Correio do Minho

Braga, terça-feira

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“Ó Bispo, solta o Padre!”

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

Ideias

2013-02-25 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Uma das decisões mais complexas da Primeira República (1910-1926) foi a publicação, em Diário do Governo (21 de Abril de 1911), da célebre Lei da Separação da Igreja do Estado, uma vez que abalou a tradição secular de um povo, profundamente católico.
Durante esse período, as perseguições aos elementos da Igreja atingiram quase uma histeria social, como foi o caso das verificadas contra o Bispo da Guarda (D. Manuel Vieira de Matos), o cardeal de Lisboa (António Mendes Belo) e ainda o Bispo do Porto (D. António Barroso). Anormal foi ainda o alistamento de padres e Bispos para cumprirem o serviço militar, o que indignou muito a população portuguesa.

Em Braga essas perseguições tiveram episódios pouco vulgares, com o Governador Civil de Braga a proibir a participação do arcebispo de Braga nas cerimónias da Procissão dos Passos de 1917, provocando com isso forte indignação dos comerciantes, prejudicados economicamente por estas querelas político-religiosas.

Foi neste contexto que se verificou, na freguesia de Tadim, um caricato episódio, que se conta em poucas palavras: o pároco de Tadim, Jerónimo Duarte Goja, por razões que se desconhecem, resolveu não tirar licença para efectuar a visita Pascal aos seus paroquianos.

O caso até poderia ter passado despercebido, mas o problema é que em Tadim existia um Bispo, não seu superior hierárquico na cadeia eclesiástica, mas sim regedor da freguesia. Chamava-se Inácio Pereira Bispo e, depois do almoço, resolveu testar a sua autoridade, confrontando pessoalmente o pároco da sua freguesia, dizendo-lhe que estava a incorrer em ilegalidade ao visitar as casas da freguesia, sem licença e vestido com emblemas e hábitos religiosos.

Esta atitude do Bispo, regedor de Tadim, não foi suficiente para intimidar o pároco, que lhe respondeu, em Fradelos (freguesia então anexa a Tadim) não receber ordens que não fossem por escrito. Perante esta atitude, o sr. Bispo, regedor de Tadim, não hesitou e deu ordem de prisão ao pároco Goja, encerrando-o numa “venda” até que as forças policiais chegassem.

Perante esta prisão, os habitantes de Tadim começaram a aglomerar-se junto à mercearia onde o padre estava detido, enquanto o Sr. Bispo telefonava para Braga, para requisitar elementos policiais que levassem o padre até à esquadra da polícia. Quando as forças policiais chegaram, o Bispo de Tadim disse-lhes, em tom agressivo: “carreguem as espingardas e, no caso de ser preciso, fuzilem à vontade!” (1)

Depois de vários minutos de tensão, o padre de Tadim foi transportado, de comboio, para a esquadra de Braga, sendo nesse percurso escoltado por quatro guardas. Depois da entrega do prisioneiro, o Bispo de Tadim pretendeu regressar à sua fre-guesia. No entanto, os populares que observaram este acontecimento não gostaram da atitude do regedor e começaram a ameaçar e a insultar o sr. Bispo. Até alguns polícias, vestidos à civil, gritaram para o regedor exigindo: “Ó Bispo, solta o padre!”.

O sr. Bispo, assustado, não teve outra alternativa que não fosse desatar a correr pela rua do Anjo e depois pelo Largo de Santa Cruz. Contudo, o número de populares que o perseguia aumentou, tendo inclusive, alguns deles, pontapeado e esbofeteado o regedor de Tadim. O Sr. Bispo não teve outra saída senão a de refugiar-se na esquadra da polícia, depois de “sofrer tratos de polé e dando entrada no comissariado, magoadíssimo e sem que ninguém podesse interferir” (1).
Só durante a noite o Bispo de Tadim pôde regressar a casa, mas isso só foi possível com a ajuda de vários polícias, que o escoltaram.

Também na freguesia de Arentim verificou-se um episódio no domingo de Páscoa de 1917, e que envolveu o respectivo pároco e o chefe da estação de caminhos-de-ferro da freguesia.
O chefe da estação era uma pessoa arrogante e autoritária, sendo poucas as pessoas que gostavam dele. No domingo de Páscoa, os habitantes de Arentim, munidos de “embutes, businas, etc” (1) resolveram implicar com esse funcionário ferroviário, “exortando-o a entrar no bom caminho religioso e social e increpando-o por, em razão da sua vida e costumes, não ter sido honrado com a Visita da Cruz Paschal”. (1)

O chefe da estação não gostou e fez valer os seus atributos, chamando a polícia, que de imediato prendeu cerca de 30 pessoas e, inclusive, o próprio padre Francisco Antonie Marques, que acusou de estar a instigar as provocações. Mas o povo de Arentim, ao ter conhecimento destas prisões, aglomerou-se de forma ameaçadora na estação, acabando com esta atitude por influenciar na libertação dos presos e, desta forma, evitar confusões de maior gravidade.

Apenas dois dias depois destes acontecimentos, o chefe da estação de Arentim, alegando falta de condições para trabalhar na freguesia, solicitou a transferência para outro posto de trabalho dos caminhos-de-ferro, tendo esse pedido sido imediatamente autorizado pela respectiva administração ferroviária.
Estes dois exemplos demonstram-nos claramente que a arrogância e o autoritarismo raramente são eficazes, produzindo normalmente efeitos negativos, até para os seus mentores.

1) Jornal ‘Echos do Minho’, 10 de Abril de 1917

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