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La vie (pas tellement) en rose...

“O caminho dos justos”

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Ideias

2022-04-30 às 06h00

Pedro Madeira Froufe Pedro Madeira Froufe

Emmanuel Macron foi reeleito, no dia 24 de abril, Presidente da República Francesa, para o desempenho de um segundo e último mandato. Uma eleição a duas voltas, cujas regras sublinham a posição central e a legitimidade de quem seja eleito, de resto, em consonância com o sistema francês semiparlamentar de pendor presidencialista (ao invés do sistema semiparlamentar de pendor parlamentarista, vigente em Portugal).

O reeleito presidente incumbente viu, no fundo, na 2ª volta, reforçarem-se as posições que, de um modo geral, foram alcançadas na 1ª volta (10 de abril) dessa eleição, nomeadamente, em relação aos resultados então e por si obtidos. Na verdade, os resultados finais alcançados por Macron evidenciam, para o Presidente reeleito, a sua força eleitoral urbana, sobretudo na região de “L’Ile de France”, parisiense e cosmopolita e, entre outras regiões, em Lyon e em Grenoble. Esses resultados permitem, também, com propriedade, concluir-se que na 2ª volta das eleições francesas, o “voto contra” foi consideravelmente decisivo. Muitos dos votantes em Macron, nessa 2ª volta, foram “eleitores emprestados”, movidos não pelo apoio intrínseco ao presidente incumbente, mas sobretudo pela pela vontade de impedirem a candidata oponente e recorrente, Marine Le Pen, de extrema direita, de alcançar a vitória. Isso poderá igualmente explicar, em parte, o aumento da percentagem de votos brancos e nulos em algumas zonas que foram dominadas, na 1ª volta, pelo candidato da “esquerda radical” (extrema esquerda) e do seu partido / movimento “La France insoumise”, Jean – Luc Mélenchon.

Ora, o posicionamento dos próprios candidatos em relação às próximas eleições legislativas de junho do corrente ano, auxiliar-nos-á a compreender, também, as atuais dinâmicas políticas gaulesas. Interessa-nos, por agora e na presente nota sobre as eleições francesas, salientar alguns tópicos de reflexão que têm a ver com a integração europeia.
Assim, é inegável que, de certo modo, a integração europeia respirou um pouco de alívio! A vitória de Macron é a vitória de um Presidente europeísta que tem tido uma visão política estratégica para a União Europeia. Compreende, afirma-o e vivifica o denominado “eixo franco-alemão” no que respeita aos avanços da integração. Isso denota uma compreensão e uma visão historicamente fundamentadas, da parte de Macron, do que tem sido o papel desse “eixo” (e das suas potencialidades), como “motor” económico, da União e, por via disso, ao fim e ao cabo, depositário de uma importância muito para além do que é a integração unicamente económica e o Mercado Único. A União não se dissocia de um certo cunho e tonalidade moderados, humanistas e de desenvolvimento equilibrado (com coesão territorial e social) que a fortalece, facilitan- do a criação de condições para se alcançar o bem-estar integral das suas populações. Macron, muito antes da pandemia já tinha colocado na agenda europeia a necessidade de a União ter “soberania tecnológica”, referindo-se não só aos avanços da digitalização, mas também à anulação da dependência europeia em matérias tecnológicas-produtivas, como, por exemplo, a produção e o desenvolvimento de semicondutores e “chips” que, neste momento, também condicionam a política energética.

Na verdade, ainda que fosse possível produzir autonomamente (por exemplo, já sem o gás russo) energia suficiente, não seria possível – dada tal dependência asiática em matéria de semicondutores e “chips” – armazena-la (pelo menos, em função unicamente das decisões e necessidades europeias).
A pandemia e a guerra reforçaram outras “ideias-chave” que têm sido propaladas por Macron: autossuficiência industrial (remodelação e reforço da política industrial) e a necessidade de uma política comum de defesa e de segurança. No fundo, e relativamente a esta última, a capacidade que a Europa deverá ter de, por si só, conseguir assegurar a segurança dos seus cidadãos.

Existem, contudo, nuvens muito negras que começam a pairar sobre a Europa. Desde 2020, temos assistido a progressivos acontecimentos de rutura em relação à ordem das coisas que, para nós, ilusoriamente, era o nosso pressuposto de vida (minimamente estável, previsível). Mesmo sem falarmos no Brexit, temos a pandemia. Distraímo-nos um pouco da pandemia e arrostamos com a guerra e com a posição disruptiva (para nós), agressiva e, de certo modo, oitocentista e expansionista, da Rússia putiniana. A guerra provoca (provocará) mudanças, direta ou indiretamente, na nossa vida. Desde logo, um virar de página em termos de integração, com a necessidade rápida de se avançar para uma efetivação da política comum de segurança e de defesa. Isto significará, logo à partida, novas condicionantes orçamentais, para além de uma construção europeia já desligada da ilusão do fim da (era) da guerra.

Por outro lado, já sentimos, fruto de todos os acontecimentos antecedentemente enunciados, a inflação. De igual modo, já nos tínhamos esquecido dela e também já quase que vivíamos, na União, uma era da ilusão do fim da inflação! Como vamos geri-la, preservando o nosso modo de vida e bem-estar materiais? Seja lá como for, só no quadro da integração, para os países europeus, será possível encontrar a “rede” minimamente adequada (a mais adequada possível) para fazer face a essas incertezas. E, ainda que não saibamos, já, qual a capacidade de Macron para contribuir para uma solução europeia efetivamente eficaz, o facto é que, de todo, essa solução seria bem pior (inalcançável) com a eleição, em França, de um Presidente antieuropeu…Ainda que com uma narrativa de campanha, como a de Marine Le Pen, meramente cosmética, supostamente a favor de “uma outra Europa”, de uma Europa da colaboração das nações (seja lá o que isso for…ou seja, nada!).

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