Correio do Minho

Braga, terça-feira

“Pequenas coisas”

O que nos distingue

Conta o Leitor

2015-07-06 às 06h00

Escritor

Ana C. Nunes

Catarina recostou-se na cadeira de madeira da sua sala de jantar, suspirando profundamente e levando uma mão à cabeça enquanto a outra mão caia a seu lado.
Vários papeis se prestavam em cima da mesa, num emaranhado semelhante à secretária de uma empresa muito caótica, acompanhados de uma velha máquina calculadora que ela tinha recebido na escola quando, aos 13 anos, teve direito ao subsídio de apoio às famílias mais carenciadas. Uma gasta esferográfica, deslizou lentamente pelo lado da mesa, até cair no chão, sem grande alarido.
- “Estou tão farta desta porcaria!”
A cena era igual a tantas outras. Podia até dizer-se que o ciclo de repetição era de sensivelmente 30 dias. Todos os meses, quando chegava a altura de gerir o orçamento familiar para pagar todas as despesas, o dinheiro era sempre escasso. Há muitos anos que ela não sabia o que era poupar uns míseros Euros todos os meses.

A renda da casa era a maior fatia das despesas, seguida daquelas outras que não se podiam cortar por mais que se desejasse fazê-lo: Electricidade, Água e Saneamento, Gaz e, um pouco a esticanço, o serviço de Telefone e Internet, porque o miúdo precisava fazer pesquisas para os trabalhos de escola e porque, tanto ela como o marido, também gostavam de navegar um pouco na Web. Mas não se podia esquecer dos seguros e do combustível dos automóveis, porque, numa cidade como a sua, os serviços públicos não eram alternativa.
A tudo isto somavam-se ainda as normais despesas de comida e eventuais compras de vestuário e calçado, sim porque o miúdo tinha uma propensão para romper calças e gastar ténis que era uma loucura.

No fim de contas, o ordenado do marido e o subsídio de desemprego dela, mal chegavam para cobrir as despesas. Todos os meses ela tentava arranjar soluções práticas para pouparem mais um pouco, mas nunca parecia ser o suficiente.
Mas, pior que tudo isto era a dificuldade em encontrar trabalho.

Catarina estava já desempregada há oito meses e cada vez parecia menos credível a possibilidade de encontrar trabalho na sua área de formação. Ela já tinha tentado encontrar vaga noutras áreas mas nem aí teve muita sorte. Em todo o lado onde ia, ofereciam-lhe o salário mínimo, com um horário irregular e em condições precárias de trabalho. Tinha podido dizer que não até aí, pois afinal ganhava mais no desemprego, mas essa ajuda estatal acabaria rapidamente e então ela teria de aceitar qualquer coisa. Quando isso acontecesse, a família iria sofrer ainda mais. Com um orçamento cada vez mais reduzido, o que teriam de cortar depois de tudo o que era supérfluo desaparecer?

Catarina sentiu pequenos dedos delizarem por cima dos seus olhos. - “Adivinha quem é?”
Ela sorriu. - “Quem será? Não sei se consigo adivinhar.” - Ouviu as risadas do seu filho e este som encheu-a de alegria.
“Sou eu mamã!” - Rapidamente o rapaz retirou as mãos do seu rosto e saltou para o lado dela, esbanjando alegria naquele pequeno rosto.
“Ah, pois claro! Eu devia ter adivinhado que aquelas mãos pertenciam ao menino mais lindo do mundo?”

O sorriso dele aumentou ainda mais e a mãe babada ponderou sobre esse misterioso facto de a felicidade poder crescer e crescer, até ao infinito, sem que uma pessoa alguma vez se pudesse sentir cansada com isso.
O pequeno rapaz saltou para o seu colo e colocou os seus braços à volta do pescoço da mulher que mais o amava no mundo. - “Amo-te mamã!” - O pequeno beijo na bochecha, que se seguiu a estas palavras, resultou numa explosão de fogo-de-artifício no coração daquela mulher que parecia, momentos antes, ter perdido toda a esperança numa uma vida melhor.

Ela nunca entendeu ao certo como pequenos gestos como aquele tinham um impacto tão grande no seu íntimo.
Eram aquelas pequenas coisas que tornavam a sua vida maravilhosa.
Aquela era a verdadeira felicidade!

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