Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Laxismo ou incompetência?

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2011-06-28 às 06h00

Jorge Cruz

Não é habitual, quando se fala de deliberações da Assembleia Municipal de Braga, dizer-se que a unanimidade é norma ou sequer um resultado muito frequente. Porém, na última sessão, que decorreu há pouco mais de uma semana, foi possível registar o voto favorável de todos os deputados a uma proposta da CDU que propunha a realização, tão breve quanto possível, de uma audição pública sobre os problemas que a recente deslocalização do Hospital de Braga está a provocar ao comércio do centro da cidade.

Percebe-se que a gravidade da situação esteja a causar grande inquietação na população e, nessa medida, convoque todos os grupos parlamentares a expressarem a sua preocupação. Entende-se a apreensão dos autarcas locais pelas consequências da crescente desertificação do centro da cidade. Já se torna bastante mais difícil de compreender como foi possível deixar chegar as coisas a este ponto, como foi possível permitir que a situação se degradasse até aos níveis alarmantes em que se encontra.

Sejamos claros: é evidente que a mudança do hospital para as Sete Fontes causou um enorme impacto negativo no comércio urbano e tradicional, com maior incidência no que se localiza nas redondezas do velho edifício da Misericórdia de Braga. Mas também não deixa de ser verdade que a deslocalização da unidade de saúde constitui apenas mais uma machadada, para alguns provavelmente a derradeira, num sector de actividade que nos últimos anos tem sofrido talvez como nenhum outro as agruras do quotidiano.

No caso em apreço, a data da transferência dos serviços hospitalares foi conhecida com anos de antecedência. Ou seja, com tempo mais que suficiente para a tomada das medidas que a nova conjuntura aconselharia. Porém, quem tinha capacidade para o fazer assobiou para o ar. Assim, descartado o desconhecimento ou ignorância, a explicação para a postura dos responsáveis situar-se-á algures entre o laxismo e a incompetência.

A fazer fé em estudos divulgados pela Associação Comercial de Braga, seriam cerca de dez mil as pessoas que diariamente se movimentavam no centro da cidade por força do velho hospital de S. Marcos. É evidente que a quebra registada, e que é bem visível após a mudança para as Sete Fontes, veio agravar substancialmente sectores como o comércio e a restauração, já bastante afectados por factores exógenos, em particular pela crise que o país e o mundo atravessam, mas também por razões de âmbito local.

De facto, quem não se recorda das constantes escapadelas de espanhóis até à capital do Minho? Quem não se lembra das famílias e grupos que se deslocavam à Bracalândia e aproveitavam para conhecer a cidade, para fazer compras e, por vezes, para ficar um fim-de-semana? Claro que o comércio, a restauração e a hotelaria eram os grandes beneficiados, para além do próprio parque de diversões. Mas tudo isso é passado e, não obstante ter sido garantida uma alternativa maior e mais completa, a realidade é bem diferente - Braga perdeu um dos principais pólos de atractividade para um grande nicho de turistas que ajudava a dinamizar a economia local. Claro que a “factura” ainda está a ser paga pelos mesmos de sempre.

Não ignoro nem desvalorizo a aposta que a autarquia fez quando procedeu às intervenções urbanísticas visando a devolução do centro da cidade aos peões e, consequentemente, procurando contribuir para a dinamização do comércio urbano e tradicional. Mais recentemente, a Câmara até incentivou a criação de uma nova centralidade comercial no antigo quarteirão dos correios, um empreendimento que adopta a filosofia do comércio de rua e que pode contribuir para impulsionar a actividade comercial.

O problema é que o facilitismo das soluções desgarradas é inimigo da opção sustentada com base em estudos elaborados por entidades credíveis e com a participação activa dos principais interessados. O voluntarismo e as boas intenções são claramente insuficientes para o objectivo que se pretende.

Também por essa razão creio que a audição pública aprovada unanimemente pelos deputados municipais se deve inserir numa acção bastante mais vasta e especializada, no âmbito de uma equipa profissional de cariz multidisciplinar. É que um estudo desse género, que tarda em fazer-se, deve contemplar, entre outros, aspectos como a circulação automóvel e, em particular, os transportes públicos, horários do comércio e dos estabelecimentos de restauração e de lazer. É que não basta revitalizar o comércio urbano e tradicional. O centro da cidade de Braga tem que ser rapidamente vivificado e não apenas nos chamados “horários de expediente”. Só assim se inverterá a tendência de desertificação que agora se verifica e se promoverá o regresso da segurança.

Se todas essas medidas de revitalização do centro forem acompanhadas de boas campa-nhas de marketing que associem o comércio de Braga às riquezas monumentais e gastronómicas da cidade e da região, então é natural que o afluxo de turistas aumente consideravelmente. Ora, neste particular até já existem alguns bons exemplos, como aquele que está a ser levado a cabo no âmbito do projecto “Braga - o comércio está no centro”.

Esta campanha pretende mostrar a vantagem da oferta diversificada do centro da cidade aliada à moldura histórica de um passado riquíssimo, o que permite efectuar compras e visitar inúmeros exemplares desse património.
Vamos ou não arregaçar as mangas e deitar mãos à obra para dar novo conteúdo ao velho “slogan” de que é bom viver em Braga?

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