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Lobos com pele de lobo

Controlo da Obesidade: uma chave no tratamento da COVID-19

Lobos com pele de lobo

Ideias

2021-01-11 às 06h00

Pedro Morgado Pedro Morgado

A invasão do Capitólio com objetivo de travar os procedimentos formais de validação da vitória de Joe Biden nas eleições americanas não foi um ato isolado ou imprevisto. Os dados eram muito claros e os riscos eram sobejamente conhecidos desde que Trump começou a campanha eleitoral que culminou na sua eleição de 2016. A receita tinha, inclusivamente, sido extensamente denunciada por pessoas de todos os quadrantes políticos.
É reconhecido por todos – incluindo pelos próprios – que os populistas não gostam da democracia. Mais do que isso: os populistas querem destruir a democracia e substituí-la por regimes em que as pessoas não são todas iguais, em que os votos não contam da mesma forma e em que os privilégios se perpetuam num pequeno grupo de pessoas.

A principal razão para detestarem a democracia reside no facto de saberem que as suas propostas não funcionam, não resolvem os problemas das pessoas e não trazem qualquer benefício para a sociedade. Quando os populistas chegam ao poder, duas coisas acontecem: ou acabam com a democracia e condenam os povos à miséria e à ditadura; ou perdem as eleições seguintes como aconteceu com Trump.
Todavia, os populistas sabem como iludir o debate público. Em vez de debaterem a realidade que existe, selecionam caricaturas que exploram até à exaustão. Nas redes sociais e nas aparições públicas partilham até à náusea deturpações, acusações a pessoas repetidamente absolvidas, notícias falsas e informações propositadamente manipuladas. Nos debates, fogem a todas as perguntas concretas gritando com dedos em riste.
O populismo socorre-se dos medos mais básicos e da irracionalidade mais profunda para instigar o ódio e o preconceito. Propõem soluções aparentemente simples mas impossíveis para problemas que são muito complexos, difíceis e que tentamos resolver desde há muitos séculos.

A mais boçal das simplificações é a divisão do mundo entre “pessoas de bem” e os outros. Para os apoiantes do embuste, as pessoas de bem são aquelas que pensam como eles e que têm a mesma cor de pele, orientação sexual, crença religiosa ou filiação política. Pior: consideram que o seu lado é o único onde se encontram as “pessoas de bem”. Ainda que estejam do mesmo lado de Trump que acabou de promover um ataque onde morreram cinco pessoas, uma das quais era polícia. Ainda que estejam do mesmo lado de Steve Bannon que acabou de ser detido por corrupção. Ainda que estejam do mesmo lado de Le Pen que quer expulsar os emigrantes de França, incluindo os portu- gueses, a quem acusa de serem parasitas da sociedade e de viverem à custa dos franceses. Ainda que estejam do mesmo lado de pessoas que participaram em atentados terroristas. Ainda que estejam do mesmo lado de pessoas que já foram condenadas por ataques racistas. Ainda que estejam do mesmo lado de pessoas que estão acusadas de crimes de ódio político, racial ou homofóbico. Ainda que estejam do mesmo lado daqueles que atacam as suas próprias famílias. Os populistas já assumiram que querem uma “ditadura do bem” e nós sabemos que isso não é mais do que a ditadura do seu próprio interesse.

Os tempos que vivemos são difíceis. Apesar de termos melhorado as nossas condições de vida ao longo das últimas décadas, ainda subsistem graves problemas de desigualdade nos países ocidentais a que se somam vieses de perceção. A sociedade de pendor fortemente individualista em que vivemos favorece a crença de que o mérito resulta exclusivamente do esforço individual, desvalorizando o contributo do Estado e da organização social para o desempenho de cada um. O Estado hiperburocrático e de funcionamento demasiado complexo também não tem conseguido ser claro na comunicação da relação entre o contributo e o benefício de cada um. Todos acreditam que contribuem mais do que recebem do Estado e isso facilita uma perceção de injustiça que os populistas gostam de explorar e manipular.

No que respeita ao RSI, o valor médio que cada pessoa recebia em novembro de 2020 era de 119€/mês. Entre as pessoas que recebem RSI encontram-se muitos doentes, idosos, crianças e adolescentes que, apesar do apoio do Estado, continuam a viver abaixo do limiar da pobreza. O RSI é mais fiscalizado que todos os outros apoios sociais, incluindo o subsídio de doença ou os apoios à atividade económica para a covid19. Utilizar o RSI como arma política revela falta de seriedade mas também falta de empatia por aqueles que vivem em condições de pobreza indigna e desumana.
Percebemos que haja entre nós quem esteja revoltado por sentir que o seu trabalho não é remunerado de forma justa. Percebemos que haja quem, recebendo subsídio de desemprego, ache que outros não deviam receber RSI. E percebemos que haja quem, usufruindo de benefícios sociais de apoio à parentalidade, entenda que outros não deviam receber subsídios de doença. Percebemos isso tudo porque sabemos como funciona a espécie humana.
O problema é que os populistas não têm soluções nem conseguem colocar-se no lugar do outro. Respondem a interesses económicos que os financiam e que vêm nestes movimentos uma oportunidade para o domínio político e o lucro financeiro.

Nas últimas semanas temos assistido por parte de destacados militantes do PSD e do CDS à promoção de um candidato fascista que pretende instaurar a tal “ditadura do bem”. Uns fazem-se desentendidos como se não vissem os riscos do que estão a promover; outros assumem que o apoio é instrumental: apenas querem regressar ao poder pelo poder. Uns e outros cometem um erro muito grave e com dolo.
Depois do que se passou com Trump, não existe mais nenhuma desculpa. Os lobos que se apresentam a votos não têm pele de cordeiro. São perigosos, são nocivos e são uma ameaça à nossa democracia e à nossa liberdade. E se ganhassem seriam também uma ameaça para os que os apoiam. Mas podem ficar descansados: quando os fascistas vierem buscar muitos deles e as suas próprias famílias, haverá muitos mais que – como eu –não cessarão de defender a liberdade e democracia.

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