Correio do Minho

Braga, quarta-feira

“O que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira”

Carta à Leonor: olhar mais para fora para melhorar aqui por dentro

Ideias

2010-10-23 às 06h00

Paulo Monteiro

A história já é velha mas está sempre actual. Em 1987, o então presidente do Vitória de Guimarães, Pimenta Machado, face a uma notícia do ‘JN’ sobre a saída de René Simões, que na altura seria ‘em primeira mão’, decidiu fazer marcha atrás e só despediu o treinador… uma semana depois. Nessa altura tornou-se célebre a sua frase: “o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira”. Ora, a frase, nunca perdeu a actualidade e hoje pode ser usada quase todos os dias. Mormente na política onde, a par do desporto, será, talvez, mais utilizada.

Tudo isto a propósito dos últimos acontecimentos políticos que têm marcado a nossa praça. Uma autêntica ‘guerra’ de palavras e promessas. Uma autêntica guerra de “o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira”.

Comecemos com algumas histórias;
Primeiro, o PSD. No último dia de Setembro, o seu líder, Pedro Passos Coelho, à saída de um encontro com o presidente da República, sublinhou que o seu partido admitia negociar o Orçamento de Estado de 2011 desde que não houvesse aumentos de impostos. E porque o que interessa é sermos claros, recordemos as palavras de Passos Coelho: “como partido responsável, o PSD está disponível para a negociação, dentro do princípio de que o Orçamento deve seguir a via da contenção das despesas e não a do aumento dos impostos”. Nos dias seguintes a palavra-chave foi a mesma: tudo, menos aumento de impostos.

Seguiram-se infindáveis declarações de políticos, bancários, altas figuras do país, economistas, e por aí fora… até Durão Barroso e dirigentes europeus e mundiais. Conclusão: o PSD devia aprovar o Orçamento que até tinha sido visto com bons olhos pela sua dureza de acção, apesar de muitos estarem contra ele. Mas era preciso tomar medidas drásticas e apertar, e muito, o cinto, para mostrar à União Europeia, ao Banco Central Europeu e ao Fundo Monetário Internacional que afinal também somos duros quando queremos ser.

Quase um mês depois, o Conselho Nacional do PSD deu um voto de confiança à direcção de Pedro Passos Coelho para defender alterações ao Orçamento do Estado para 2011 e, conforme a resposta do Governo, decidir abster-se ou chumbá-lo.

Alguns dos “pressupostos” aprovados pelo Conselho Nacional do PSD viabilizar a proposta do Governo está uma bem clara: “que a taxa máxima do IVA aumente de 21 para 22 por cento, e não para 23 por cento”. Ora… para quem dizia que não admitia aumentar impostos… um por cento é sempre um por cento.
E, cá está a resposta e… a célebre frase: “o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira”…

Mas… os socialistas que não se fiquem a rir!
Na segunda-feira passada, no programa da RTP1, ‘Prós e Contras’, o ministro dos Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão dizia, a respeito dos privados poderem vir a baixar os vencimentos, qualquer coisa como: “o Governo não se deve, nem pode, meter-se nesses assuntos, muito menos dar a sua opinião”. E muito bem. O privado é quem decide…

Só que, nesse mesmo dia, o ministro de Estado e das Finanças começou por se escusar a fazer recomendações para a evolução dos salários no sector privado mas lá dizia que a decisão de cortar salários na função pública era “um sinal de que é necessário pelo menos contenção salarial para reforçar a competitividade”.

Em entrevista, nesse dia, ao ‘Jornal de Negócios’, Teixeira dos Santos adiantava: “veríamos com bons olhos entendimentos que levassem a reduções de salários no sector privado”. E acrescentava: “eu creio que se o sector privado chegar a bom entendimento nessa natureza vejo que isso reforçaria a competitividade”, ou “se hipoteticamente algum entendimento fosse feito nesse sentido, eu, como economista, tenho que reconhecer que isso seria algo que potenciaria e reforçaria a competitividade da economia”.

E para concluir: “o que eu acho é que nós, ao adoptarmos a política salarial que adoptamos neste orçamento, acho que estamos a dar um sinal que é necessário de contenção salarial e isso será importante para a competitividade da nossa economia”.

Ou seja, muito claramente estava a dar a sua opinião. A opinião de ministro. A opinião de membro do Governo. A opinião de economista.
Cá está… “o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira”.
Não devem dar opiniões, nem se meterem no assunto mas dão e metem-se no assunto.

E tínhamos tantos e tantos exemplos para dar, a começar nas juntas, nas autarquias, em outros tantos partidos... Mas não vale a pena. Este país está cheio de promessas e do dizer que se dá e não se dá.

Vale é a pena ficar no ar algo dito por Marcelo Rebelo de Sousa, no domingo passado, na TVI. O comentador foi claro: “o presidente da República, Cavaco Silva, vai anunciar a sua candidatura na próxima terça-feira, dia 26, pelas 20 horas, no Centro Cultural de Belém”.
Esta quarta-feira, Cavaco recusou confirmar se anunciará a recandidatura, mas confirmou que fará uma declaração ao país nesse dia.
Será que estamos perante mais uma típica frase de “o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira”?
Terça-feira veremos.
Bom fim-de-semana!

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