Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Legislativas e autárquicas

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Ideias

2011-06-14 às 06h00

Jorge Cruz

No primeiro domingo deste mês os portugueses que se dignaram deslocar-se até às mesas de voto exprimiram claramente a vontade de se verem livres de José Sócrates. Os eleitores que se manifestaram através do voto decidiram mostrar um cartão vermelho ao governo socialista e entenderam dar uma oportunidade ao partido de Passos Coelho e, de caminho, dar uma boleia para o governo ao CDS.

Dir-se-á - e é a pura verdade - que a democracia funcionou, uma vez mais. E que a estabilidade política ficou absolutamente garantida, nomeadamente através de uma solução governativa estável. Importará agora acautelar a tão necessária estabilidade social, mas essa, muito embora seja desejável, não se afigura tão fácil de conseguir.

Creio ser mais ou menos consensual que, à partida para estas eleições legislativas, apenas a vitória dos partidos de direita podia garantir a tal estabilidade política que todos reclamavam. E era assim porque o PS estava impossibilitado de fazer acordos ou meros entendimentos programáticos quer à sua esquerda quer à direita. À esquerda por-que comunistas e bloquistas não subscreveram o memorando de entendimento com a troika, o que inviabilizava qualquer entendimento, e à direita porque social-democratas e democratas cristãos se recusavam a participar em qualquer solução governativa com José Sócrates.

Por estas ou quaisquer outras razões o eleitorado decidiu exprimir a sua confiança numa solução de direita, mesmo sabendo que estava a validar uma concepção liberal que encerra propostas altamente penalizantes para as camadas socialmente mais frágeis.

Sou dos que acreditam que para este desiderato muito contribuiu José Sócrates, embora também me inclua no grupo daqueles que entendem que ele não deve ser crucificado por isso. Podia tudo ter sido muito diferente? Creio que muito dificilmente. Afinal, estamos a falar de um governo minoritário, um governo que se confrontou com uma das mais graves crises económicas mundiais.

É certo que também foi um governo que frequentemente se furtou ao diálogo, um governo mais preocupado com a imagem, com a comunicação, do que propriamente com a resolução dos reais problemas do país. Mas a verdade é que o contexto em que foi obrigado a movimentar-se, quer no plano nacional quer no internacional, se mostrou muito pouco amigável e, em algumas situações, perfeitamente inqualificáveis como a dos mercados, completamente hostil.

Pouco adiantará agora chorar sobre leite derramado, como diz o povo. Importará, talvez, salientar que, pelo menos na despedida, José Sócrates deu mostras de grande dignidade. Entendeu a mensagem, de resto bastante clara, assumiu a derrota e saiu, como se impunha e lhe competia. O senhor que se seguirá, depois das eleições internas marcadas para finais do próximo mês de Julho, terá o difícil trabalho de colar os cacos e preparar o PS para um eventual regresso ao poder num horizonte temporal que não se adivinha próximo.

De facto, a coligação de direita tem condições excepcionais para levar o barco a bom porto: uma maioria parlamentar confortável, com uma distância considerável das oposições, e um presidente da República que não hostilizará. Além disso pode contar ainda com o importante “apoio” do Partido Socialista para a execução dos compromissos internacionais firmados antes das eleições. Aliás, mercê da vacuidade na liderança, creio que nos primeiros meses o governo vai encontrar um PS a fazer-se de morto, portanto completamente inofensivo.

Fácil é concluir que o próximo governo, e a sua longevidade, dependerão quase exclusivamente de si próprio. Não custa, pois, a acreditar que a próxima legislatura só não será cumprida se internamente for provocada uma implosão. Assim sendo, é previsível que os próximos quatro anos correspondam a um período de estabilidade política e governativa. Isso não significa, no entanto, que a paz social seja um dado adquirido.

Independentemente do aparecimento ou não de grandes manifestações de protesto, creio que para uma boa parte dos eleitores terminará cedo o estado de graça do próximo governo. A implementação das medidas que honram os compromissos assumidos com a troika colocará uma parte do eleitorado perante a dura realidade e gerará algum descontentamento que poderá vir a ter expressão nas próximas eleições autárquicas.

É também por esta razão que não acredito que o resultado das legislativas de 5 de Junho possa favorecer os partidos da direita nas autárquicas, como alguns tentaram sugerir. E não acredito porque o crescimento do seu peso eleitoral correspondeu ao esgotamento e consequente penalização de um primeiro-ministro sem convicções, arrogante e discursivamente violento.

Acontece que muitos dos que penalizaram Sócrates não demorarão muito a perceber que vai ser necessário aumentar os sacrifícios, que não será tão cedo que recuperarão o nível de vida, enfim, que a real situação do país não permite continuar a viver acima das possibilidades. Se perdoam a Sócrates ou não, não sei. Parece-me perfeitamente claro é que, sob o ponto de vista das autárquicas de 2013, o quadro político saído destas legislativas é mais penalizante para os vencedores de 5 de Junho do que o anterior.

Desenganem-se, pois, todos aqueles que julga(ra)m que o primeiro domingo de Junho de 2011 foi o início de um passeio que conduzirá à “laranjização” do país em 2013. Até lá, muita água vai correr sob as pontes. Entretanto, trabalho intenso é a receita óbvia para todos.

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