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Liderar em tempos de mudança

O Estado desta Nação

Liderar em tempos de mudança

Ideias

2024-06-14 às 06h00

Pedro Tinoco Fraga Pedro Tinoco Fraga

Continuamos nas empresas a discutir algo que consideramos essencial : como envolver as pessoas? Preocupamo-nos imenso pois percebemos que cada vez mais os colaboradores (trabalhadores) estão desligados do dia a dia das organizações e achamos que resolver essa questão é o principal desígnio da nossa liderança, esquecendo por vezes que o principal desígnio de uma organização empresarial é criar riqueza para todos os seus stakeholders sempre procurando ter impacto nas comunidades circundantes nas vertentes cultural e social.
Usando como curriculum o facto da F3M ser há mais de uma década, de forma consecutiva, uma das 100 melhores empresas para trabalhar (num ranking não pago, pois os rankings em que se paga para concorrer pouco ou nada me dizem já que limitam drasticamente o numero de empresas que concorrem) afirmo que as empresas e os empresários (nos quais me incluo) estão actualmente demasiadamente focados no engagement dos seus colaboradores e menos na produtividade das suas organizações. Mas, vou mais longe, sinto que muitos de nós vivem iludidos com a ideia que os seus colaboradores estão fortemente envolvidos com as suas organizações em função de uma multiplicidade de acções de índole cultural, social e recreativa que a(s) sua(s)/nossa(s) empresa(s) realiza(m). Olho para a minha empresa e olho para dezenas de outras e vejo um esforço brutal, diário, constante, em proporcionar aos colaboradores vivências que vão muito além do trabalho diário, vivências que permitam a esses colaboradores e às suas famílias ganhar mundo e ganhar “ferramentas de vida”. E sendo concreto vejo que há três possibilidades de olharmos para o resultado desse esforço : i) fazemo-lo por profunda convicção e fá-lo-emos sempre mesmo que os resultados sejam cada vez menos animadores; ii) fazemo-lo por convicção mas não temos a coragem de assumir que os resultados desse esforço são tendencialmente uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma e iii) fazemo-lo por profunda convicção mas começamos a ter sérias dúvidas se vale a pena a manutenção desse esforço pois o envolvimento das pessoas é cada vez menor.
Sejamos realistas : muitos empresários da minha geração, nascidos na década de 60 criaram empresas há 10, 20, 30 anos numa altura em que a realidade do mundo de trabalho era outra e em que as empresas com efectivas preocupações com o bem-estar humano dos seus colaboradores tinham efectivo sucesso e tinham níveis de envolvimento muito alto. A realidade hoje é bem diferente e não foi apenas a pandemia que provocou uma enorme diminuição no nível de envolvimento dos colaboradores em relação às organizações.
Actualmente os interesses dos colaboradores (e dos empresários) são muito mais diversificados, a omnipresença dos dispositivos móveis e das redes sociais leva a que para muitas pessoas o enésimo vídeo imbecil do tiktok ou a partilha de uma fotografia (que devia ser pessoal) “no insta” assumam mais importância que uma ida ao teatro. Na realidade a existência de novas (?) componentes de atracção para todos nós + os amigos + a família, implica que pouco ou nenhum tempo resta para o envolvimento em acções que as empresas levam a cabo, quer seja um debate sobre a violência doméstica, uma ida a uma peça de teatro ou uma palestra sobre o impacto das redes sociais na vida futura das crianças.
Admito que alguns colegas empresários que lerem esta crónica poderão dizer/pensar: na minha empresa isto não se passa. Peço desculpa caro colega, mas não acredito! E este não acreditar deve-se a eu admitir que pode haver uma situação de negação da realidade por parte desses empresários, pois todas as análises sérias realizadas a nível mundial confirmam esta situação: cada vez há um menor envolvimento dos colaboradores na vida das empresas. Assumo que tal me custou a aceitar mas hoje assumo isso como uma realidade incontestável.
Por isso como empresário assumi já o fim dessa “angústia empresarial” de me questionar muitas vezes porque é que os colaboradores de uma das melhores empresas para trabalhar em Portugal vão perdendo o seu envolvimento com a organização. Usando uma linguagem coloquial … ” é fruta da época” mas, neste caso, a época é contínua.
Lembro-me agora de José Afonso e da letra de “Traz outro amigo também”.
“Seja bem vindo, quem vier por bem
Bem vindo seja, quem vier por bem”
Por isso o nosso dever como empresários é promover o envolvimento dos nossos colaboradores e ajudá-los a ter mais mundo, mas deverá vir connosco quem quer, “quem vier por bem” e não quem se sentir compelido a isso pela pressão que as empresas colocam nos seus colaboradores para participarem em actividades de valorização pessoal.
O mundo do trabalho mudou e vai continuar a mudar e não podemos ser saudosistas em relação ao que tínhamos há 5 ou 10 anos.
É uma nova realidade à qual temos de nos adaptar sem angústias e sem acharmos que estamos a fazer algo de errado quando sentimos que o envolvimento dos colaboradores vai diminuindo. Tem diminuído e vai continuar a diminuir e enganamo-nos se não pensarmos que não estamos a caminhar para uma “tarefização” do trabalho pois cada vez mais as nossas equipas estão nas instalações da empresa, em casa em Braga, em casa na Póvoa de Lanhoso, em casa em São Paulo (Brasil), em casa em Bangalore (India), etc, etc. Esperarmos de equipas multipolares o mesmo nível de envolvimento que tínhamos com as equipas todas a 100% nos nossos edifícios é o mesmo que continuar a pôr a meia na lareira à espera que o Pai Natal desça pela chaminé, ou seja, vivermos num mundo de conto de fadas. Continuemos a envolver os nossos colaboradores nomeadamente aqueles que querem ser envolvidos em actividades de valorização humana e façamos toda a sociedade perceber (a começar pelo movimento sindical) que a esmagadora maioria das empresas tem sérias e genuínas preocupações com a melhoria de cada colaborador como ser humano. Agora não podemos ter qualquer angústia pelo facto de apesar das nutricionistas, das massagistas, das aulas de yoga, dos serviços de lavandaria, dos fins de semana de team building, dos seminários de valorização pessoal em gestão, escrita criativa, inglês, filosofia, história de arte, violência de género, dos workshops de sushi, cozinha asiática, cozinha portuguesa, dos bilhetes para o teatro, dança, concertos rock, etc etc etc etc ou seja apesar de tanta mas tanta coisa que tantos milhares de empresas proporcionam aos seus colaboradores, estes se sintam cada vez menos envolvidos e, em alguns casos, “ouvimos um silencioso” desamparem-me a loja pois eu quero usufruir do meu tempo da forma que eu quiser independentemente das sugestões da empresa.
Encaremos a realidade. Acreditemos que só colaboradores mais envolvidos geram melhores organizações mas aceitemos que focarmo-nos demasiado nesta questão, nos tempos que correm, é um desafio que provavelmente nos irá dispersar do nosso dia a dia de líderes.

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