Correio do Minho

Braga, segunda-feira

La La Land e o “Trump World”

O conceito de Natal

Ideias

2017-01-30 às 06h00

Carlos Pires

1 Eu sei que estamos todos fartos de ouvir falar de “Trump”. Mas temos que nos habituar à ideia de que tal não vai terminar. E que, para bem de todos, é bom que falemos abertamente do assunto.
Senão, vejamos:
O “reality show” em que se convertera a campanha eleitoral nos Estados Unidos terminou com a mais inacreditável, grotesca e perigosa confirmação: a “cabeça de cor de laranja enferrujada” (palavras da jornalista Clara Ferreira Alves) fora eleita para a Casa Branca.
Uma semana após a tomada de posse como presidente da América foi o bastante para concluirmos o quão destruidora é a cruzada de Trump. E começamos a ter a certeza de que aquilo que prometeu é para levar a sério. Com uma assinatura ou um tweet reduziu a pó múltiplas medidas e acordos que demoraram anos a erguer por Administrações anteriores: o programa de saúde Obamacare, a Parceria Transpacífico, a (insolente) passagem da embaixada americana em Israel de Telavive para o hipercentro do conflito, Jerusalém (“os Estados Unidos devem “lutar contra o fogo com fogo”, dixit).
Mas a destruição é também de direitos sociais e de direitos humanos. Na nova página da Casa Branca não há aquecimento global, gays ou versão em castelhano, mas autoelogios não faltam - “Donald Trump é a própria definição da história de sucesso americana”, diz-se aí. A par, lança os “factos alternativos”, a edificação de novos oleodutos, impõe que qualquer estudo ou informação produzidos pelos cientistas da Agência de Proteção do Ambiente só podem ser divulgados depois de escrutinados por assessores políticos do Presidente, defende na televisão a eficácia da tortura como método de interrogatório e começa a cumprir algumas das mais controversas promessas de campanha, como a construção do muro na fronteira com o México e a deportação de milhões de imigrantes clandestinos (a este respeito, chega-nos a boa nova de que uma juíza federal norte-americana decidiu, na noite de sábado, que os refugiados e outras pessoas afetadas pela nova medida de imigração que chegaram aos aeroportos norte-americanos não podem ser deportados).
O estratega de Donald para a comunicação, Stephen K. Bannon, afirmou que é melhor a imprensa “manter a boca calada”. Já outro conselheiro terá sugerido a prisão de Madonna - que participara na Marcha de Mulheres, no passado dia 21 - por terrorismo. A comunicação social e o grito libertador da comunidade artística e de Hollywood são vistos como alvos a abater.
Na Europa a epidemia espalha-se: a reunião de líderes da extrema-direita europeia em Koblenz, na Alemanha — com Marine Le Pen a dizer, seguindo a linha do Presidente norte-americano, que este é o ano em que a Europa vai “acordar” —, os ataques antissemitas em Londres. Um napalm destrutivo responsável por espalhar todas as formas de ódio, que parecem ressurgir 70 anos após o fim da II Guerra Mundial.
É por isso que não nos podemos calar, porque basicamente “quem cala consente” e legitima que novo holocausto se erga num futuro próximo. “Se não falarmos abertamente sobre ele, o passado pode voltar como um zombie”, referiu, em Lisboa, o historiador e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros finlandês, Erkki Tuomioja. Não posso estar mais de acordo.


2 Tempo ainda para vos sugerir uma imperiosa ida ao cinema. Estreou o filme “La la Land”, em exibição em todas as salas de cinema. Confesso-vos que detesto unanimismos e por isso estava um pouco cético quanto ao frenesim que rodeou este filme, com 14 nomeações para os Óscares e ganhador de todos os 7 Globos de Ouro para os quais fora nomeado. Tinha a certeza de que a Academia optara por premiar o mais fácil, em detrimento do mais profundo (como era possível o “Silêncio” de Scorsese só ter 1 nomeação para os óscares?!!). Confesso-vos ainda que achava que iria ver “mais” um musical, que certamente caíra no goto dos mais saudosistas, um “restyled” “Grease”, com notas de Vincent Minnelli e Gene Kelly.
Aproveitei pois o fim-de-semana passado para esquecer o cinzentismo Trumpista e mergulhei no mundo de explosão de cor criado pelo realizador Damien Chazelle. A espetacular cena de abertura de “La La Land” tem a força de demover até o mais cáustico dos críticos de musicais. Dezenas de motoristas saem dos seus carros para dançar entre e sobre os veículos, presos no meio do trânsito caótico, no viaduto de acesso à cidade de Los Angeles. Tudo é perfeitamente sincronizado e grandioso nesta história sobre ilusão e desilusão, sobre sonho e realidade. Fiquei rendido. Os filmes podem ser um reflexo indireto do que está acontecendo e “La La Land” é um filme sonhador e mágico em tempos de cólera. É o filme que a era Trump merece. Recomendo.

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