Correio do Minho

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Kashmir

Amigos não são amiguinhos

Conta o Leitor

2018-07-22 às 06h00

Escritor

Autor: António Santos da Silva

Regressou aos mesmos espaços onde sonhando desafiava a sonhar. Nessas noites, olhava-os nos olhos e falava-lhes de utopias que se cumpriam, de portas que se abriam, de outros lugares onde quase tudo poderia estar certo. Regressava ao passado e levava-os em viagens até homens, mulheres e lugares que edificaram a memória coletiva. E assim, do passado, propunha-lhes uma espécie de salvo-conduto para o futuro. E em cada recomeço sonhava e desafiava a sonhar com o mesmo enlevo de primeira vez. E assim partia, animado por certezas que não tinha, apenas confiando que também eles poderiam ser donos dos seus sonhos. E assim fazia caminho angustiando-se sempre que algum renegava a sua companhia ou se deixava atrasar. E então, desafiadoramente, ele ultrapassava alguns dos limites e trazia-o de novo ao grupo. E voltavam a caminhar. Lado a lado. Nem mais à frente. Nem mais atrás. Não conhecia, ou recusava-se a conhecer…, outra forma de caminhar.
E assim se fazia feliz na felicidade do outro. Indiferente ao que era, projetando-se tão-somente no que sonhava ser, recusando-se a ver restos de si dispersos pelo chão. Que outros pisavam. E que ele jurava não se doer, quantas vezes inconscientemente inebriado num sorriso que não reconhecia como mais sedutor. No limite da transgressão que até então desconhecera. E deixava-se fantasiar… Nela. E, ganhando, perdia.
Agora voltava de novo às memórias. E reconhecia-se um estranho, renegando-se nas certezas que não tinha, mas que publica e dissimuladamente exibia. E sentia-se regressar a um passado que jurara ter esconjurado. E não conseguia dar sentido à razão. Em que não se reconhecia. Nela. Nessa terra de ninguém onde se defrontava entre o que era e o que mentia ser.
Debatia-se entre a vontade de ser e a necessidade de estar. Fechava-se por dentro, mas não conseguia descolorir-lhe o rosto, acinzentar as horas nessa vã esperança de não regresso. Fugia-lhe sem se afastar. Sentia-se de novo naqueles tempos em que se abandonava nos limites do tolerável, nessa ínfima fronteira que não separa o desespero da mais profunda solidão.
Nesses dias marcados pela ambivalência de uma vida conhecida como imaculadamente inscrita nas margens da mais respeitável conformidade, revelava-se incapaz de esconder as sombras e incertezas de dias com muitas partidas e escassas chegadas. A partes onde se fundeava sem se levar. Como se fosse dotado de uma impossível capacidade de se metamorfosear. No que verdadeiramente era. Nesses dias em que se exilava pelos negros céus onde voava. Libertando-se desse rastejar conformado em que se penalizava nos dias.
Porquê fingir? Porquê deixar-se levar na dor?
Porquê fingir? Porquê deixar-se levar na dor?
Porquê fingir? Porquê deixar-se levar na dor?
E enganava-se a si mesmo afiançando que se faria sorrir. E prometia-se deixar as sombras e as incertezas e que partiria sem se levar. Como se fosse outro. Aquele que é. E que todos afirmam não ser. Nela! Nessa vida feita moeda só de reverso.

Oh, let the sun beat down upon my face
And stars fill my dream
I'm a traveller of both time and space
To be where I have been.

Queria esconder-se do que se poderia dizer. E evaporar-se da memória. Abandonando esse permanente remar de costas, guiando-se apenas pelas sombras. Sem nunca ter sido capaz de olhar a luz. Mas, paradoxalmente, queria refugiar-se. Nela. Na caverna de Platão onde muito se crescera e onde agora queria regressar, esquecendo que, depois de conhecerem a luz, os seus olhos cegariam na escuridão.
Queria abraçar o mundo e não se lembrava de alguma vez se ter abraçado a si mesmo. Tinha sempre a palavra certa e o sorriso preparado para todos com quem se encontrava nas encruzilhadas da vida. E, no entanto, no seu mundo apenas sabia dizer a si mesmo as mais severas recriminações e nunca encontrou um sorriso do outro lado do espelho.
Transportava de novo consigo essa incapacidade de dizer NÃO! E confrontava-se com essa inépcia absoluta de traduzir nos seus atos o que de mais inexprimível permanecia naquela dimensão de si mesmo a que muitos chamam a alma. E traía-se… Nela. Na obstinação com que se ensurdecia.
Sentia-se largado a muitos metros do chão, completamente indefeso, sem qualquer saliência a que se pudesse agarrar. E salvar-se da queda mais que iminente. Naquele chão onde sempre se desejou ser e onde só por breves tempos foi quem verdadeiramente é. E, desajeitadamente, procurava uma estrada para o céu… “Sometimes all of our thoughts are misgiving.”
Quase morria dentro de si. Por dentro de si. Nos silêncios interiores em que se exilava.
E de novo deu-se consigo a questionar-se. Como nesses tempos em que sentia apressado. Quando se descobria incapaz de ficar. Como se estivesse parado no lado errado da vida. E agora ouvia-os de novo. Chamavam-no. E ele não ia. Ouvia e não entendia. E retomava de novo a marcha. E agora as vozes era uma só voz. E gritava-lhe o convite vezes sem conta recusado. E ele renegava-se. Nela.

Oh, baby, I been blind
Oh, yeah, mama, there ain't no denyin'
Oh, ooh yes, I been blind
Mama, mama, ain't no denyin', no denyin'

Enevoava-se-lhe o olhar por sofrer a verdade. Mortificava-se e sofria para não sofrer. Afrontava o Sol até sentir-se de olhar em brasa, esperando aterrorizar os seus próprios terrores. E sentia-se incapaz de ir. E sonhava regressar aos mesmos espaços onde sonhando desafiava a sonhar. E queria gritar.
Pra sempre!
Pra sempre!
Pra sempre!

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