Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Lembrando a microeconomia

Uma carruagem de aprendizagens

Ideias

2015-11-06 às 06h00

Margarida Proença

Muito perto do local onde trabalho, em Lisboa, começou há cerca de dois meses uma obra de pequena dimensão, que supus que estaria terminada em dias. Trata-se de baixar o passeio, de cada um dos lados da rua, numa zona delimitada de modo a permitir que as cadeiras de roda, ou na generalidade pessoas com mais dificuldades em termos de mobilidade, possam circular sem problema. Na verdade é um pouco mais do que isso - uma vez que a calçada á portuguesa é inegavelmente bonita quando está nova, e todas as pedrinhas que a compõem estão alisadas, o que não é muitas vezes o caso, a obra em causa exigia também a colocação de uma laje no início de cada um dos lados do passeio. Nada de mais.
Mas os dias foram passando e passando - e tudo quase na mesma. É difícil compreender como o trabalho está organizado, a que horas se começa e acaba ou qual a lógica seguida na implementação do projeto. O número de trabalhadores é variável, e muitas vezes não são os mesmos. E tudo parou de repente, porque aparentemente havia uma indefinição relativamente á cor da laje, e tal teria que ser deliberado na Assembleia Municipal. Possivelmente esta não é a verdadeira razão, e haverá outras de maior relevância, sei lá.
Esta pequena história tem a ver com alguns artigos que tenho vindo a ler com interesse crescente. Ao longo destes sete ou oito anos que a presente crise financeira leva em termos globais, a discussão continua a centrar-se quase exclusivamente em questões macroeconómicas, diminuir o défice, conter a dívida pública, a necessidade de implementar medidas de austeridade. E a crise, mais ou menos domesticada, por cá continua.
Essas questões são sem dúvida da maior importância; a macroeconomia trata da dinâmica das variáveis económicas agregadas, do comportamento, do desempenho e da tomada de decisão na economia como um todo. Problemas como o desemprego, a inflação, o crescimento económico, entre outras, justificaram ao longo de décadas o desenvolvimento de modelos económicos sofisticados, que por vezes de forma divergentes, mas sempre baseada em apenas dois instrumentos - a política monetária e ou a política fiscal - permitiram a definição e implementação de políticas económicas.
Já a microeconomia tem a ver com o comportamento dos indivíduos e das empresas quando tomam as suas decisões, sempre num quadro em que as suas escolhas são limitadas, pelos recursos que são escassos (até o tempo o é). A microeconomia estuda os mercados, a forma como os preços são formados, quais são as consequências das falhas dos mercados , porque é muito mais importante que haja concorrência para todos, consumidores e empresas, etc.
Qual é a relação entre a micro e a macroeconomia tem gasto rios de tinta; em meados da década de setenta, Robert Lucas, um dos economistas mais importantes do século XX, e que recebeu o prémio Nobel em 1995, argumentava que as políticas económicas desenhadas por modelos económicos complexos deviam ter em conta as expetativas das pessoas, os consumidores, as empresas. Tanto mais quanto a própria implementação das políticas podia alterar as expectativas, o que permitiria eventualmente resultados políticos indeterminados, já que os comportamentos se ajustavam. Se o objetivo é diminuir o consumo privado, e antevejo que o aumento da carga fiscal, ou a contração salarial se poderão vir a dar daqui a dois meses, por exemplo, posso tomar hoje todas as decisões de compra que previa vir a fazer, e acréscimo atual do consumo pode ser tão elevado que os resultados previstos com a política decidida não se conseguem obter.
Ora bem. O que tem isto a ver com a história inicial? Na minha modesta opinião (sou microeconomista, aqui fica a declaração de interesses…), é necessário prestar uma atenção maior ás questões estruturais. Bem sei que se está sempre a falar das famosas “reformas estruturais”, fica sempre bem no discurso político e jornalístico, mesmo académico, mas depois esquece-se.
A questão tem a ver com a competitividade, com a produtividade, e com o modo de funcionamento das instituições, o que pode colocar dificuldades reais, mesmo impedimentos, ao crescimento económico.
No quadro global onde todos os países se confrontam atualmente, é absolutamente necessário ser-se competitivo; produzir com custos elevados só é compatível com produtos muito inovadores, um grau de diferenciação elevado e com mercado comprovado. Produção de baixo valor acrescentado, ou mesmo de gama intermédia, não é, tanto mais quanto a tecnologia hoje torna muito mais acessível a qualquer consumidor a tomada de decisão sobre o que , e onde, comprar.
Custos tem a ver salários, com certeza, e com os custos fixos associados como a energia por exemplo, mas também com coisas como a organização da produção, uma gestão eficiente, definição e cumprimento de prazos, iniciar processos produtivos com projetos construídos do princípio ao fim, estabelecer de forma correta e não emotiva planos de negócio (o empreendedorismo é muito interessante, mas só se se transformar numa empresa de sucesso), ter cuidado com orçamentos familiares, definir prioridades de forma racional , etc.

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