais pormenores de teor descritivo foi ler o artigo:
“Junto à imagem granítica de Sta. Maria Madalena situada no cimo da escadaria foi encontrado, mutilado violentamente, o cadáver de uma mulher que ostentava a palavra latina ‘infidelis’ escrita com o próprio sangue na testa e do interior da boca foi-lhe retirado um pedaço de papel que continha um versículo bíblico e uma aliança aurifulgente”.

Neste momento, agiganta-se sobre o padre um tremor abissal provocado pelo choque do déjà vu de um segredo adormecido na sua infância.
- Quem seria capaz de tamanha atrocidade? Não! Não pode ser… mas e se foi aquela alma que a mim se confessou e por que razão me procurou? - Inquiriu-se com ares de acataléptico.

Mais tarde, o carrilhão vetusto da catedral crepita neste horizonte minhoto alagado pelo chorrilho ácido dos seres invisíveis que habitam o céu e conduzem o padre ao cumprimento dos seus deveres até ao confessionário.
- Meu filho diz-me quais os teus pecados, para que Deus te absolva! - Soltou ao sentir uma presença.
- Perdoe-me padre, porque vou pecar - Confessa uma voz masculina e sombria até ao seu ouvido.
- E porquê meu filho? - Perguntou por hábito.
- Amanhã os meus atos serão notícia espalhada pela região.

Mal ouviu esta frase saída de um tom com identidade, porém esquecida pela sua memória, o padre olha assustado para as frestas da divisória, onde agora vagueia uma mudez ensurdecedora, vazia e imperatriz. Por conseguinte saiu lívido e fremente da área confessional e pediu a outro padre que o substituísse indo embrenhar-se apavorado pelas vísceras interiores das ruas desta senhora Bracara e Augusta animada por uma enchente de multidões desenfreadas e apressadas por ordem da vida, no ínterim desta tarde que lhe trouxe uma mensagem inquietante, enquanto focava e guardava no seu cofre memorial o fotograma visual de todos os rostos com os quais se deparava, e cheio de temor excogitava:

- Estarei a olhar para o confessor ou confessores destes atos hediondos e de tamanha abjeção? Ajudai-me meu Deus e meu Pai, Vós que estais no céu, iluminai os meus pensamentos para que tome a decisão certa neste dilema afã do meu tormento! Não quero faltar com os meus votos e violar o segredo de confissão, mas a minha consciência impede-me de ser solidário com o homicídio de mais almas inocentes e indefesas. Perdoai-me, porque vou pecar! - Assim se despediu ante um neo-céu inundado pelo arrebol ensanguentado que recebe a sua futura alma anátema. Dirigiu-se, em seguida, ao posto da Polícia e pôs os investigadores a par do sucedido. Por sua vez, as autoridades tendo em consideração o seu testemunho mais que credível, após a sua saída, resolveram tomar medidas preventivas suspeitando que estavam perante um perpetrador ritualista.

Algures no breu da máscara da noite, ouviu-se um grito abafado que foi descoberto por um polícia que estava de vigília pelas ermas soidões do Bom Jesus.

- Não se mexa ou eu atiro! - Exclamou.
- O que… mas o que se passa? - Perguntou alguém desorientado.
- Mãos atrás das costas! - Ordenou o polícia com firmeza.
E tendo imobilizado a ameaça, o polícia incide a lanterna tremeluzente sobre um vulto e desaba num calafrio de puro terror ao constatar que o seu colega de turno tinha sido enforcado em frente à igreja e na sua testa a palavra latina “traditor” figurava escrita com o próprio sangue.

Mais tarde, na prisão, todos ficaram estupefatos com a revelação da identidade do homicida. Tratava-se do padre Almeida. Com o decorrer da investigação e longos interrogatórios veio ao de cima o passado do padre como justificação pelos seus crimes inconscientes. Contou que em criança, vira o pai assassinar a mãe e o amante, que era seu compadre, e reprimiu tais imagens traumáticas com o aloquete do professo esquecimento.

Nunca ninguém soube dos crimes de seu pai, já falecido, pois jamais o denunciara, nem mesmo quando atingiu a maioridade e enveredou pelo seminário tornando-se num servo de Deus. Cometeu os atos tal e qual como o seu pai os executou, mas nunca detivera na sua memória aquilo que fazia, como se entrasse numa espécie de transe que o acordava sem relembrança.

A vida é mestra de uma filosofia mordaz, pois as vozes que o padre Almeida ouvira no confessionário eram afinal as vozes reféns da sua consciência a rutilarem por justiça e paz.

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.