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Meio século de liberdade

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Escreve quem sabe

2023-05-29 às 06h00

Ricardo Moura Ricardo Moura

Se há exercício difícil no homem é parar. Assoberbado por inúmeras solicitações, respeitar o stop cria desconforto. Uma nudez que morde, imprópria para o holofote. Com isto, rega o olhar na insustentável luz social. Os dias são caricaturados. De quando em vez, há uma voz interior que pede maresia, logo sacudida pela tempestade do palco. Assim correm os dias, sem brisa nem luar.
Este gancho ajuda a refletir sobre uma das nódoas deste país. Quase 60% dos portugueses não leu um único livro o ano passado. Escrito de outra forma, mais de metade da população passa um ano sem ler uma obra literária. A conclusão foi tornada pública, por estes dias, pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), no inquérito relativo ao rendimento e condições de vida.
Mais grave é saber que não há estímulos desde tenra idade. Um inquérito, também ele recente – concebido pela Fundação Gulbenkian e pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa – revela que mais de 70% da lusa pátria nunca foi conduzida a uma livraria na infância ou adolescência e quase 80% não sabe o que é visitar uma biblioteca. Pode até abrir a boca de espanto, mas se pensar bem e olhar para o lado talvez a feche sem dificuldade.

O autor destas letras cresceu numa casa sem livros por razões que não cabem aqui. Apenas os escolares preenchiam a minha vista. Foi assim até entrar no ensino superior. Por essa altura, percebi o quão curto era o meu imaginário. De lá para cá, tenho embarcado numa viagem sem bilhete de volta. À medida que o tempo se desenlaça, mais Mundo entra em mim. É impagável esta recolha. Isto para dizer que há sempre tempo para dar tempo à palavra. Não há idade para começar nem para desistir.
A meu ver, vivemos em maré de cólera. Um barulho surdo que rasga a ternura da manhã, tantas vezes alimentada no vazio. Não estranha o peso das redes sociais, a irresistível tentação das notificações, o vício por entrar na bolha. Há tantos amigos que nunca vimos. Uma malha sem rosto lançada mar dentro à cata do ímpeto like. É assim que se cosem os dias. Ao sabor da solidão, não raras vezes encardida pelo mofo, tamanho o intervalo no qual medramos a nossa opacidade.

Este retrato que desfigura a leitura tem espelho na preguiça do cérebro. Mergulhar num livro é, nos dias de hoje, um ato heroico. Andamos na rua e vemos cabeças vergadas em telemóveis. Ninguém conversa. Há mesas de corpo presente. Pais anulam o grito dos filhos com o tablet. Uma âncora que arrasta outras. Ler e escrever caminham para a memória. Fado triste de um país que teve no passado de ler meio Mundo para o destapar.
Se pensarmos que em 1950 quase metade de Portugal era analfabeto e que hoje a percentagem ronda os 3% – significa que ainda existem 300 mil portugueses que não sabem ler nem escrever, com especial incidência no Alentejo – deveríamos concluir que estamos no caminho certo. Porém, sem escamotear a estatística – embora tenhamos uma taxa de analfabetismo superior à da esmagadora maioria dos países europeus e bastante superior à vizinha Espanha (1,6%) – o que está aqui em causa é a inércia do ler.

Irónico saber que o livro não é prioridade numa era onde a oferta abunda. Não há memória de vivermos rodeados de tanta alternativa. A Internet veio abraçar aqueles que pouco tinham para receber. A tecnologia difundiu a quase gratuitidade da leitura. Ao invés, os jornais são lidos em diagonal. As gordas chegam. As notícias ganham barbas depois de uma ida à casa de banho. O jornalismo de investigação está morto. A Imprensa está subjugada a lobbies. A palavra independência é, cada vez mais, campo minado. Ninguém escreve censura, mas a opinião pública tem-na debaixo da língua. Há uma névoa que trava o bem fazer e até o bem escrever. Acresce que os livros em Portugal são caros. Privilegia-se a capa dura, o bom acabamento, as edições de colecionador. Em contraponto, num outro lado da Europa, compra-se barato, lê-se no comboio e antes de adormecer.
Não obstante, neste céu português há ainda quem capture o melhor rasgo de um fim de tarde, sentado na esplanada de uma livraria ou com o ouvido amaciado pelo estalar das ondas do mar. A companhia de um livro é a confissão perfeita. Nele podemos abrir o postigo das nossas inquietações e deslumbres. Com ele, desenhamos a estrada do por-do-sol, dançamos à chuva sem medo e deixamos correr o sorriso sem travão. Tudo isto existe, tudo isto está à distância de um clique de silêncio.

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