Correio do Minho

Braga, segunda-feira

- +

Lendo em modo de transparência…

A lampreia na Escola, uma aluna especial!

Lendo em modo de transparência…

Ideias

2020-06-01 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

Num processo de desconfinamento e de regresso à normalidade (levando, de imediato, à dúvida se, hoje, saberemos o que significa “normalidade”), relembro frase escrita por Tolentino de Mendonça “a pandemia é o tirar do véu, é o retirar do filtro, hoje, vemos muito melhor”.
Independentemente da nossa capacidade analítica e de transformação, de alterar e perseguir, melhorando e potenciando as “coisas boas” que estes meses confirmaram e resolvendo / substituindo / corrigindo as “coisas menos boas” que estes mesmos meses evidenciaram, afigura-se consensual que este tempo pandémico destapou o “testo da panela” e permitiu-nos ver, descobrir ou confrontar com uma realidade e vários domínios, tantas vezes, mal assumidos, não percepcionados ou, simplesmente, negados.
Muitos repetem à saciedade que “toda a crise é uma oportunidade” e que, também nas crises, se verificam aspectos positivos. Acredito que tudo será uma questão de perspectiva. E de olhar para o dia de ontem, não com a crítica resignada mas com a confrontação incontornável de quem quer o dia de amanhã seja, simplesmente, melhor!
Em três, quatro meses, falamos sobre as cidades e as suas transformações balançadas entre um desejo planeado mas que a acção humana tarda(va) a concretizar e uma consequência imprevista que a acção humana não foi capaz de prever, antecipar e preparar.
Na verdade, muito se falou como as cidades ficaram mais limpas e com o ar cinzento menos espesso, como o trânsito se confinou e os canais viários se transformaram em potenciais pistas cicláveis seguras, como o espaço público se mostrou tão generoso na partilha e visualização do património e paisagem. Como a transparência de, e no, espaço público e no “ambiente” nunca foi tão forte ao ponto de motivar desejo e impulsos de tudo fotografar “a partir do céu” já que, a partir daí, nunca nada tinha sido tão nítido.
Igualmente, neste tempo pandémico, falamos da “descoberta” massiva do teletrabalho (e das suas ditas qualidades) e da (importância) da sociedade digital. E de quanto tal se traduz em benefício para todos e para o funcionamento (ainda que parcial) do suporte económico, cultural, administrativo da vida comunitária.
Ou seja, falou-se muito sobre a importância do planeamento e da sua relevância no processo urbano – já que um vírus tão imprevisto e mutável “fez” pelo ambiente urbano em meses o que planos atrás de planos não fizeram em anos – sobre a preponderância do digital e do teletrabalho na resposta concertada e global a crises e alterações dos contextos urbano e societal.
Mais do que tudo isto, acredita-se que este tempo trouxe outras evidências indisfarçáveis e que essas, de modo algum, podem ser esquecidas e desvalorizadas. Acredita-se que, este mesmo tempo, comprovou que, hoje, o planeamento é (deve ser) muito mais do que a antecipação do futuro e a construção de contextos e cenários do dia de amanhã seguros e previsíveis. Pelo contrário, o planeamento é a criação de condições que nos robustecem na resposta ao dia de amanhã. E que, por isso mesmo, nos impele e obriga a reunir e tratar, cada vez mais, dados e informação. E, estes, transformar em conhecimento para que, a partir daqui, possamos construir ferramentas e mecanismos de actuação no dia de amanhã.
O tempo actual mostra-nos uma oportunidade de ser “oportunista”, aproveitando o momento para introduzir medidas e acções disruptivas a nível da mobilidade e de comportamento viário. Mas também, o quanto é desnecessário é o trabalho presencial, não no sentido da produção, da interacção, da partilha social, da presença física mas, sobretudo, na visibilização de quantas reuniões indispensáveis ocorriam (e que, afinal, se revelaram tão dispensáveis e ultrapassáveis), de quanto “papel” anacrónico e de utilidade muito discutível é possível descartar, de quantas acções e tarefas que existem “porque sim e porque sempre foi assim” são tão inconsequentes, de quanto alimentamos circuitos administrativos, de decisão e de “despacho” que, afinal, nada acrescentam…
E este tempo recentrou a discussão colectiva na “sociedade digital” e na denominada digitalização dos serviços e instituições, na chamada desmaterialização do processo e da assunção da plataforma electrónica como ferramenta de trabalho privilegiada. Muito se fez e avançou neste campo. Nem tudo bem feito e com sentido, mas, reconhece-se, muito se fez. Seja como for, falta que o pensamento acompanhe e se ajuste a esta realidade, se formate e comporte em coerência com esta realidade digital já que, é convicção, se este tempo trouxe o “digital” para o centro, não reformatou o nosso pensamento “material” e ainda centrado no “papel. Isto é, continuamos a raciocinar na lógica da existência do documento e da sua necessidade e visualização. Esquecendo que “digital” vai muito mais além e implica todos na partilha de ferramentas e informação, obriga não à produção de documentos mas ao preenchimento e fornecimento de informação, muito mais a responder do que a apresentar, muito mais a partilhar e informar do que a produzir e formatar. Voltando ao Tolentino de Mendonça, este tempo pandémico mostrou-nos e tornou mais nítido o que nos envolve. E, acredita-se, demonstrou a importância do tempo na “gestão das coisas”. E o quanto é importante ir para lá da espuma das impressões. Assim saibamos aproveitar a transparência gerada para oferecer às cidades um “amanhã” melhor. Sempre melhor!

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho