Correio do Minho

Braga, quarta-feira

“É preciso acreditar”

O que nos distingue

Conta o Leitor

2016-07-31 às 06h00

Escritor

Luna Braga

Porque teria tido, na primeira semana de Janeiro deste ano, aquele sonho com alguém que tendo sido tao marcante na sua vida, deixara de ver há cerca de quarenta anos? Foi uma imagem nítida e serena em que ela lhe pergunta: “ voltaste”?
Soube, casualmente, que uns dias antes, em Dezembro, e no centro do país se dera a sua partida para o plano espiritual.
Desde então e constantemente lhe surge a interrogação sobre se tal sonho não seria u8ma forma de comunicação, um aviso da sua ultima viagem.
Ás vezes o tempo não apaga todas as lembranças, contrariamente ao que se costuma dizer; pode sim, apenas esbate-las.

Há momentos da vida que têm uma tal peculiaridade e um tal encanto que vincam eternamente o mundo das nossas recordações e dos nossos sentimentos e, num ápice, logo de desbobina essa corrente de uma longínqua saudade que nos esmaga.
As lágrimas, não as pode evitar e na sua mente sucediam - se os “flashes” de dias que foram de uma completa felicidade. Mas tudo findou…

Curiosamente na semana seguinte, de novo sonhou com esse alguém a quem Rosarinho, enquanto permaneciam frente a frente, olhando-se lhe segredou “ gosto eu mais de ti do que tu de mim”.
Depois, Sílvio entrou no jeep que mostrou dificuldade em iniciar a marcha, como se o motor recusasse a sua função. Finalmente rodou e a jovem dirigiu-se para a porta do seu prédio, abriu-a lentamente e subiu a meia dúzia de degraus que conduziam ao seu apartamento.

Acordou então, relembrando tudo isto com salpicos de doçura e angústia perante a pergunta que semp0re a inquieta: “ há comunicação entre quem parte para lá da fronteira terrestre e quem ainda por cá fica? Estas questões foram surgindo ao relacionar o facto dos referidos sonhos se terem verificado quando ainda não sabia da morte de Sílvio.
Na sua memória sucedem-se vividos quadros de saudosos momentos que têm esse condão de permanecerem indefinidamente connosco.

Rosarinho guardava em si esses tempos distantes e docemente vividos, que sendo lenitivo para épocas posteriores e menos agradáveis, não deixavam de, simultaneamente, lhe trazer um misto de amargura e uma certa revolta pelos caprichos da vida.
Haviam-se conhecido em África. Foram colegas de trabalho, tendo-se desenvolvido uma forte simpatia e amizade.
Por exigência do seu trabalho de contabilidade, Sílvio deslocava-se algumas vezes a diversos pontos da cidade e ao regressar trazia sempre uma doce surpresa: uma caixinha com bolinhos, ou biscoitos e bombons.

Desenhava-se então nos dois um amplo sorriso. Rosarinho, na época com 22 anos não nutria o menor gosto pelas matemáticas, nem na escola primária e muito menos no liceu, mas Sílvio convenceu-a a frequentar as aulas de contabilidade que ele iria leccionar. Com os seus 30 anos, moreno e de elevada estatura formava um bonito par com Rosarinho também alta e de tez muito clara e que com a sua alegria e simpatia a todos cativava.

Terminada a aula, pelas 22h00, a que ela assistia apenas pela satisfação de estar na sua companhia, Sílvio levava-a a casa, no seu Ford Cortina castanho cuja matrícula nunca esqueceu. Mas no regresso saboreavam um gelado enquanto apreciavam a beleza da iluminação que se reflectia na maravilhosa baía bordada de elegantes coqueiros. Era Luanda!
Sílvio regressou a Portugal terminado o seu serviço, mas Rosarinho ficou até um mês antes da descolonização e voltou sozinha ao seu país (que deixara ainda criança) depois de ter sofrido a morte dos pais em véspera de independência. Todos estes acontecimentos se desenrolaram entre 1972 e 1975.

Um dia, inesperadamente, reencontraram-se em Lisboa. Foi um encontro emocionantes em que tudo se diz sem palavras, porque os olhos tudo dizem e então ambos ganharam coragem para expressarem o sentimento que os unia.
Sabendo do gosto de Rosarinho pela aquisição de conhecimentos, percorreu com ela quase todo o Portugal, tendo o cuidado de leva-la aos sítios mais interessantes quer do ponto de vista turístico pelas paisagens naturais, quer de Historia e Arquitectura.

Ambos gostavam do Alentejo, da extensão das suas místicas planícies e ao percorrerem longa recta do seu habitual percurso, Sílvio, vezes sem conta dizia: “ Tenhas tu tantos anos de vida como as inúmeras vezes que percorri este trajecto pensando em ti”.
Ao longo da vida há acontecimentos que surgem sem que compreendamos o seu porquê.
E os tempos de felicidade esbateram se, morrendo por motivos que hoje se considerariam insignificantes. Cada um tomou seu rumo e bastante longe um do outro. Rosarinho não foi muito feliz e a certa altura do seu percurso retomou os seus estudos na área que desde a liceu foi a sua paixão, mas que ao fim de 2 anos abandonou por graves motivos de saúde.

E hoje, após aquele sonho que inexplicavelmente teve com Sílvio, passados tantos anos e sem então saber do seu falecimento vai evocando, em nítida imagem cada momento então vivido, como aquele em que numa fria e nevoenta manha de Janeiro de 1977 ambos se passeavam subindo os degraus junto às ameias do Castelo de Sintra.
Numa visita a Évora e perante a Capela dos Ossos, também Rosarinho não esquece o que Sílvio lhe disse colocando o braço nos seus ombros:” Os meus ossos vão esperar pelos teus”.

Rosarinho dá hoje, largas a um gosto de criança e juventude: cantar. É uma forma de terapia para enfrentar a forçada paragem dos estudos a que se propusera e assim faz parte de uma Associação que ao longo do ano apresenta os seus concertos.
Curiosamente Rosarinho cantou e foi ovacionada de pé ao interpretar um dos fados favoritos, no dia 20 de Dezembro do ano passado, o dia em que Sílvio aos 76 anos se despediu da vida.

Todos julgam Rosarinho uma mulher forte e é o que ela tenta demonstrar. Albergando dentro de si um mundo de recordações e um coração simples e apesar das muitas contrariedades sofridas ela continua a acreditar na verdadeira amizade, na pureza de sentimentos e a cativar quem com ela de perto lida. Tal como a conhecida canção “ É preciso acreditar”, Rosarinho acredita que a vivência material, ou seja terrena é apenas uma passagem ou etapa de um percurso que complementará numa outra dimensão superior: a espiritual.

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