Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Lá se vai Nossa Senhora tremoços, amoras e levandiscas

Amarelos há muitos...

Escreve quem sabe

2018-03-21 às 06h00

José Hermínio Machado

Em tempo de migrações, a procissão da burrinha mantém o imaginário da fuga e da salvaguarda vida, num contexto que bem pode servir de guião para outras narrativas. Não encontrei ainda aqui no Minho - e digo ainda porque o país é pequeno, como dizia José Leite de Vasconcelos qualquer versão ou variante da narrativa da fuga da Sagrada Família para o Egipto, mas conheço a versão transmontana do romance que tem por base esta narrativa, curiosamente não no sentido da ida, mas no sentido da vinda, o regresso do Egipto para Belém. Nossa Senhora passou por um pomar, de maçãs ou de laranjas, conforme a variante, e pediu licença para se abastecer e dar ao Menino seu filho, permissão logo dada generosamente pelo guardador do pomar, um cego que, acto contínuo, recuperou a vista e atribuiu a sua cura à generosidade da Virgem Maria que tinha todo o poder para isso.

A história assim contada tem todo o fulgor narrativo de quem pede ajuda e de quem a concede, de quem viaja e de quem precisa, de quem tem e de quem passa necessidades, de quem pede favores e de quem os agradece com o que pode, neste caso, esse poder imenso de dar a vista ao outro ou de o iluminar. Braga pode não ter este romance no seu cardápio, mas mantém a viagem da fuga de Nossa Senhora com o seu Filho, usando a burrinha como meio de transporte. Na minha infância aprendi também que a esta viagem se deviam relacionar os tremoçais e seu modo sonoro de vibração aquando do amadurecimento, bem como a condenação que sofreram de não enfartarem quem os comesse por terem sido ruidosamente denunciadores dos fugitivos, a Senhora e o menino e S. José, naturalmente. Também a esta história da fuga fiquei a relacionar as amoras das silvas, estas sim, protectoras, e por isso ganhadoras de fruto tão saborosamente apetecido e de colheita sempre cuidadosa.

Também as codornizes e também as levandiscas entraram na história da perseguição à Sagrada família, umas por serem oponentes e outras por serem ajudantes, papéis ou funções narrativas que muitas outras personagens acabaram por merecer. Desta história ficaram em muitos lugares de passagem as marcas ou da senhora ou da burrinha, em pedras ou em lamaçais que entretanto ganharam a solidez rochosa. As tradições têm este condão de andarem a destempo ou em desciclo com outras narrativas, mas também as completarem pelo imaginário, dimensão que o folclore tem para melhor sedimentar a reflexão crítica, caso esta se exerça com liberdade de descoberta de sentido.

Não sei porquê, mas tem esta procissão da burrinha a ocasionalidade de apanhar ainda o tempo de luto que a razão faz por Stephen Hawking, físico teórico, astrónomo, cosmólogo, a quem estas lendas nada interessariam e que em contrapartida nos deixou outras dimensões imaginárias para pensarmos o universo e a nossa relação com ele, desafiando-nos a perguntar se Deus joga connosco aos dados, como jogou afinal com a toda a natureza quando fugiu ao colo de sua mãe, montado numa burrinha, a caminho do Egipto e de lá para Belém, estimulando a nossa imaginação a encontrar explicações para tudo o que mexe e para tudo o que não mexe, para o que foi e para o que há-de vir. Ao declarar-se esta procissão da burrinha como história do Povo de Deus mais não se faz, para um cristão, que persistir um modelo imaginário de interrogação para as grandes ansiedades de resposta sobre o sentido do nosso planeta num universo sem fronteiras, em expansão até quando Deus quiser. Era bom que se comessem uns tremoços durante a procissão da burrinha!

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