Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Limpar Portugal: e depois?

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Ideias

2010-03-15 às 06h00

Artur Coimbra

No próximo sábado, 20 de Março, véspera da chegada da Primavera e do Dia Mundial da Floresta, muitos portugueses dispõem-se a “Limpar Portugal”, uma intenção louvável, certamente, encantadora, prenhe de boa fé e de intenções as mais admiráveis, mas que não passa de mediático folclore, na perspectiva do cronista.

Na página electrónica da campanha (www.limparportugal.org) pode começar por ler-se uma absoluta tautologia, algo que o senso comum há muito proclama, como observação pragmática, seja qual for o ponto do território onde se encontre: “Vivemos num país repleto de belas paisagens mas, infelizmente, todos os dias as vemos invadidas por lixo que aí é ilegalmente depositado”.

Ora aí está uma realidade que o comum dos mortais não deixa de, infelizmente, presenciar no quotidiano das deambulações por estradas e caminhos de montanha. Longe de nós ou à nossa porta.

Que fazer perante tal constatação? Alertar as autoridades para efectuar a limpeza? Levar o assunto à consideração das autarquias, que têm a incumbência de zelar pelo ambiente?
Não, lança-se uma campanha pelo país abaixo, uma coisa em grande; convoca-se a comunicação social, cria-se uma página na Internet, mobilizam-se escolas e escuteiros, coisa em grande; marca-se um dia para a operação de limpeza, em que não faltarão as televisões e as rádios a cobrir o acontecimento. Coisa em grande, sempre.

Os portugueses são inventivos e limpos, mas nem tanto. Como cá nada se cria e tudo se copia, já com uns anos de atraso, como alertava Eça de Queirós há mais de um século, aí vamos nós importar a ideia de um projecto desenvolvido na Estónia em 2008, em que um grupo de amigos decidiu colocar “Mãos à Obra” e propor “Vamos limpar a floresta num só dia”. Como os portugueses mantêm, e ainda bem, um saudável espírito de voluntarismo e de generosidade, organizou-se um movimento cívico que, entre outros intentos similares, promete “remover todo o lixo depositado indevidamente nos nossos espaços verdes”.

Repito: não me canso de elogiar as intenções da iniciativa, nas suas vertentes de limpeza das milhares de lixeiras que nascem como cogumelos nas bermas das estradas nacionais ou vicinais, ou nos esconsos dos montes mais retirados, e na defesa do meio e promoção da educação ambiental.

Contudo, estas campanhas nauseiam-me, porque visam, em grande medida, o espectáculo puro e simples, para as objectivas dos fotógrafos e dos operadores de câmaras televisivas, para os gravadores dos jornalistas. Porque, que diabo!, as estrumeiras que se pretendem remover no próximo sábado, já lá estão há uns anos ou há uns meses largos. Porque é que só agora se lembraram que elas existem e que é necessário remover os lixos que cobrem o país?

O que mais me espanta é haver autarquias que colaboram activamente nesta iniciativa. Porque “Limpar Portugal”, da forma aparatosa como está anunciado, mais não representa do que um atestado de incompetência à acção das autarquias na área do ambiente. Porque as câmaras e juntas de freguesia têm obrigação de debelar as lixeiras, quando aparecem nos seus territórios. O que acontece com as forças policiais, como a GNR, que tem um departamento operacional para o ambiente. E que deveria suceder, de resto, com todos os cidadãos, que deveriam ser guardiões da natureza limpa!

Não se entende, assim, que um evento com aquelas características tenha o envolvimento de quem tem por obrigação legal evitar que aquelas situações pululem um pouco por toda a parte. Ou serei eu que estou a ver mal? Se tal acontecer, desde já me penitencio…

Limpas as lixeiras, alindada a paisagem, pergunta-se: e depois? O que vai acontecer nos dias e meses seguintes, quando a falta de civismo de tantos portugueses continuar a depositar frigoríficos e sofás nas orlas das estradas e centenas de pneus nos campos e nos montes, de preferência em locais pateticamente recônditos? Vamos continuar a campanha “Limpar Portugal”, ou ficará por 20 de Março e para nunca mais?

E as autarquias, o que irão fazer daqui para a frente? Contemporizar com as situações, por falta de meios ou de interesse? E as forças da ordem? E as escolas? E o associativismo ambiental?
Dir-me-ão que é melhor limpar uma vez, que não limpar nunca. Concordo em absoluto, mas não me parece que resolva a situação. É como a história de dar um peixe ao pobre, ou ensiná-lo a pescar, como parece ser mais correcto.

Mais que estas campanhas, que me cheiram sempre a segundas intenções, perdoem-me os seus organizadores e os seus voluntários aderentes, importa sim fomentar, energicamente, desde os escalões etários mais jovens, atitudes de sensibilização para a defesa do ambiente, para a necessidade de não conspurcar a paisagem, seja com que material for, enfim, para a urgência da educação ambiental, de que tanto se fala e de que escassos resultados se divisam.

E, já agora, importa também, forçoso é evocá-lo, activar os mecanismos repressivos relativamente aos prevaricadores. E suscitar uma atitude de vigilância colectiva que mais não é do que a defesa do civismo e da vida em comunidade. Não será difícil, muitas vezes, chegar à identificação de quem contamina o ambiente e desfigura a paisagem. Há sempre alguém que passa e vê quem descarrega “monstros”. Deve denunciá-lo às autoridades, para que pague por aquilo que não deixa de configurar um crime ambiental.

A educação, a vigilância cívica e a repressão, quando necessária, são os caminhos mais profícuos para a inutilidade de batalhas, simpáticas mas inoperantes, porque localizadas no tempo, como a que promete “Limpar Portugal”.

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