Correio do Minho

Braga, quarta-feira

“Onde é que você estava no 25 de Abril?”

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2015-04-27 às 06h00

Carlos Pires

Eu tinha pouco mais de 4 anos de idade, vivia algures na zona centro do país, onde a minha mãe lecionava, longe do bulício dos centros urbanos. O (meu) mundo era mágico e o meu conceito de liberdade cruzava-se com os tempos em que andava de triciclo, ao ar livre.
Eis a minha resposta à pergunta, milhares de vezes repetida, da autoria do escritor, ensaísta e jornalista, Baptista Bastos.

Já lá vão 41 anos. Numa madrugada sem chuva, Portugal acordara para um dia que iria mudar a sua face. Na rádio ouvira-se 'E Depois do Adeus', de Paulo de Carvalho. As ruas viveram a confusão própria de uma revolução em curso e a esperança no futuro. Portugal dera uma lição de civismo ao mundo, mostrando como se pode transitar pacificamente de uma ditadura para uma democracia e entregara-se à tarefa de recuperar o atraso que o caracterizava.

Hoje, volvidas quatro décadas, Portugal parece apostado em sair de um fundo em que mergulhou nos últimos anos, caracterizado pelo desemprego, pela pobreza, pela contestação social e pela emigração. Os tempos são de esperança e nisso reside algum paralelismo do Portugal de 2015 com o Portugal de 1974.

Hoje, contudo, o país pertence a um mundo além-fronteiras, não isolado, não “orgulhosamente sós”. Hoje, mais do que nunca, devemos afastar-nos dos já habituais discursos pessimistas e derrotistas. A (nova) causa nacional deve ser a de difundir as coisas boas e que são desconhecidas para muitos, nacionais e estrangeiros. Se essa tarefa for feita com sucesso, estar-se-á a contribuir para melhorar as condições da economia e da criação de emprego.

E por falar em coisas boas, há a realçar na conjuntura os interessantes resultados do turismo. Lisboa e Porto são considerados como dos mais atrativos destinos turísticos em todo o mundo. E a nossa arte de “bem receber” é reconhecida nos mais exclusivos meandros - decorreu na semana passada, precisamente em Lisboa, a 1.ª conferência da prestigiada revista “Monocle”, a mesma que há muito vem demonstrando especial interesse pelo nosso país, com diversos artigos escritos, chegando mesmo a veicular que o português está a tornar-se 'crescentemente, a língua dos negócios, da diplomacia, desporto e cultura'. Ainda, li, há dias, nos jornais, que o país prepara-se para receber, ao longo deste ano, 58 novos empreendimentos turísticos, o que vem reforçar a capacidade de oferta hoteleira.

O 25 de Abril trouxe-nos a liberdade. Liberdade não é apenas uma palavra bonita.
É a capacidade diária que demonstramos para defender o conceito, com coragem, contra todas as adversidades. A liberdade não se comemora num dia, é uma questão de atitude no dia-a-dia. Sempre.

E como? Que atitude será essa? Temos de promover mais Portugal como destino, porque tem centros de excelência, condições climatéricas atrativas, gastronomia, tradição, cultura e história. Temos de difundir o papel dinâmico de Portugal em setores em que “dá cartas” no mundo, como sejam o vinho, a cortiça ou mesmo a ciência (v.g. saúde). Temos de apregoar a elevada qualidade das nossas infraestruturas logísticas e de comunicação e dos nossos (altamente adaptáveis) recursos humanos. Temos (cada vez mais) de consumir produtos e serviços portugueses.

O presente mostra-nos um país muito diferente daquele que viveu a revolução dos cravos. Em muitos aspetos. Tem gentes mais qualificadas e é elogiado além-fronteiras.
No futuro, o país será aquilo que quisermos, soubermos e pudermos. Falta-nos talvez a vontade. Falta-nos talvez “acreditar”, ou saber “como”. Esse é o desafio para as próximas décadas.

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