Correio do Minho

Braga, segunda-feira

‘O que fazeis do meu mundo?’ - Dia Internacional da Pessoa com Deficiência

Diciembre, Decembro, Abendua... e Desembre?

Escreve quem sabe

2014-12-02 às 06h00

Cristina Palhares

Relembro uma imagem, que perdurará para sempre na minha memória, e que a invoco sempre que tratamos de direitos fundamentais.
Hoje, e porque amanhã se comemora o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, a imagem surge mais uma vez. Partilho-a convosco - uma criança, com uma lágrima teimosamente rolando cara abaixo, pergunta-nos (a todos os que a viram e ouviram): “O que fazeis do meu mundo?”.

E a pergunta é dirigida a todos e a cada um, aos governantes e aos governados, aos professores e aos alunos, … , a si, que agora lê estas linhas. “O que fazeis do meu mundo?” Se a esta pergunta as respostas nos falham, amanhã correrão com certeza por todo o mundo, notícias e imagens que pretenderão dizer o quão preocupados andamos. Preocupados, porque já em 1994, com a ratificação da Declaração de Salamanca assinamos o compromisso de implementar e desenvolver uma educação inclusiva; Preocupados, porque depois em 1998 a Organização das Nações Unidas avançou com a convenção sobre os direitos das pessoas com deficiência; Preocupados, quando Portugal legisla em 1991, apresentando o Decreto-Lei 319 que visaria a integração escolar de todas as crianças com deficiência, flexibilizando a resposta educativa de modo a fornecer uma educação básica de qualidade a todos os alunos; Preocupados, quando reformulamos o Decreto Lei 319, já no ano de 2008, e apresentamos o Decreto Lei 3. Preocupados sim… muito preocupados.

Mas, infelizmente, a nossa preocupação ainda não responde ao “O que fazeis do meu mundo?”. Se nos colocarmos na posição daquela criança, e lhe fizéssemos essa pergunta “O que fazemos do teu mundo?”, ela daria muitas respostas, estou certa: “Fazeis um mundo onde ainda estou na última fila da sala de aula, porque perturbo os meus colegas”; “Fazeis um mundo onde estou na primeira fila porque a minha cadeira de rodas não permite ir além dela”; “Fazeis um mundo com olhares piedosos, ou pelo contrário, repulsivos, porque o meu corpo não é como o corpo da maioria dos meninos”; “Fazeis um mundo onde ninguém me entende porque a minha língua não é falada, é gestual”; “Fazeis um mundo onde…..”; Tantos ondes poderíamos responder. Verdade! Tão verdade como a lágrima que escorre e que quase parece eterna.

A nossa preocupação já leva 20 anos. Urge olharmos para a inclusão, que sendo um movimento educacional é também social e político, como um direito de todos os indivíduos participarem na sociedade em que vivem, na sua diferença. Não é adaptá-los às suas diferenças, não é apagarmos as suas diferenças, é perceber que a diferença é uma mais valia no seu desenvolvimento e que faz deles seres únicos, tal como nós nos reconhecemos únicos.
As dificuldades educacionais, sociais e políticas não estão no aluno, estão na forma como a escola, a sociedade e a política se organizam para promover o seu sucesso escolar, profissional e pessoal.

Num dos textos da Revista Educação, de Sofia Freire, que reli para esta reflexão, um dos eixos fundamentais que a autora apresenta refere “a inclusão como um novo modo de encarar a diferença”, reconhecendo que esta é inerente a todos os indivíduos. E que faz de todos, únicos. Quanto mais tempo vai passar desde a nossa preocupação para uma resposta? Quanto mais tempo vai demorar até darmos uma resposta? Saibamos amanhã, poder dizer-lhe: “Fazemos o melhor que sabemos, o melhor que podemos, para ti!”. E o que sabemos e o que fazemos passa necessariamente por enrolar novamente aquela lágrima teimosa, desta vez, cara acima, transformando aquele rosto sofrido num grande sorriso, porque nós vamos saber e fazer para ela: tal qual ela é!.

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