Correio do Minho

Braga, sábado

“Economia de Casino” e necessidade de transformação

Mobilidade Sustentável

Ideias

2016-09-17 às 06h00

António Ferraz

Aexpansão do neoliberalismo à escala global, ou seja, da chamada “economia de casino” em que o poder do capital financeiro especulativo torna-se dominante em detrimento do capital produtivo, faz-se na mira da maximização de lucros a todo o custo, da maior acumulação possível de dinheiro e da desvalorização do factor trabalho. A crise económica e financeira global desde 2008 é reflexo disso mesmo, embora não sendo a primeira crise geral do modo de produção capitalista é contudo agora bastante mais grave, persistente e diferenciada. A actual crise do sistema capitalista caracteriza-se por ser o somatório de várias crises parcelares: elevado desemprego, aumento da pobreza e exclusão social e uma crise alimentar em muitas partes do globo. Como diria o economista J.M. Keynes, as crises económicas cíclicas são inerentes ao funcionamento da economia de mercado livre e tem vindo a suceder-se com maior ou menor gravidade ao longo do tempo. Em todas elas temos subprodução (produção abaixo do seu potencial), subconsumo (consumo insuficiente) e em alguns casos, com aquela em que vivemos, crises financeiras intensas.
Insistindo, porque então a actual crise tem sido mais profunda e diferente do que no passado? Desde logo, pela sua dimensão mundial como resultado do fenómeno da globalização, iniciou-se nos Estados Unidos passou para a Europa e posteriormente atingiu não só as chamadas economias emergentes (BRICS): Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, mas também, em maior ou menor grau todos os restantes países do mundo. Diferentemente do passado, agora, para além de uma crise económica e financeira global igualmente uma crise alimentar à escala planetária caracterizada pelo rebentar sucessivo de bolhas especulativas, em particular, nos sectores imobiliário, das matérias-primas, do petróleo e dos cereais dada a desregulamentação e omissão verificada por parte dos estados e uniões de estados. Assim, o capital financeiro especulativo tem vindo a procurar novos nichos de actuação na procura de máximo lucro (especulativo), mormente no sector alimentar o que tem afectado sobremaneira os países subdesenvolvidos.
Exemplo disso tem sido as fortes subidas dos preços dos produtos cerealíferos: o trigo tem vindo a subir anualmente muitas vezes 100%, o milho 98% e o etanol 80%.
A pobreza e a exclusão social, por sua vez, têm vindo a aumentar no mundo. A fome não tem sido resultado da diminuição da capacidade de produzir alimentos mas antes da forte actividade do capital financeiro especulativo, em particular, nas Bolsas de Valores, fixando, por esta via, os preços mundiais dos bens alimentares. De igual forma, a expansão do capital financeiro especulativo implicou: (a) expansão da monocultura; (em muitos casos de natureza transgénica); (b) contaminação de solos e águas pelo uso intensivo de substâncias químicas; (c) devastação florestal e ambiental; (d) eliminação de qualquer tipo de reforma agrária; (e) destruição da agricultura familiar; (f) destruição humana, por exemplo, ao afastar trabalhadores rurais das suas terras.
A “economia de casino” é assim um sistema em que o “jogo” dos especuladores nos mercados mundiais tem vindo a implica em grandes sacrifícios para as populações. Em suma, o capital financeiro especulativo e o “jogo” nas Bolsas de Valores ao influenciarem quantidades transaccionadas e preços mundiais de bens essenciais têm devido a escassez de recursos financeiros produtivos e a instabilidade no investimento produtivo, levado muitos países e populações a crises agudas económicas, sociais e humanas.
Com alterar tal estado de coisas? Sendo um assunto complexo deixaremos contudo algumas sugestões:
(1) transformação do modo de produção capitalista neoliberal assente na lógica da especulação, do máximo lucro a todo o custo e da cada vez maior acumulação de capital, em um novo sistema económico, social e político que seja valorizador do trabalho e do bem-estar das populações;
(2) abolição dos chamados paraísos fiscais e do sigilo bancário;
(3) criação de modelos económicos e sociais alternativos, mais equitativos e sustentáveis ambientalmente;
(4) consciencialização que esta transformação não acontecerá espontaneamente sendo indispensável a pressão dos movimentos sociais e políticos visando tal fim. Concluindo, é necessário transformar o paradigma vigente assente na exploração e no valor de troca, por um novo paradigma baseado na solidariedade humana e no valor de uso.

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