Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Livros, muitos livros

O mito do roubo de trabalho

Voz às Bibliotecas

2017-12-21 às 06h00

Victor Pinho

Escreveu Maria Luísa Cabral (Bibliotecas Acesso, Sempre, 1996): “Imagine-se uma biblioteca que estanque a renovação das suas colecções: mais depressa do que levou a construir os núcleos centrais, assistirá impotente à sua completa desactualização pela rapidez com que o mundo evolui. Tratar-se-á, então, de um retrocesso lamentável (todos os retrocessos o são) e muito dispendioso (pelos anos de trabalho que num ápice se desperdiçam). As vantagens de uma aquisição atempada (ou idealmente antecipada ao lançamento da obra) são evidentes.” (...) “Finalmente, a última batalha: disponibilizar os livros comprados, expô-los, anunciá-los. Dar de ler a quem tem fome, ou aguçar o apetite dos mais enfastiados.”

O livro continua a ser o principal elemento do conhecimento e da aprendizagem e a defeituosa compreensão dos conteúdos escritos decorre frequentemente da ausência de prática de leitura.
Só através de um trabalho sistemático e continuado, desenvolvido a longo prazo, será possível obter alterações substan- ciais na situação actual. Embora se registem progressos nos níveis de leitura, estes ainda são baixos na população portuguesa, significativamente inferiores à média europeia, tanto na população adulta, como entre crianças e jovens em idade escolar.

O Plano Nacional de Leitura, que no Município de Barcelos tem a sua expressão através do projecto “Barcelos a Ler”, visa constituir uma resposta aos níveis preocupantes de iliteracia da população, nas diferentes faixas etárias.
Abrir novos horizontes, promovendo a expansão e consolidação de hábitos de leitura é de primordial importância. O envolvimento efectivo da comunidade na promoção da leitura é fundamental para garantir a ocorrência de mudanças profundas e duradouras na sociedade.
Mas, a leitura só pode efecutar-se com livros, renovados e actualizados.

Na verdade, para que uma biblioteca possa desempenhar cabalmente o seu papel social e cultural deve dispor de uma variedade suficiente de documentos, nos seus diversos suportes, de modo a despertar o interesse ou satisfazer as necessidades dos seus utilizadores, a todos os níveis. Qualquer biblioteca só pode funcionar eficazmente se mantiver actualizadas as suas colecções e proceder a aquisições regulares de livros, jornais, revistas, cd’s, cd-roms, vídeos e dvd’s. Sem isso, uma biblioteca deixa de cumprir os seus objectivos de informação, de cultura e de lazer.

As bibliotecas não podem viver sem livros. É como o sangue que corre corpo. Se não fluiu, se a sua circulação é interrompida provoca trombos, paralisia, com efeitos nefastos. Se não houver livros nas bibliotecas, as colecções morrem, definham. Os leitores afastam-se e deixam de mostrar interesse pela leitura.

As bibliotecas devem ter uma verba definida em orçamento municipal para aquisição de livros, mas quantas vezes essa verba é irrisória ou é desviada para outros fins. É que nem sempre quem tem a responsabilidade de definir a política financeira de aquisição de livros tem a clarividência necessária e o gosto pelos livros que o leve a considerar como natural e imprescindível a sua aquisição.

Quando, há cerca de vinte anos, o então Ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho esteve em Barcelos para inaugurar a Biblioteca Municipal de Barcelos referiu que gostava de inaugurar bibliotecas com livros. O mediático e controverso professor de filosofia dava um indelével remoque ao então Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio que tinha estado presente, dias antes, na inauguração de uma biblioteca no interior do nosso país e que apresentava poucos livros.

Esta questão, aparentemente casual, é de uma importância extraordinária para a sobrevivência e a afirmação das bibliotecas municipais nas suas comunidades. Como constava e consta dos contratos programas assinados entre o governo e as autarquias para a construção das bibliotecas públicas, estas devem ser dotadas de um quadro técnico especializado, de possuir livros, jornais e revistas, de temática diversificada e que correspondam ao interesse dos seus utilizadores e equipamentos modernos e funcionais.

Neste Natal ofereçamos livros, transformemos o presépio de Belém numa Biblioteca acolhedora, num exemplo de simplicidade e de saber, em que a estrela vista pelos Magos continue a iluminar-nos e a orientar-nos neste mundo cruel, injusto e corrupto.

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