Correio do Minho

Braga, segunda-feira

“Hoje, serão as cidades mais felizes”

A vida não é um cliché

Ideias

2017-06-19 às 06h00

Filipe Fontes

E, porque nunca como hoje, a discussão sobre os “centros das cidades” emerge tão pouco consensual, nomeadamente sobre esta dicotomia entre a temporalidade da habitação e da preservação (ou reforço) da actividade económica (que é também social e cultural) com a temporalidade do utilizador da cidade (seja ele habitante permanente ou ocasional, temporário ou visitante), nunca como hoje (é convicção) importa olhar para estes “centros” (ou melhor dito, “nacos de cidade” com grande carga polarizadora e simbólica) e atender, tão racional e imparcial quanto possível, à leitura desta mesma realidade espacial tal como é (ou seja, independentemente do nosso pensamento e visão, necessariamente parcial…).

E da leitura, dir-se-á, factual sobre estes “centros”, três aspectos se destacam:

1. (É inegável que) os “centros”, os ditos “centros urbanos das cidades” sofreram mutações profundas nos últimos longos tempos, atravessando fenómenos como a terciarização, a desertificação e a gentrificação em paralelo com um processo de tratamento do edificado e espaço público que oscilou entre a degradação e o abandono e o (actual) regresso e reapropriação.
Fruto da sua carga polarizadora (e das medidas e políticas que julgamos - durante muito tempo - não influenciarem a vida das cidades - e portanto não integrarem a política urbana de uma cidade - como por exemplo, o crédito bancário e a lei do arrendamento urbano), os “centros” foram conhecendo um processo de terciarização intenso, com a afirmação sempre progressiva e imparável dos serviços e comércio em detrimento de uma habitação relegada para a dita “periferia”, supostamente abundante em oferta de conforto, utilidade e facilidade financeira de tão difícil obtenção na área central da cidade. Estes “centros” foram registando a coexistência de uma população massiva mas temporária, com horário “de entrada e saída” e uma população cada vez mais envelhecida e em menor número.
E, neste processo inexorável, que depois foi questionado pelo constante progresso tecnológico que retirou importância e protagonismo à localização da sede empresarial, comercial ou de serviços, os “centros” foram ficando “desertos”, expectantes de um golpe mágico capaz de reverter todo este processo;

2. (É também inegável que) estes “centros” encerram uma identidade e valor patrimonial muito assinalável, representando uma realidade cultural única e singular, em muitos momentos dir-se-á irrepetível;

3. (Por fim, é igualmente inegável que) as condições de vida alteraram-se drasticamente, originando as viagens de baixo custo, o alojamento habitacional e fenómenos complementares (mas não de menos importância e impacto) como a segurança e o medo instalado nalguns países, tendo resultado, uns dirão, na democratização do turismo, outros argumentarão na massificação e banalização do mesmo turismo. Todos, sem excepção, considerando indisfarçável uma mudança do paradigma turístico tão impactante quanto radical.
A conjugação destas três realidades afirmou-se como uma oportunidade de: promover a reabilitação e a regeneração do tecido urbano, com particular destaque para o espaço público, alvo de profundas e valiosas intervenções de requalificação e renovação; divulgar e disseminar uma realidade autóctone e singular a quem nos “olha de fora”, incrementando uma atracção e curiosidade incontornável e de expressão imparável (o que dizer da generalização e banalização das viagens de baixo custo?); rentabilizar o edificado em nome de novas formas e actividades económicas, conjugando a reabilitação do edificado com a introdução de novos e “apelativos” serviços e comércios, supostamente consentâneos com a contemporaneidade exigível a uma cidade moderna…
E, assim, sem qualquer juízo de valor sobre a bondade e qualidade deste fenómeno, estes “centros” chegam ao dia de hoje, fortemente atractivos e dinamizados na sua oferta dita cultural e económica, repletos de pessoas, acumulando capital de atracção e publicidade mas incapazes de enraizarem e perenizarem o que de tão autóctone reservam. E gerando perguntas (no domínio do urbano) que, antes mesmo de se saber a resposta, não sabemos como as colocar e formular. Apenas que existem. Como, por exemplo, “hoje, serão as cidades mais felizes?”
(continua)

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