Correio do Minho

Braga, terça-feira

Limpeza da Floresta

O Verão quente de 2017

Escreve quem sabe

2018-02-24 às 06h00

Ana Cristina Costa

Pelas mensagens via correio eletrónico e telefonemas que temos recebido nos últimos dias, receamos que, no que diz respeito a limpeza da floresta pior será a emenda que o soneto.
O ano 2017, em particular nos meses de junho e outubro, é do conhecimento de todos, que foi catastrófico para Portugal em termos de incêndios, a juntar a muitos outros anos, se bem que estes de muito menor gravidade.
O problema é a existência de monoculturas de espécies exóticas (nomeadamente eucaliptos e pinheiros, pois mesmo estes não são espontâneos em grande parte do território nacional), pondo particularmente em risco pessoas e bens, quando próximas de habitações e de vias de comunicação.
Assim, quando se fala de limpeza da floresta o que pretendemos dizer? Retirada de matéria orgânica? E o que fazer com ela? Rejeita-se para aterros ou queima-se? Antes, eram retirados os matos e vinham a constituir a cama do gado e depois de enriquecidos com as fezes e urinas de animais, era o estrume, que era colocado no solo. E assim se fazia a agora tão falada economia circular.
Mas rapar como se ouve, é deixar o solo nu, sujeitando-o a grande erosão e não promovendo a infiltração da chuva, aumentando assim a seca, e portanto a probabilidade de fogo

A nova legislação tende a não ver a floresta como um ecossistema e sim como algo de quase maquiavélico. Isto é, as árvores não podem estar agrupadas, tendo de se manter uma determinada distância entre elas. O sub-bosque (arbustos e mesmo herbáceas) têm de ser cortadas a certa altura, o que impedirá, nalguns dos casos, a sua reprodução, reduzindo a biodiversidade do espaço. Ora é mesmo essa biodiversidade que é a grande defensora dos ecossistemas, e portanto também da floresta.
O grande inimigo é o Homem, com as suas práticas florestais (ou abandono do território depois de causado o desequilíbrio) e hábitos piromaníacos.
A legislação tem o cunho de quem não conhece o território nem tem grandes noções de biodiversidade. Dá ideia de ter sido simplesmente redigida no gabinete, na capital, longe da Natureza.
No entanto, o desordenamento permanece, continua-se a ver derrubar floresta para construir vivendas, prédios ou fábricas e armazéns junto da floresta que resta, quando há tantas habitações vazias e parques industriais subaproveitados!

Com a difícil, e muitas vezes errada, interpretação que está a ser feita, e com a saída de nova legislação todas as semanas, a confusão está instalada! As pessoas pedem esclarecimentos, os técnicos andam aos papéis pois aquilo que afirmam num dia no seguinte está desatualizado, as brochuras que fazem para melhor esclarecimento quando chegam às gráficas já de nada servem E quem sofre é a Natureza pois com o receio de serem alvos de coimas, os proprietários estão a cortar árvores de forma drástica, muitas das vezes até fruteiras, estão a cortar o sub-bosque mais ainda do que é recomendado, com receio que já tenha crescido quando vierem os fiscais e tudo isto está a abrir caminho a mimosas e outras invasoras, que encontram o solo exposto. Assim, depois de afetadas as plantas são afetados os consumidores primários e secundários, e temos as aves sem ninhos e sem abrigos e sem alimentos (e todos ao animais). Se calhar, resta-lhe migrarem para a cidade!
Vamos ver o que no final vai sobreviver às motosserras e às tesouras de poda!

Mas, sendo o Minho uma região de minifúndio, e não havendo cadastro florestal, se ainda acrescentarmos o facto de muitos proprietários terem herdado uma bouça que nem sabem ao certo onde fica, os municípios vão ter uma verdadeira maratona pela frente! Falta saber se têm forma de contratar serviços externos em tão pouco tempo (dadas as solicitações, podem não chegar para a procura!) e se têm como lhes pagar depois!
E no final o que vão fazer com essa matéria orgânica? Queimá-la? Aumentando assim o efeito de estufa e portanto as alterações climáticas?
Que impere o bom senso e principalmente a biodiversidade. Que a floresta seja de espécies diversas, em mosaico e tendo o máximo de ordenamento ainda possível!

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