Correio do Minho

Braga, quarta-feira

“Bora lá brincar!” - agora que as aulas começam

Por mais cultura do treino e treino baseado na ciência

Ideias

2016-09-13 às 06h00

Cristina Palhares

Não é um paradoxo, não. Paradoxo é achar que aulas é a antítese de brincar. E da brincadeira livre. Aquela que o recreio proporciona. E que hoje reduzimos a dois curtos intervalos de 15m entre as 8h30 da manhã e as 13h30 da tarde. Ou a uma meia hora entre cinco de trabalho sentado. Algo que nem um adulto tem, e que nós exigimos para as nossas crianças. Tal como achar que a antecipação escolar (medida que para muitas crianças é uma medida pedagógica adequada às suas características cognitivas) lhe vai tirar o tempo de brincar.

Vai… se a escola e os pais deixarem. Porque a escola não pode ser sinónimo de falta de tempo para brincar. Bem pelo contrário. Escola é também tempo de recreio, de recreio de qualidade. Se há 20/30 anos em muitos relatórios de educadores e professores o tempo de recreio de qualidade significava um recreio partilhado pelos adultos e com adultos, onde as brincadeiras das crianças eram iniciadas, conduzidas e completadas pela figura de um adulto, hoje sabemos que esse tempo deve ser dedicado à supervisão - de longe.

De longe o suficiente para que as crianças brinquem, à luta, a correr atrás de alguém ou a ser perseguido, a subir às árvores (e a descê-las também, sozinhas), a escolher os seus líderes, as suas brinca- deiras, a fugir e a decidir, a rir e a chorar,… a desenvolver a capacidade adaptativa, quer do ponto de vista biológico, quer do ponto de vista psicológico.

Li esta semana uma entrevista a Carlos Neto, professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa. Trabalha com crianças há 40 anos e há 10 que fala da sua preocupação pelo sedentarismo das crianças portuguesas. Fala das crianças “totós”, crianças superprotegidas, sem condições para brincarem livremente. Sem joelhos esfolados…. Sem tempo e espaço para brincarem.

Fala de pais ansiosos, com muitos medos e que têm uma linguagem “terrorista”: o “não subas”, o “olha que cais”, o “não vás para ali”, o “tem cuidado”, o “não trepes à árvore”. Medos das crianças serem autónomas. Fala do trajeto casa-escola e de como a partir dos 8 anos é importante as crianças poderem fazê-lo sozinhas. Fala do “tudo pronto”, sem confronto. “O confronto é uma forma preciosa de aprendizagem na vida humana” , e a linguagem e as proibições que vêm das bocas dos adultos, o não sistemático e persecutório, o não permitir que as crianças tenham certo tipo de experiências que incluem níveis de risco maiores, só estão a conduzir a um analfabetismo motor e social.

“Bora lá brincar!”- agora que as aulas começam, para que possamos ter crianças independentes e autónomas. Também fora da escola. Fala de políticas corajosas para a infância.
“Os adultos andam de bicicleta, os idosos passeiam na rua, os jovens adolescentes vão tendo soluções, … Brincar na cidade com políticas de planeamento urbano capazes também de oferecerem condições apropriadas aos bebés, às crianças que estão a aprender a andar, às crianças que têm 5, 6, 7 e 8 anos.

Tem de haver equipamentos e espaços adequados que permitam mais margem de risco, mais margem de perigo. Há uma relação muito direta entre risco e segurança. Quanto mais risco, mais segurança e quanto mais risco, menos acidentes.” Temos que continuar a nossa travessia de aventureiros. A nossa cultura é uma cultura lúdica, de procurar o desconhecido, o incerto, o imprevisível. E hoje não deixamos que essa cultura se desenvolva. Colocamos-lhe amarras, uns quantos “nãos”, desaproveitando o clima fantástico, um nível de segurança que é dos melhores a Europa, uma natureza e uma cultura interessantíssimas, que pode resultar numa cultura recreativa excelente.

Quanto ao clima, Carlos Neto diz com alguma ironia: “as crianças, nos países nórdicos, andam na rua faça chuva ou faça sol, faça neve. Em Portugal, cai um pingo e a criança é posta numa estrutura interior. “Bora lá brincar!”- agora que as aulas começam, “porque as crianças que são mais ativas no recreio, e que têm mais socialização, têm na sala de aula mais capacidade de atenção e de concentração. E têm, a médio e a longo prazo, mais capacidade de terem sucesso, mais autoestima e maior capacidade de auto-regulação”.

E é assim que concluímos; brincar não é perder tempo… brincar é não ter crianças “totós”. É tão importante estar no recreio como na sala de aula - são estados complementares. Brincar é independência e autonomia. Brincar é desenvolver mais capacidade de aprendizagem e de concentração. Então… “Bora lá brincar!”- agora que as aulas começam.

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