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Le Pen: a ironia à extrema-direita

O dente do javali

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Le Pen: a ironia à extrema-direita

Escreve quem sabe

2022-06-25 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Marine Le Pen conseguiu a façanha de multiplicar por 11 o número de parlamentares: eram 8, são 89. Ninguém o esperava. Visava ela a quinzena, para poder constituir grupo parlamentar. Sonharia com o dobro, com uma quarentena, e já aí nos limiares do delírio.
Engraçado foi o estado de confusão dos institutos de sondagens. As auscultações à saída das assembleias de voto prenunciavam algo de inédito, de bizarro até, a ponto de haver quem se tenha questionado sobre a propriedade ou conveniência de fazer sair os números. Onde estaria o erro? Que se teria passado? Com que certidão de óbito teriam levado a túmulo a «Frente Republicana», que anos a fio barrara vitórias à segunda volta, num “todos contra a extrema-direita”, apodada de quanto é indecente e impronunciável?

Em cima do resultado das presidenciais, Mélenchon, que não seria candidato a deputado, sequestrara as eleições parlamentares. Que o elegessem primeiro-ministro! Que se agigantasse a esquerda, que se aliassem vontades de uso presas a umbigos. Desafio que em si mesmo nada tinha de absurdo, chegassem as forças de esquerda a federar-se em plataforma eleitoral comum, pudessem elas, concomitantemente, seduzir uma massa de abstencionistas, essa metade maior de eleitores não praticantes.
Biblicamente falando, Mélenchon é um profeta, é alguém que os seus ouvem embebecidos, sem reparos ou sombra de críticas. É um tribuno de fina oratória. Também é um incendiário, e pode ter-lhe custado um bom punhado de votos a tirada “a polícia mata”, sentença dissociativa em que o efeito – os disparos, uma morte – vêm por sanha, sem causa primeira, sem uma infracção ou transgressão a que a autoridade houvesse respondido.

A récita do Estado-opressor, que faz a delícia de franjas folclóricas, não colhe junto dos estratos afiliados à sensatez e às tranquilidades da vida em comum. Não agrada Mélenchon a todos, nunca a uma maioria, nunca quando embandeira em derivas. Em tandem, por similar falha pecou o Executivo de Macron, mesmo em cima das eleições, com o que quis mascarar dos acontecimentos na final da Liga dos Campeões. Quiseram obliterar a impreparação, a insegurança, a banalização da delinquência. Por grosso, fizeram fraca figura para dentro e péssima para fora. E fica a pergunta: que povo se orgulha dos seus dirigentes, se nem um desafio de futebol conseguem organizar à altura da fluidez de circulação e da segurança requerida?

Vive-se em França em falência de Sentido – é patente que regride, que não gera bem-estar, que a imagem corrente de há anos não bate com nada, nem com as memórias, nem com as expectativas. Falhando no papel de restituidor de faustos, Macron impôs-se com naturalidade segunda a Marine Le Pen. Quem a escolheria? Mas ganhou com uma erosão de que aqui se deu nota.
De saída, já com saudades de diatribes, Mélenchon deu por si revendo-se em alta, contra deterioração patente de Macron. E apostou. Deixou-se embalar pelo entusiasmo, e falhou o que seria impossível de conseguir. Verdade se diga, mais do que duplicou o número dos seus no Parlamento. Fez crescer o EELV, adubou o PCF e recuperou uma parcela de circunscrições para o PS. Mas a NUPES, que os agregava, ficava-lhe aquém dos votos expressos das partes. Ganhavam assentos, sim, mas por força do paradigma eleitoral.

Le Pen, entretanto, passava por retirada, pela perdedora do costume. De tanto não ser falada, ganhou ares de politicamente normal, de frequentável. Qualificados para pouco mais do que duzentas circunscrições, souberam os candidatos RN impor-se em cerca de nove dezenas de situações, até em circunstâncias em que mais do que dobrada foi a expressão percentual dos sufrágios em urna.
Le Pen é doravante a líder do principal partido da oposição. Assanha-se, Mélenchon, quer o estatuto para os seus, só que a NUPES tem quatro cabeças, além do que o entendimento fixado era puramente para apresentação de listas comuns que permitissem contornar as perdas devidas à fragmentação. Com o estatuto de primeira força da oposição vem a presidência da Comissão de Finanças, isto é, a sindicância a toda a hora e momento das veleidades orçamentais do Governo. Vai ser giro! Do que ressalta no lavar dos cestos, o partido de Le Pen bateu-se taco-a-taco com a plataforma eleitoral de Macron e com a plataforma de esquerda. Dos 108 duelos com a Macronie, ganhou 53 e perdeu 55, inversa sendo a relação nos embates com a NUPES, 65 ao todo, em que saiu à frente em 34 casos. Nenhuma foi a vitória do RN face ao partido LR, por conveniência dito da direita do Círculo da Razão.

Que acontecerá ao RN nos próximos anos? Mostrar-se-ão de forma caricatural, como têm sido pintados? Comportar-se-ão de forma que o eleitorado lhes acorde tanto mérito como demérito, em igualdade de circunstâncias com os outros, mas saindo definitivamente normalizados, de modo que mais ninguém se atreva a formular excomunhões sanitárias? Como quer que seja, parece que esta segunda volta marcou um virar de página.
Um problema se põe, entretanto: como e com quem irá governar a maioria minoritária? O aliado natural da plataforma de Macron não quer nem ouvir falar do assunto. Macron cortou rente quanto pôde no PS e no LR. Na preparação das eleições, vozes houve para que o LR se fundisse de vez, associando-se ao MoDem, ao Horizons, ao AGIR, ao Territoires de Progrès, e ao Renaissance, que com novo baptismo se apresenta o LREM. A questão, verdadeiramente, é no LR ficou quem de todo não estava afim de Macron, quem com ele espere vir a ajustar contas, capitalizando do fracasso. Não estando o LR para muleta de circunstância, o navegar à vista, de embaraço em embaraço, talvez leve a França para eleições antecipadas, golpe em que António Costa possa dar uns conselhos.

A plataforma de Macron até pode vir a esboroar-se de dentro. Bayrou, do MoDem, tem uma desqualificação ministerial em deve-e-haver, que pouco mais do que um mês esteve Ministro de Estado e da Justiça no virar da Primavera de 2017. E Édouard Philippe, que Primeiro-ministro foi de Macron, e que ao presente encabeça o Horizons, chegou a ouvir o que ninguém gosta, ou não tivesse dito Macron, aí por Abril, que não haveria circunscrições, dito de outro modo, cadeiras, para os imbecis do Horizons.
Em suma, em França, acabaram as eleições, começaram os trabalhos.

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