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“Edutainment: será que a aprendizagem está em risco?”

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Voz às Escolas

2010-05-19 às 06h00

J. A. Pinto de Matos J. A. Pinto de Matos

Os jogos de vídeo e computadores ocupam um espaço importante no quotidiano dos jovens (que lhes dedicam longos períodos num empenhamento que nada parece ser capaz de desconcentrar), pelo que a Escola, desde o início dos ano 90, tem procurado aproveitar as suas potencialidades como recurso didáctico, canalizando a atenção que os estudantes dão aos jogos para actividades educativas.

O software de “edutainment”, ou seja, as aplicações que possuem o fascínio dos jogos electrónicos e que ao mesmo tempo ajudam a atingir objectivos educativos, aparece nesse contexto como um recurso didáctico que contém características que podem trazer uma série de benefícios para as práticas de ensino e aprendizagem. O “edutainment” (mais um anglicismo a entrar na terminologia escolar!) é assim uma pedagogia interactiva que procura atrair e prender a atenção dos alunos, envolvendo as suas emoções.

Zuhal Okan (professora dou-torada pela Universidade de Kent, em Canterbury, Inglaterra), no artigo “Edutainment: is learning at risk?” manifesta a preocupação com a “necessida-de urgente” da aprovação desta nova tecnologia aparentemente inofensiva (e que ao senso comum se apresenta como inexorável, e de que não há outra escolha senão aceitar) ignorando-se “os seus efeitos nocivos a longo prazo”.

Contesta também a crescente convergência de perspectivas entre os educadores e o público de que o principal objectivo da educação é desenvolver as habilidades concreto-operacionais da razão técnica, associada às competências funcionais, utilitárias da linguagem. Entende a autora que a tecnologia educacional é um meio, uma ferramenta de trabalho e não uma pedagogia que é útil na criação de tais ambientes de aprendizagem e que é essencial que a educação se preocupe com o desenvolvimento das estruturas cognitivas.

Zuhal Okan tem uma visão crítica (parece-nos mais relutante que prudente) sobre a introdução do “edutainment” no processo de ensino e aprendizagem, realçando essencialmente o perigo de o aluno poder associar, com insistência obsessiva, a ideia de aprendizagem a diversão, e aponta os materiais de “edutainment” como responsáveis por uma mudança na definição do processo de aprendizagem, contestando o paradigma construtivista. O título do artigo, embora na forma interrogativa, aponta para um sentido catastrofista, “culpando” o “edutainment” do fim próximo da aprendizagem.

Circunscreveu o software de “edutainment” quase aos seus aspectos pictóricos, de sedução, de divertimento, donde emerge o factor motivacional como o argumento mais consistente e sustentador da introdução do “edutainment” nas actividades de aprendizagem. Mas o potencial dos jogos educativos vai muito além do factor motivação, pois ajudam a desenvolver uma série de competências e estratégias que em muito beneficiam os processos de ensino e aprendizagem e, por isso, a tendência actual é a da ampliação da presença nas práticas de ensino das tecnologias da informação e dos jogos digitais educacionais.

Deve registar-se contudo o alerta de que é essencial que a educação se preocupe com o desenvolvimento das estruturas cognitivas e procure encontrar a sinergia entre pedagogia e ‘diversão’ nos jogos educacionais.

O objectivo expresso do artigo é estimular um debate sobre “edutainment”, questionando a filosofia pedagógica e didáctica do projecto que o software incorpora. A necessidade do deba-te é apresentada como premente uma vez que “a propaganda de materiais edutainment está a decorrer em pleno vigor, sem quaisquer estudos de avaliação sobre os efeitos que o próprio uso desses materiais tem sobre os jovens”.

Reconhecemos a necessidade de a investigação abordar e aprofundar as preocupações apresentadas pela autora e, nesse sentido, é importante o alerta convicto e fundamentado que expressou (para o qual convocou diversos investigadores que laboram nessa linha de raciocínio). Entendemos, contudo, que se deve continuar a utilizar software “edutainment”, não por modismo, como “símbolo de inovação”, mas porque reconhe-cemos os amplos benefícios que acarreiam para o processo de ensino e aprendizagem.

Um dos desafios colocados à educação consiste exactamente em incorporar e conviver com uma série de inovações e transformações tecnológicas que implicam a abolição de práticas pedagógicas “tradicionais”. As constantes mudanças da realidade convocam os educadores para a necessidade de alterarem as metodologias de ensino e utilizarem novos ambientes de aprendizagem que as novas tecnologias lhes proporcionam.

O seu impacto na Educação já começa a ser visível numa nova forma de aprender e numa nova forma de ensinar. Um novo paradigma educativo ganha forma, assumindo o aluno um papel activo no processo de ensino e aprendizagem e na construção do conhecimento.

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