Correio do Minho

Braga, segunda-feira

“Trumpismo”, Incerteza e Economia Portuguesa

Macron - Micron

Ideias

2016-11-26 às 06h00

António Ferraz

Avitória de Donald Trump e do populismo mais radical de direita nos Estados Unidos (EUA) aumentará e muito a incerteza já existente sobre a evolução futura da macroeconomia mundial. Em Portugal, após os duros anos de austeridade excessiva (2009 a 2013) de que resultou uma forte recessão económica (quebras do PIB), elevado desemprego e empobrecimento, tem-se vindo a registar desde 2014 sinais positivos de alguma recuperação económica o que pode ser inferido pela leitura de alguns indicadores económicos, tais como, (a) crescimento real ou em volume do Produto Interno Bruto, a saber, 2014: + 0,9%; 2015: + 1,5%; 2016 (previsão): + 1,2%; (b) no 3º trimestre de 2016 o PIB real teve um aumento de 0,8% em cadeia (ou seja, face ao trimestre anterior) e de 1,6% em termos homólogos (ou seja, face ao mesmo trimestre do ano anterior), o melhor resultado para aquele trimestre na área do Euro. O que poderá explicar o comportamento positivo da economia portuguesa no 3º trimestre de 2016? Por um lado, a aceleração (embora abaixo do previsto) do consumo privado em bens não duradouros e serviços e, por outro, e, mais relevantemente, da forte expansão das exportações de bens e serviços (incluindo o turismo). Grande parte desse crescimento das nossas exportações em bens e serviços tiveram como referência o comércio Intracomunitário. Exemplificando, em Setembro de 2016 (variações homólogas mensais), as nossas exportações cresceram 6,6% (5,1% em Agosto) tendo as importações apenas aumentado de 1,9% (9,8% em Agosto) de que resultou um significativa melhoria das contas externas do País; (d) redução da taxa de desemprego para 10,5%; (e) consolidação orçamental com a continuação da trajectória de descida do défice público, aliás, em 2016 espera-se que fique abaixo de 3% do PIB, afastando com isso o risco de procedimento por défice excessivo.
Muito desse cenário favorável para a economia portuguesa deve-se a política de baixas taxas de juro do BCE e da relativa estabilidade financeira na União Europeia (UE). O que significa, contudo, que a economia portuguesa ainda está muito dependente de factores externos, apresenta ainda fortes fragilidades económicas e financeiras e, desta forma, podemos dizer que a crise das dívidas públicas não está superada. Porquê? Porque temos baixo crescimento económico, desemprego (ainda) alto e dívida pública e privada muito alta, o que faz com que continuem a existir os constrangimentos no Estado Social e no investimento interno. Uma eventual mudança da política monetária do Banco Central Europeu (BCE) com subida das suas taxas de juro (por pressões inflacionistas) trará dificuldades à economia europeia e portuguesa fazendo emergir novas e graves crises económicas.
Por sua vez, o “Trumpismo” aumentará e muito a incerteza quanto a evolução macroeconómica global. Na verdade, as intenções de expulsão de imigrantes ilegais, redução de impostos aos ricos, maior proteccionismo e elevado investimento em infra-estruturas até poderão fazer crescer mais a economia americana a curto prazo, porém, com despesas públicas muito superiores as receitas de impostos e o financiamento em grande parte do défice público através de novas emissões mone- tárias pelo FED (Banco Central dos EUA), tal facto, resultará provavelmente no surgimento de inflação. Desta forma, a médio prazo o FED será obrigado a adoptar medidas monetárias restritivas com absorção de liquidez e subida da taxa de juro levando a economia americana e, logo, mundial a novas e profundas recessões.
Portugal, porém, mesmo a curto prazo, deverá ser afectado negativamente pelo “Trumpismo”, por duas vias:
(1) pela redução das exportações de bens e serviços, apesar das exportações portuguesas para os EUA representarem apenas 5% do total, dado que uma agenda proteccionista americana não deixará de se sentir negativamente a economia comunitária e esta é o maior destino das nossas exportações (cerca de 70% do total). Em consequência, será de esperar novas quebras na produção e menos importações comunitárias e, assim, indirectamente a economia portuguesa viria a ser seriamente afectada;
(2) pela elevação da taxa de juro do BCE, invertendo a sua política monetária actual), em resposta, quer à subida da taxa de juro do FED e a excessiva valorização do dólar face ao Euro, quer para evitar a saída de capitais da Europa para os EUA. Mas, a subida da taxa de juro do BCE implicará, em particular, nos países da Europa do Sul (como Portugal), menos investimento, menor produção e aumento do peso da dívida pública soberana;
(3) por alimentar as correntes radicais e populistas de direita na Europa cujo ressurgimento deveu-se aos fenómenos da imigração e dos refugiados. Refira-se, a propósito, que em breve teremos eleições na Alemanha, França e Holanda em que esses partidos têm vindo a crescer com significado nos últimos anos. Se assim for, poderá haver um enfraquecimento da democracia, restrições à liberdade e desrespeito pelos direitos humanos. Por fim, fará emergir uma nova e grave recessão económica o que poderá em último caso colocar em causa a própria existência da União Europeia.

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