Correio do Minho

Braga, sexta-feira

“Esqueletos” e outras artimanhas

Bragafado 2018: a trindade do fado tradicional

Ideias

2014-05-06 às 06h00

Jorge Cruz

Afinal os tão falados “esqueletos no armário”, que ganharam inusitada notoriedade devido às prolixas afirmações que Ricardo Rio produziu sobre o tema, parece que nem sequer existem.
Mais de sete meses após as últimas eleições autárquicas e após um prolongado exercício de vaticinação sobre as terríveis consequências dos tais “esqueletos”, possivelmente já é tempo de concluir que “a montanha pariu um rato”.

Na realidade, pelos dados divulgados por diversas entidades, Câmara de Braga incluída, os “esqueletos” que têm conhecido a luz do dia não são compagináveis com a visão quase apocalíptica que nos foi apresentada. Diria mesmo que alguns desses “esqueletos” têm até bastante “carne”.

Tomando como exemplo o relatório de contas aprovado a semana passada pelo executivo municipal, conclui-se que em 2013 se verificou uma “situação financeira superavitária” da ordem dos 6,4 milhões de euros e que a poupança corrente se situou nos 16,5 milhões de euros. Aliás, já no ano anterior e segundo dados divulgados pela Pordata, a autarquia de Braga fechou as contas com um saldo positivo superior a 3,68 milhões de euros. Se são estes os “esqueletos”, que até obrigaram o executivo municipal a proceder ontem a uma alteração orçamental para integrar o saldo de gerência de 2013, o mínimo que se pode dizer é que são esqueletos com bastante chicha…

Face a estes dados, será perfeitamente dispensável insistir em mais histórias de terror. Os famigerados “esqueletos no armário” já devem estar saturados do papel de abantesma que lhes destinaram e que, como se vê, as circunstâncias desmentem; e os sebastiânicos resultados da auditoria financeira, de tão adiados, começam a enfadar-se de serem usados como mera arma de arremesso político e, consequentemente, correm o risco de perder muita da sua credibilidade.

Acontece que a gestão do executivo municipal até tem somado alguns pontos a seu favor e, curiosamente, os resultados positivos foram obtidos sem a necessidade de invocar papões ou recorrer a artimanhas do género. O que demonstra que a qualidade do desempenho dispensa polémicas estéreis e inúteis e se sobrepõe a campanhas mediáticas, por muito abundantes e profissionais que possam ser.

A suspensão do Plano Director Municipal na zona das Sete Fontes, por exemplo, foi uma medida de enorme relevância e que correspondeu às expectativas dos bracarenses, em particular dos inúmeros defensores daquele complexo monumental. Tratou-se pois, claramente, de uma matéria em que o vereador Miguel Bandeira marcou pontos para o executivo da coligação de direita. O mesmo se poderá dizer, também, quer da suspensão do alargamento dos parquímetros a 27 artérias da cidade, quer da revogação da expropriação de edifícios junto às Convertidas.

Estes dois casos, aliás, terão tido um peso relevante na copiosa derrota sofrida pelo Partido Socialista nas últimas eleições autárquicas, sendo certo que a intervenção municipal no sentido de anular as decisões anteriores correspondeu ao cumprimento de promessas eleitorais de Ricardo Rio.

Estes são, obviamente, excelentes modelos de boas práticas, quer sob o ponto de vista do escrupuloso cumprimento de promessas eleitorais, quer na perspectiva de uma gestão municipal sóbria e consequente, que dispensa a “muleta” mais ou menos inventiva, mais ou menos virtual, de “papões” e outros “monstros”, humanos ou não.

Ricardo Rio demonstra à saciedade duas realidades perfeitamente antagónicas: por um lado, mostra que ainda há políticos que cumprem promessas eleitorais e, por outro, alimenta ou deixa-se envolver em teias de baixa política que apenas servem para afastar os cidadãos da política; prova que só com trabalho e verdadeiro espírito de missão é possível ir ao encontro dos anseios das populações e obter resultados positivos, mas continua a não resistir ao caminho fácil da insinuação e da intriga política, ou seja, a métodos de intervenção política de que estamos todos fartos.

E a verdade é que não tem que ser assim. Pode-se - e deve-se - concentrar esforços na melhoria da qualidade de vida dos concidadãos, na satisfação do bem comum, evitando dispersar energias em polémicas estéreis tantas vezes propositadamente criadas para servir apenas a luta política e não a comunidade.

A recente homenagem a Francisco Salgado Zenha comprova de forma insofismável que é possível e desejável ultrapassar divergências para construir um edifício comum. Conforme Ricardo Rio sublinhou na cerimónia, com este monumento “assinalamos a perspectiva plural do exercício democrático”, o que corresponde à verdade. Fica no entanto alguma amargura pelo facto de não ter sido suscitado algum debate prévio que, a acontecer, certamente teria evitado a polémica gerada à volta do local de implantação da peça escultórica.

Uma referência final para a recente nomeação de Eduardo Jorge Madureira para coordenador do Orçamento Participativo. Também neste caso, e depois de uma falsa partida, demasiado controversa e polémica, foi possível avançar com uma solução que é também um sinal da unidade que se pretende transmitir.

Estou plenamente de acordo com o presidente da Câmara quando ele afirma que com este prestigiado intelectual e activista cívico “a gestão do orçamento participativo está certamente em excelentes mãos”. Mas também comungo das preocupações manifestadas pelo coordenador quando afirma ser “essencial que os participantes vejam o seu esforço devidamente recompensado, para que a motivação para a participação cívica seja cada vez maior”.

Conforme disse Eduardo Jorge Madureira, “queremos que o orçamento participativo tenha, efectivamente, efeitos visíveis e não seja apenas uma espécie de ‘placebo’ para os cidadãos”. Não podia estar mais de acordo.

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