Correio do Minho

Braga, segunda-feira

“A Luta é Alegria, pá!”

A vida não é um cliché

Ideias

2011-05-08 às 06h00

Carlos Pires

1. Depois do sucesso das equipas lusas na Liga Europa e, por esse facto, Portugal ter assegurado, nesta quinta-feira, que vai terminar a época 2010-2011 como o melhor país do “ranking” da UEFA, repetindo o sucesso de há 50 anos, eis que uma nova expectativa de brilhar em outros palcos se avizinha: a vitória no Festival da Eurovisão!
Verdade seja dita: já faz parte do nosso trauma colectivo Portugal nunca ganhar o Eurofestival e todos os anos se acalenta essa (vã) esperança. De qualquer forma, não devemos desesperar, até porque o próprio Festival, nos últimos tempos, se transformou numa autêntica “palhaçada”, um conluio dos vários países do leste europeu, que aproveitam este evento para promoção e vassalagem recíprocas.
A canção “A Luta é Alegria”, da autoria e performance dos “Homens da Luta”, saiu vencedora no último concurso da canção, promovido pela RTP, recheada de polémica - com os 50% do voto popular subiu vertiginosamente para o primeiro lugar, à revelia do voto dos 'experts' na matéria, que colocavam a canção no fim da tabela. Em democracia, o voto é popular. E o povo nem sempre faz a vontade às elites. Esta vitória é prova da grande revolta e desalento dos portugueses pela situação que vive o país e para com quem os tem governado. Porque as pessoas se revêem nesta música, uma música cuja letra é de contestação.
Os “Homens da Luta” vão representar o país no Eurofestival em Düsseldorf, na Alemanha, já esta semana. Para já, os membros da “banda” (Neto e Falâncio), com o habitual “look” dos anos 70, têm conquistado a atenção da imprensa internacional, graças às suas bem humoradas intervenções e entrevistas. Foram mesmo notícia no jornal britânico “The Guardian”, HYPERLINK 'http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/may/02/eurovision-portugal-peaceful-protest-comedy' \t '_blank' num artigo que contra a sensaboria do Festival da Eurovisão apela ao voto na canção portuguesa. Afinal, não traduzirá ela também o grito de muitos outros europeus?

2. A realidade é plural de sentidos e de interpretações; vamos, pois, esquecer se os “Homens da Luta” são ou não bons músicos e se a sua qualidade justifica estarem no festival da canção (dentro das regras foram os vencedores e o resto é conversa!). Eles têm, desde logo, o mérito de obrigar a uma reflexão.
Não estamos perante uma “banda” no seu sentido geral. Estamos mais perante um “boneco social”, criado com uma imagem de humor e total “nonsense”, que tenta transmitir algo à população. E tudo resulta de forma tão animada quanto caricata.
As suas canções são uma paródia das cantigas de intervenção do tempo do HYPERLINK 'http://pt.wikipedia.org/wiki/PREC' \o 'PREC' PREC e as personagens que os membros do grupo representam são caricaturas compósitas dos cantores de intervenção da altura, desde as palavras de ordem à indumentária. E não tenhamos dúvidas: se, por um lado, exploram a música como espaço de intervenção, parodiam, por outro lado, um anacronismo que reconhecem nessa forma de reivindicação. A canção 'A luta é alegria' é, de facto, tão anacrónica como o nome do grupo que a canta. Está tudo traduzido no verso: 'Vamos lutar, lutar contra a reacção'. Atiram para os dois lados, ironicamente. Isto é, tanto criticam os responsáveis pelo actual estado da nação, como implícita está a crítica aos que ainda almejam a protecção do Estado, quando o Estado já não tem mais onde espremer.

3. Serão os Homens da Luta demagogos? Obviamente que ninguém pensará que Neto e Falâncio vão mudar alguma coisa naquilo que à política diz respeito. Mas, contrariamente ao que diz HYPERLINK 'http://www.youtube.com/watch?v=gFH4SWpmSUQ' \t '_blank' Miguel Sousa Tavares, não acho que estejamos perante mera demagogia. Os “Homens da Luta” apelam à luta, no sentido de que a letargia e a falta de crítica e de participação do povo foram de igual forma responsáveis pelo actual estado em que se encontra o país. Tudo de forma bem humorada. A mensagem que estão a passar é clara, goste-se ou não do estilo usado. Não se muda nada se ficarmos quietos e conformados; não se muda nada em conversas inconsequentes de mesa de café. Muda-se pelo confronto dos poderes instituídos; muda-se através de actividade cívica; muda-se pela acção e não pela inércia.
Infelizmente, é pouco provável que a Merkel os ouça, mas não deixam de ser uma espécie de trompas desafinadas, mas transmissoras dos sentimentos da população. Os Portugueses, que neste momento são vistos pela Europa como um povo sob batuta, assustado e encolhido no seu canto, mostram, frente a milhões, que estão vivos e que se fazem ouvir. Que não estão adormecidos, mas antes descontentes. E que esse grito de revolta é direccionado, inclusive, para aqueles que os governaram. Que mantêm o espírito de bravura e orgulho.
Penso que Portugal não poderia obter melhor representação no palco europeu da canção. Os “Homens da Luta” são o retrato da vontade e da insatisfação dum povo. Com ironia, com vontade, com força e com humor! Tal como a letra da música que Fernando Tordo levou ao festival da Canção de 1973, escrita por José Carlos Ary dos Santos: “Nós vamos pegar o mundo / pelos cornos da desgraça / e fazermos da tristeza/ graça”.

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