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Larouco

A Martins Sarmento e as Festas Nicolinas em Tempo de Pandemia

Larouco

Escreve quem sabe

2020-05-10 às 06h00

Ricardo Moura Ricardo Moura

Onde repouso os ossos, o Deus Larouco observa-me. Um monte com 10 quilómetros de comprimento e mais de 1.500 metros de altitude. Atestado ao passado galaico que une transmontanos e galegos. Bem lá no cimo, vê-se o pulsar dos vales do Lima, Tâmega, Cávado e Rabagão. É um palpitar sem freio. Um abrigo que pede saudade. Tempero. Há nele um querer, sem querer. Um devaneio que me remete, a mim, para o subir do monte nos anos 80. Dou com os olhos na vezeira. O cão, o nosso, a guiar as cabras pelo fio do limbo. Com o meu pai. Um silêncio que convocava giestas, torgos, carquejas e urzes. Que pedia, a tempos, a borracha galega que regava o naco do pão de centeio, amaciado pela bica de ovos no estalar da navalha. Foi por aí que bebi o primeiro néctar pintado. Sede que mirrava com os regatos de água que desciam, borda fora, pela escarpa do planalto granítico. O calor era desalmado. Não espantava que, no final do Verão, o povo, velhos ou novos, tivesse um semblante cigano. Uma pele entranhada pelo calo das segadas, da sacha dos milhos, malhadas, tirada do esterco, corte do estrume, arranque das batatas e que resistia, meses depois, aos candeeiros de gelo suspensos na orla dos telhados.
O toque do sino arrepia-me. Senti-o, em tiro, num julho abafado quando vi partir o meu primeiro e amado avô. O badalo passou a ser morte ou fogo. A exceção estava no aviso para sair a rês. Essa toada reunia o gadinho no centro da aldeia. O latir dos cães indiciava a subida ao Larouco que teve sempre o condão de me apaziguar. A meio da tarde - quando as ovelhas e cabras fugiam do Sol inclemente - o zumbido em vácuo da natureza tecia-me o sangue. Encostava-me à sombra de uma parede ou de um carvalho. Tudo era motivo para respaldar o corpo e fechar o olhar. Por instantes, tirava a corda ao pensamento e deixava-o à sorte. A capa de burel, estendida, acudia o meu torso suportado num chão povoado por um exército de seres minúsculos. A espaços, os carneiros gladiavam-se. Uma ou outra cabra esbarrondava a parede. O cuco do maio já era melancolia. As horas não fugiam. Prendiam-se ao monte. Dava para tudo.
Este pedaço de alma que descrevo é do melhor chão que Portugal tem. Glorifica qualquer estação. Poderoso no Inverno. Perfumado na Primavera. Fausto no Verão. Eterno no Outono. Há nele a grandeza de Tolstói. Uma vastidão simples que comove, que desarma o rebuço dos dias.
Sem holofotes durante séculos, a serra onde nasce o rio Cávado (Fonte da Pipa) é hoje atração turística, em boa parte, à custa dos anos de promoção contínua e coordenada. O trabalho de mina gerou pedaços de luz. Exemplo, o Mundial de Parapente voado em 2003. Um voo que, para além de reforçar o que já existia de sedutor, puxou por outros eventos a ponto de colocar a palavra Montalegre na mira da procura. Há meia dúzia de anos, o tapete estendido agilizou o charme. Milhares galgam até ao pico. Seja pela neve, seja pelo circo da Volta, seja pela paisagem que tira o fôlego ao mais exigente, o pelotão é renovado sem bilhete.
Não fossem os impalpáveis homens do fósforo, tudo no Larouco era nirvana. Uma quimera que desenha o sabor das manhãs. Que trava o degelo deste fado que vivemos. Há, por aqui, muito cheiro que ainda resiste pelos matos de giesta, embrulhados em urze. Germinam níscaros. Dançam rãs. A todo o instante, tropeçamos em poças de água cristalina, carvalhos, castanheiros, vidoeiros, pinheiros, arvoredo que gravita sem destino. Pelo meio, se apurarmos a retina, podemos observar, neste Maciço Antigo, plantas terapêuticas e o palmilhar de lobos ibéricos, corços, raposas, javalis, cavalos garranos, lagartos e cobras. O céu oferece-nos aves de rapina de beleza rara. Um templo com instantes de alegoria que nos transporta, nos dias do manto branco, para o impiedoso sincelo. Isto são alguns rabiscos do Barroso que vivi. Aquele que, ainda hoje, me faz resistir ao atropelo dos dias.

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