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Lenha, lenha, lenha para São Vicente

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Lenha, lenha, lenha para São Vicente

Voz aos Escritores

2021-01-22 às 06h00

Fernanda Santos Fernanda Santos

Tu viste uma por uma emurchecerem
As mais viçosas flores da tua vida;
E as esperanças o seu vendor perderem
Com a aridez da existência desflorida.
Júlio Dinis

Ao longo dos tempos, pandemias e outras doenças sempre inspiraram a boa literatura. Foram muitos os escritores que terão sido vítimas de algumas delas, nomeadamente da tuberculose.
Em Portugal, a doença vitimou, por exemplo, escritores como Júlio Dinis e Cesário Verde. Mas entre as vítimas contam-se também os escritores Edgar Allan Poe, Franz Kafka, Robert L. Stevenson, as irmãs Brönte, Anton Tchekhov e George Orwell também morreram da denomina-da tísica. Em língua portuguesa,
Manuel de Bandeira, também vítima da doença, escreveu o poema que retrata o quadro clínico, o diagnóstico e a falta de tratamento existente à época para a terrível tuberculose:
Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
Tosse, tosse, tosse. […]
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Entre golfadas de sangue e poesia, todos os poetas cantaram a doença como podemos ler em Cesário Verde:
Como é saudável ter o seu conchego,
E a sua vida fácil! Eu descia,
Sem muita pressa, para o meu emprego,
Aonde agora quase sempre chego
Com as tonturas duma apoplexia.
A afirmação da necessidade de escrever poesia nesta fase da doença é notória em Álvares de Azevedo:
Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida
À sombra de uma cruz e escrevam nela:
Foi poeta, sonhou e amou a vida.

A este propósito, ninguém melhor que Jorge Luís Borges para nos relembrar da importância do livro como a grande memória dos séculos, pois se os livros desaparecessem, desapareceria a história e, seguramente, o homem.
Edgar Morin, no seu livro” O homem e a morte” busca entender as diferentes reações humanas diante da morte através dos conhecimentos da pré-história, da psicologia e da religião. Diz ele que precisou de fazer uma viagem por todas as doenças sociais e humanas, recorrendo aos diversos saberes das áreas do conhecimento.
Para além da literatura e da arte em geral, também as lendas e crenças foram alimentadas pelas várias pandemias por esse mundo fora.
Já nos primeiros livros da Bíblia aparecem referências a pestes de todos os tipos. Na sexta das Dez Pragas do Egito, por ordem de Deus, Moisés enche as mãos de cinzas, atira-as para o céu e elas transformam-se em tumores que estouram em pústulas nos homens e nos animais […] E haverá fome, peste e grandes desgraças em diversos lugares.
A varíola, uma antiga inimiga, que acompanhou o homem por muitos séculos, causando mortes e lesões graves e irreversíveis, também suporta a crença de que São Vicente é o santo que protege as crianças, livrando-as da terrível doença. Hoje, em Braga, celebra-se a festa do mártir S. Vicente, santo que se acredita ter sido queimado vivo no numa fogueira.

Assim, ainda hoje se revive esta tradição de se fazer a Fogueira de S.Vicente. Antigamente, eram os rapazes da freguesia que andavam pela rua a apregoar Lenha, lenha, lenha para S. Vicente e a recolher, de porta em porta, os molhos doados pelos moradores. A Romaria dos Meninos é, no entanto, a iniciativa que continua a fazer jus à crença do santo como protetor das crianças. A tradição é muito antiga, mas a fé e a devoção fizeram com que perdurasse no tempo. Dezenas de crianças, acompanhadas pelos pais ou outros familiares, continuam a pedir a proteção a São Vicente, colocando uma vela junto da imagem do santo.

Tal como nos descreve a escritora Aida Araújo Duarte, revivendo a sua infância, os anjos (crianças) sempre fizeram parte integrante desta e de outras festas: Respeitosamente calados e fervorosos, eles revisitavam a sua infância, naqueles pequenos figurantes que, como eles outrora, alindavam a festa, emprestando-lhe ternura e inocência […].
Como em todos as romarias minhotas, o doce sempre aparecia e continua a aparecer e, neste dia, é costume obrigatório – sem este costume não haveria festa – comprar os Moletinhos de São Vicente, um saboroso bolo de pão lêvedo com um toque doce e divinal.
Se a varíola não é hoje uma doença tão temida como antigamente, os devotos dizem que motivos não faltam para os mais novos pedirem proteção divina.

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