Correio do Minho

Braga, segunda-feira

'Ligeirinho', por João Castelo Branco

Como sonhar um negócio

Conta o Leitor

2010-08-24 às 06h00

Escritor

Nos idos anos oitenta, num período de vida caracterizado por alguma instabilidade, encontrava-me a trabalhar numa gráfica. Era uma secção de offset, numa casa propriedade da entidade diocesana local.

A referida oficina, de tradição e carisma religiosos, era administrada por um padre quase sexagenário, de nome Franklin, que há anos a geria com perseverança e temperança cristãs.

Um dia, apareceu na oficina, pedindo emprego, um indivíduo de estatura pequena, acompanhado da sua recente esposa, manca de uma perna e já quarentona de idade.

Tinham contraído matrimónio por procuração. Ora, como o João Santos, de sua graça, era de Lisboa, tinha o casamento impelido o homem a procurar trabalho fora da capital, já que a sua Conchita, modista, tinha o seu modesto salão numa povoação de província.

Pesasse ainda a paixão ou já só apenas o amor amadurecido por um ano de íntimas e fogosas investidas amorosas ( - Vamos aquecer o palhaço? - propunha-lhe ela de jeito brejeiro nas longas manhãs de domingo), certo é porém que já desejava ver o seu amado ocupado, pois o folguedo a que se tinham habituado de há já algum tempo, começara a preocupá-la.

Era um cinco réis de gente, com cerca de um metro e sessenta de altura, cara abolachada, faces avermelhadas e cabelo liso, escuro, quase a deixar cair a franjinha sobre os olhos. O nariz ligeiramente comprido e os olhos esbugalhados, de um verde acastanhado, exteriorizavam uma expressão melancolico-cómico que ora nos fazia rir ora chorar.
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Trajava de boné de pala na cabeça, usando camisa de colarinhos compridos, calça cinzenta de “terylene” clássica à boca-de-sino e camisola de gola em bico. A compor a toilette, deixava descair a gabardine pelas costas.

O religioso gestor, homem de origens rurais, embora não fosse lesto na admissão de pessoal qualificado e exigente de salário, era contudo vulnerável, a pedidos de conterrâneos ou de trabalhadores antigos para que lhes admitisse os filhos ou entes próximos.

- Vou ver o que posso fazer… não sei… isto está mau… - dizia com pronúncia sibilina.
Ora, como a Conchita era conterrânea do padre Franklin o nosso amigo João, lá conseguiu um lugar na fotomontagem, embora o seu lugar de predilecção, a fotografia, estivesse ocupado pelo Martinho, antigo trabalhador da casa e confidente do sacerdote.

Tornara-se notado pelo seu andar pitoresco: passos curtos, balanceados e executados com rapidez, inclinando ligeiramente a cabeça para a direita e colocando a mão na cinta com laivos de feminilidade valer-lhe-iam uma alcunha singular.

- Olha, lá vem o Ligeirinho! - diziam os impressores.
- Mais um chanfrado… pois… já cá havia poucos, já! - observava no seu recatado cinismo o Correia.
- Casou tarde o tipo… a gaja deve ter massas - comentava o Martinho, de sorriso trocista nas lunetas.

O tempo foi fluindo e o Ligeirinho habituado às agruras da vida lá se foi apercebendo das manhas do pessoal, dos seus caciquismos, dos seus mal-estares. Uma vez por outra ainda tentara agigantar-se em explicações sobre máquinas fotográficas de offset, lentes, obturadores, divagações sobre sombras e luz… mas, a porta não se abria, é que os circunstantes quase se dilaceravam, na busca de uma promoção profissional.

- É um pobre diabo…num percebe patavina disto ! Ui…isso…
- Coitado do moço… deixe lá Sô Martinho… também… um Zé merdas qualquer… - retorquia o Ferreira, de bigode agressivo e pose superior.

Aos poucos fomo-nos conhecendo e vivendo peripécias, ao mesmo tempo que revelávamos chapas, retocávamos, arrumávamos fotolitos e fazíamos as secagens demoradas no forno. É que este era perto do local de trabalho da Natália, uma estudante-trabalhadora de formas esculturais, que ganhava a vida retocando fotografias.

Era uma moça de trato simples apesar da sua beleza. A pronúncia ligeiramente rural emprestava ainda mais formosura e sensualidade ao seu tom de voz levemente rouco.

Um dia, debruçada sobre o tanque de revelação, expondo de todo involuntariamente a sua feminilidade, foi acometida por um arremesso assustador do Ligeirinho, deixando cair o garrafão de revelador, fotolitos e pincéis, que num estardalhaço impressionante se fizeram ouvir em toda a secção, levando a fama de maluco do João Santos aos quatro cantos da casa.

- Oh! Senhor João… olhe que você! - exclamava a rapariga.

Doutra vez, corria uma indolente tarde de Verão de escasso labor e o João Santos aparece na secção armado de umas chouriças caseiras do seu querido sogro, mais umas garrafitas de bom e caseiro tinto da mesma lavra. O repasto destinava-se a nós, à Natália e a um outro companheiro de ocasião, de alcunha Zé Pechato, bom contador de anedotas mas mau assador de chouriças. É que os cortes efectuados com prosápias de sabedor do ofício, deixaram resquícios no forno que aí pernoitaram.

No sábado de manhã, encontrando-se o abade em afazeres gestionários no seu gabinete, começou a sentir que um odor a carne queimada lhe invadia as narinas.

Ademais, sabendo ele dos afazeres extraordinários do Martinho da fotografia no andar de baixo, vai de irromper escadas abaixo bramindo frémitos de terror:

- Ó Martinho! Ó Martinho! - Por momentos julgara estar a consumir-se uma tragédia…

Algum tempo depois, arma-se uma zaragata enorme na offset, motivada por desavenças entre o Martinho da fotografia e o chefe da secção de montagem, o emproado Ferreira. De bigode eriçado, fremia blasfémias, agourava destinos e acusava-o de ingerências desfavoráveis à sua pessoa junto do padre Franklin, razão da sua não promoção a oficial de primeira.

No mês seguinte, despedia-se discretamente, dizendo que saía mas para ir para vendedor de artigos do ofício.

Ora encontrando-se a secção de montagem à deriva tinha chegado a vez do primário Correia emergir, fazer a transição da tipografia para montagem de offset o que lhe tinha sido prometido, todavia difícil de cumprir, devido ao mau feitio do trabalhador.

O que se passou a seguir seria a todos os títulos impossível de aqui narrar em detalhe, pois pouco tempo depois rescindia eu o contrato, já que outras aventuras prioritárias se iriam seguir…

Passados uns anos, quando já me encontrava no fim de curso que iniciara à época da saída da gráfica, encontrei-me com a Natália numa das ruas da cidade. Estava uma mulher ainda mais bonita de que na altura.
Tomámos um café juntos e conversámos imenso.
Saíra da gráfica há cerca de dois anos e encontrava-se a trabalhar em contabilidade numa empresa de mosaicos. Estudava de noite, e tencionava seguir economia ou gestão.

Da oficina, contara-me que também o Correia se aguentara pouco tempo na montagem e que, tendo o senhor João Santos passado por lá, depressa se tornara fotógrafo, já que o senhor Martinho se reformara. Muito recentemente, o Ligeirinho, ascendera a encarregado de todo o trabalho de offset.
Nessa noite, adormeci com uma inesperada sensação de calma e felicidade.

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