Correio do Minho

Braga, sexta-feira

“Não consigo perdoar o mal que me fez”

Jornais centenários: unanimidade no Parlamento

Escreve quem sabe

2017-12-26 às 06h00

Ana Paula Silva

Os conflitos subjacentes à questão do perdão estão muitas vezes relacionadas com assuntos inacabados e que podem originar respostas não adaptativas: ressentimento (ativação de pensamentos sistemáticos /ruminação) resignação (um ‘fechar’ passivo, aparentemente de forma conformada e vitimizante); voltar comportar-se de forma semelhante para ‘resolver’ a situação (ex: relação interrompida e não resolvida internamente, pode resultar na escolha inconsciente de um parceiro semelhante, para desta vez agir de forma ‘correta’).

Aquele que não perdoa continua preso ao passado, revive vezes sem conta a situação sentindo ressentimento, mágoa, rancor e raiva, não vivendo em pleno o presente. Estes sentimentos negativos desgastam emocionalmente (depressão, ansiedade ou ataques de pânico) e fisicamente (alterações no sistema imunológico, dificuldades cardíacas e outros sintomas relacionados com altos níveis de stress).

As dificuldades em perdoar podem estar relacionadas com:
- O significado subjetivo atribuído ao perdão: perdoar é aceitar a injustiça; perdoar é aceitar o fracasso; perdoar é auto-desvalorização.
- A não admissão de ter sido magoado.
- A persistência na culpa.
- A utilização recorrente de formas ineficazes de resolução.
É imprescindível que antes de continuar a ler este artigo perceba que:
- Perdoar é uma decisão e um esforço consciente, intencional e voluntário.
- Perdoar implica sempre o luto pelo que se passou e a atribuição de novos significados.
- Perdoar é um processo doloroso que leva o seu tempo, exige persistência e força.
- Perdoar não trará a mudança do outro, mas sim transformação pessoal que se apoia na admissão das vulnerabilidades humanas.
- Perdoar é um ato de Poder e Controlo, consiste em assumir a responsabilidade e não permitir que as ações dos outros determinem a sua felicidade, por isso é que os efeitos positivos do perdão são para quem sofreu e não para o ofensor.

As feridas emocionais só podem ser curadas por quem está ferido e não por quem feriu, pode perdoar-se sem ser perdoado ou pode ser perdoado e não se perdoar. O perdão e a culpa andam juntos, por isso é que dificilmente perdoa-se alguém se não existir primeiro o autoperdão, no sentido da eliminação/sublimação da mágoa/dor. E à medida que se perdoa, aceita-se os próprios erros e fraquezas e começa-se a perdoar as falhas dos outros, anulando o remorso e a ansiedade (do que pode vir a acontecer).

Uma pessoa pode perdoar sem se reconciliar, mas nunca se pode reconciliar sem perdoar, pois aqui este é um “perdão passivo” em que está latente a agressão ‘silenciosa’, ansiedade e ruminação depressiva. Para Carl Jung é preciso aceitar os sentimentos hostis que traz dentro de si, perdoar-se pelos erros cometidos e reconciliar-se com a sua história de vida (“amar o inimigo que existe em nós”). Carl Rogers defende que só se utiliza o livre arbítrio no momento presente e ao perdoar-se liberta-se da culpa, vergonha e perfeccionismo e, em simultâneo, entende que os ‘defeitos’ podem ser potenciais a serem desenvolvidos.

Para perdoar é necessário reconstruir o passado, sendo a psicoterapia a forma mais eficiente para ressignificar conflitos e traumas, num ambiente apoiante e seguro. A intervenção para promover o perdão pode ter um efeito curativo e libertador, a pessoa consciencializa-se do poder que as situações negativas passadas têm sobre si, inicia um processo para a reinterpretação da ofensa e transforma comportamentos/ /sentimentos negativos em neutros ou positivos.

É um processo gradual de insight para desenvolver uma maior compreensão da problemática, não significando concordar/esquecer/subjugar-se, mas sim: reconhecer que tanto o ofendido como o ofensor são pessoas; identificar as circunstâncias da ofensa; analisar o que é e não é o perdão e como vai desenvolver a ação de perdoar. Durante o processo de aceitação, podem ocorrer desejos de vingança, que são positivos pois permitem exteriorizar a zanga escondida para a seguir, abrir o caminho para a empatia e responsabilização sua, do outro e da situação (não retaliação ou vingança).

Segundo Amaral Dias quando a capacidade de perdoar aflora, pode indicar a aproximação do fim da análise.
Na psicologia Positiva o perdão é concebido como uma força pessoal e uma qualidade humana. Para Seligman o perdão muda o foco das experiências negativas e gera emoções positivas, ao permitir reescrever a história dando novo sentido às memórias desagradáveis e com isso reduzir seus efeitos.

A Logoterapia defende que não é o homem que procura um sentido para a vida, mas é a própria vida que lhe cobra estes sentidos e exige uma resposta/decisão, assim perdoar depende mais de uma decisão do que de condições. Viktor Frankl afirma que sobreviver é encontrar significado na dor, e cada um deve descobri-lo por si mesmo e aceitar a responsabilidade dessa resposta.

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