Correio do Minho

Braga, sábado

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Kill All Others

Decisões que marcam

Kill All Others

Ideias

2021-01-05 às 06h00

Rui Marques Rui Marques

“Kill All Others” (“Matar Todos os Outros” numa tradução literal) é o título de um episódio da série “Electric Dreams” (atualmente disponível na plataforma Prime Video). Baseado nas histórias do conhecido autor de ficção científica Phillip K. Dick, este episódio particular narra a situação de um mundo distópico onde a América do Norte está agregada numa só nação (Mexuscan) e o processo democrático resume-se à possibilidade de voto num único candidato. Sem querer discutir os méritos artísticos e o desenrolar do enredo deste conto/episódio, há, todavia, uma dimensão quase presciente do seu conteúdo que aponta a degradação do processo democrático que vivemos, resultante da inexistência de verdadeiras alternativas.
O problema complexo da democracia é-nos dado com desassombrada facilidade quando “A Candidata” responde a uma pergunta sobre a falta de competidores numa entrevista televisiva: “[A eleição] Não é sobre o resultado, é sobre o processo”. Aceitar esta premissa, que é verdadeira, mas curta, é um primeiro passo para anestesiarmos os fundamentos do (tal) processo democrático. Sim, é imprescindível que o processo ocorra e respeite as regras, mas este é meramente instrumental no quadro mais amplo e essencial da hipótese de escolha, da consagração da diferença das ideias, das pessoas, dos perfis e das perspetivas.
Como justamente afirma uma eleitora indignada em resposta à “Candidata”, “um candidato não é democracia”.
Serve esta introdução para me referir a dois planos políticos nacionais que parecem querer confirmar a máxima perigosa de que “o que conta é o processo”. A menos de um mês das eleições presidenciais, é clara a distância entre “O Candidato” (Marcelo Rebelo de Sousa) e os restantes nomes presentes no boletim de voto. Com efeito, o caso caricato da inclusão de Eduardo Batista (que apenas conseguiu recolher 11 assinaturas de concidadãos que o apoiassem para, ao menos, ir à luta) no rol dos candidatos que figuram naquele boletim aparece como um apontamento lírico sublime de legitimação da supremacia do processo sobre o resultado, ainda que aqui com óbvias deficiências processuais.
A ausência de alternativas fortes, consistentes e reconhecidas, não fortalece as maiorias absolutas de quem vence, antes as diminui ao reduto da inevitabilidade. E mais graves se tornam quando os principais agentes da política nacional (os partidos) se demitem da mais básica obrigação que a democracia lhes impõe, isto é, ir a jogo. A posição do Partido Socialista nestas eleições, se taticamente compreensível, é politicamente aberrante, porquanto não faltariam bons candidatos na área da esquerda que pudessem promover o debate aberto e qualificado das matérias que competem ao mais alto cargo político da nação. Não é Marcelo quem com isto ganha, é o povo português e o sistema político que perdem, em toda a linha, com a campanha e debates que já vimos e (provavelmente) continuaremos a ver.
A pandemia surge como a desculpa ideal para não se estragar a fotografia com a contenda “feia e imprópria” da política e, principalmente da “política partidária” (como se outra houvesse que o não fosse). O conforto da omissão é inversamente proporcional ao vigor da democracia.
Sem desprestígio pela coragem dos que avançaram, o desnível entre as candidaturas é notório. Sim, é verdade que Marcelo Rebelo de Sousa seria tendencialmente imbatível, mas o desconforto provocado por uma boa candidatura alternativa, polarizadora de ideias e visões distintas, colocaria no centro da sociedade portuguesa uma eleição que parece estar a ser escondida numa loja de antiguidades.
Se mais não fosse, os 30 minutos com que se compactam debates entre candidatos exprimem bem a irrelevância a que chegou a disputa pela Presidência da República e que a abstenção seguramente comprovará. O que importa é o processo dirão alguns…
Noutro âmbito, e em que aqui apenas quero tocar ao de leve, também esta tentação formalista parece querer instalar-se na sociedade portuguesa. Após as últimas eleições legislativas, percebemos que a existência de alternativas ao poder instalado se estará a tornar impercetível para o cidadão português.
Aparentemente, a cristalização de um bloco à esquerda e a ineptidão dos partidos que não se reveem nesse bloco levaram a sondagens repetidas que não só confirmam como agravam a perceção da inevitabilidade de governos PS, independentemente das circunstâncias. Não há pandemia que o trave ou crise social que o evite. Este triste cenário deve levar a reflexões profundas por parte daqueles que se oferecem ou dizem oferecer como proposta política distinta e oposta ao poder vigente. E isto sob pena de, também aqui, perpetuarmos um formalismo democrático que arrase a substância do contraste entre caminhos verdadeiramente diferentes que nos permitam, enquanto eleitores, formular escolhas autênticas e relevantes.
É determinante salvar “o Outro”, derrotando-o em aberta contenda política e não “matá-lo” na anonimidade estéril do processo.

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