Correio do Minho

Braga, sábado

“La La Land” precisa-se!

Investir em obrigações: o que devo saber?

Ideias

2017-02-27 às 06h00

Carlos Pires

Escrevo esta crónica na tarde de domingo, em “countdown” para a grande festa do cinema de logo à noite: a “Academy Awards” e a entrega aos premiados da famosa estatueta dourada - os Óscares. No momento em que você, aí, estiver a ler este texto, já saberemos tudo o que verdadeiramente se passou, as emoções, as surpresas e as confirmações, os vencedores e os perdedores.

Sou um amante de cinema e também dos “Óscares”. Tive oportunidade de visualizar todos os filmes em competição, tendo ainda comentado e sugerido muitos deles numa rúbrica televisiva de “Cinema e Atualidade” que apresento todas as quintas feiras, ao final da tarde, no Porto Canal.
A entrega dos óscares é, sem dúvida alguma, um dos eventos mundiais mais mediatizados, com a cerimónia a ser transmitida em direto, a uma escala planetária. Não será mérito reservado à arte do cinema, em particular aos filmes nomeados para o galardão; estou certo que todo o “glamour”, a estética, a moda, as curiosidades veiculadas pela imprensa, de igual forma contribuem para o culto e o frenesim que rodeiam o acontecimento.

Este ano, mais do que nunca, a politização da cerimónia é mais do que certa. Nesse campo, e se quiséssemos premiar a causa, o óscar seria atribuído a Donald Trump, o mesmo que, em 2014, “twitou” que iria candidatar-se a apresentador da cerimónia dos Óscares, porquanto, no seu entender, os escolhidos para o efeito não tinham qualidades bastantes e ele constituiria a grande e benéfica mudança. Que pena! Que pena não ter o Trump seguido aquele seu manifestado intento. Ao invés, optou por candidatar-se à presidência da maior nação do mundo e com isso tornou-se uma ameaça para todos nós. Repito, antes tivéssemos nós a maçada e a chatice de, apenas uma vez por ano, gramarmos com a sua presença no certame, exibindo a sua cabeça de cor amarela-dourada-ferrugenta a rivalizar com a da estatueta do “tio Óscar”. A cerimónia e o cinema sairiam afetados, estou certo, mas o equilíbrio e balanço da paz mundial continuariam a salvo daquela criatura. Infelizmente não é essa a realidade.

A comunidade artística não vai deixar escapar a oportunidade de tecer críticas às políticas de Trump. E é bom que assim aconteça. Na verdade constituem uma impactante voz, com eco global. O que se passa atualmente no mundo exige - sobretudo de quem tem o poder de mover e influenciar multidões - que não nos calemos, sob pena de permitirmos que o mal alastre, como um cancro, incontrolável. Estou certo que, tal como sucedeu recentemente noutros eventos - veja-se o discurso de intervenção da oscarizada atriz, Meryl Streep, aquando da cerimónia dos Globos de Ouro -, choverão críticas e apelos à concórdia e à união na luta pela tolerância, pelo respeito, pela aceitação da diversidade (de raças, culturas, género, identidade sexual). No fundo, valores e conquistas civilizacionais que Trump e a sua comandita têm tentado derrubar, servindo-se do medo que o terrorismo e algumas consequências da globalização (v.g. o desemprego) provocaram nas pessoas para legitimar as suas políticas xenófobas.

O cinema inspira-se na realidade. Certamente por isso os temas tratados nos filmes nomeados este ano refletem as ansiedades e problemas que o mundo vive. “Moonlight”, por exemplo, uma obra para reflexão (transformadora) social, lida com temas universais como a identidade, a sexualidade e a família. Nele, o preconceito e a violência andam lado a lado, com momentos de pura ternura e outros igualmente cruéis. De igual forma, em “Hydden Figures - Elementos Secretos”, baseado em incríveis (e até à presente data desconhecidos para a esmagadora maioria de nós!) factos históricos, é tratada a temática da segregação e da intolerância racial. Mas há mais: a rutura familiar, as frustrações e a crise de expetativas, tudo isso é a base de “Fences - Vedações”. E o amor, o altruísmo e a compreensão, como remédio que tudo cura, em “Lion - a Longa Estrada para Casa”.

O meu filme predileto, este ano, confesso, é o “La La Land”. Espero sinceramente que seja este o título repetidamente pronunciado para término da frase: “and the Oscar goes to…”. É um filme sobre sonhos, mas também sobre amadurecimento, sobre confiar nos caminhos consolidados. Afinal temos que saber viver com as escolhas que fazemos na vida, sem frustrações, uma vez que esse é o grande segredo para a felicidade. Esta é a mensagem que dele podemos retirar.
“La La Land” é ainda uma explosão de cor, de alegria e de positividade. Devemos sempre lutar pelo que acreditamos, mesmo que nos pareça impossível. “Here’s to the ones who dream / foolish as may they seem”, isto é, “dedicado àqueles que sonham / por mais loucos que pareçam”, conforme nos diz uma das canções. É o filme de que o mundo estava a precisar, um filme sonhador e mágico em tempos de cólera.

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