Correio do Minho

Braga, sábado

Jovens e seniores no mercado de trabalho

Plástico - Pequenos passos no caminho certo

Ideias

2014-01-17 às 06h00

Margarida Proença

O último relatório da OCDE, divulgado no final de 2013, chama a atenção no seu editorial para duas coisas: em primeiro lugar, uma mensagem positiva. A economia global mantém uma trajetória de crescimento, antecipando alguma aceleração para 2014 e 2015. No entanto, os riscos são ainda muito elevados, talvez mesmo mais significativos do que se antecipava no início do ano passado. Ou seja, as coisas podem começar a correr bem, e há sinais que apontam nesse sentido - ou podem descambar, e a recuperação económica voltar a sair dos carris. Depende de tantos fatores, e a economia mundial está de tal forma dependente do que se passa aqui ou ali, neste ou naquele país ou conjunto de países, que é difícil dar certezas. O crescimento nos países emergentes está abrandar, a política monetária na zona euro continua a defrontar-se com problemas complicados e insuficiência de instrumentos de que devem ser responsabilizados em exclusivo os políticos, a situação fiscal no Japão preocupa, os procedimentos orçamentais nos Estados Unidos têm de ser revistos para impedir que haja de novo um caso como aquele que aconteceu em 2013 e que parou o funcionamento da administração pública; entre outros, são variáveis cuja evolução não é ainda clara, mas que antecipam a probabilidade de riscos, que esperemos não se confirmem.
O problema do desemprego continua contudo muito sério; os jovens foram, de uma forma muito particular, atingidos pela atual crise económica. No segundo trimestre de 2013, na zona euro, a taxa de desemprego jovem era de 23,1%, um valor que é mais do que o dobro do registado em termos globais e bem acima dos 15,6% que eram em 2008. Dizendo de outra forma - mais do que um jovem, entre cada cinco, estava desempregado e á procura de trabalho, e apesar dos sinais positivos, ainda que os riscos se não confirmem, o risco de desemprego de longa duração para um número substancial de jovens manter-se-á, tanto maior quanto mais tempo demorarem a entrar no mercado de trabalho, seja por que razão for. E falando aqui contra o grupo etário em que estou incluída, tem-se falado muito mais na problemática das pensões e nas vantagens ou desvantagens de decidir ou não permanecer no mercado de trabalho do que neste problema. Compreende-se aliás, já que é mais difícil aos jovens chegarem aos media e a “fazedores” de opinião.
Uma questão interessante foi abordada num relatório muito recente apresentado ao Parlamento Europeu no final de 2013. Trata-se de saber se há concorrência entre os jovens até aos 24 anos e os seniores dos 55 os 64 anos; isto é, saber se fará sentido, ou não, apoiar políticas que promovam as reformas mais cedo, ou mesmo uma espécie de “contrato entre gerações” no sentido dos trabalhadores mais velhos terem horários mais baixos, criando emprego em contrapartida para os jovens.
A figura aqui apresentada mostra a variação nas taxas de desemprego para os jovens (15-24 anos) e os trabalhadores mais velhos (55-64 anos), entre 2008 e 2012, para a União Europeia como um todo, e para alguns países em particular; os dados estatísticos são oficiais, do Eurostat. Como se pode verificar, em Portugal, o desemprego jovem aumentou 21,3%, e dos trabalhadores mais velhos aumentou 6,2%; na Alemanha, por exemplo, a taxa de desemprego jovem baixou neste período cerca de 2,5%. Em geral, na União Europeia, a diferença registada nos dois tipos de taxas de desemprego vai no mesmo sentido.
Os autores do relatório em causa (liderado por W. Eichhorst) procuraram ainda verificar se existiriam diferenças regionais, e se porventura o comportamento seria diferente consoante os níveis educacionais dos mais jovens e dos mais velhos. Curiosamente não encontraram nenhuma correlação significativa entre a saída dos mais velhos do mercado de trabalho e a taxa de desemprego dos mais jovens; a explicação que são vai no sentido de que eventuais apoios financeiros que induzam a saída do mercado de trabalho de trabalhadores mais velhos, contribuem para aumentar o custo de financiamento do sistema de pensões , logo as contribuições obrigatórias da empresas, o que leva ao aumento do custo de trabalho e portanto reduz a procura de novos trabalhadores.
Os autores do relatório em causa (liderado por W. Eichhorst) procuraram ainda verificar se existiriam diferenças regionais, e se porventura o comportamento seria diferente consoante os níveis educacionais dos mais jovens e dos mais velhos. Curiosamente não encontraram nenhuma correlação significativa entre a saída dos mais velhos do mercado de trabalho e a taxa de desemprego dos mais jovens; a explicação que são vai no sentido de que eventuais apoios financeiros que induzam a saída do mercado de trabalho de trabalhadores mais velhos, contribuem para aumentar o custo de financiamento do sistema de pensões, logo as contribuições obrigatórias das empresas, o que leva ao aumento do custo de trabalho e portanto reduz a procura de novos trabalhadores. É também curiosa outra das conclusões deste relatório, sobre o nível educacional. Quanto mais elevado for o nível educacional, mais independentes parecem ser os dois comportamentos; no entanto, para níveis educacionais mais baixos, a reforma antecipada dos trabalhadores tende a prejudicar diretamente as perspetivas dos mais novos arranjarem emprego. Apesar de tudo, quanto mais elevado é o nível educacional, tanto mais protegidos parecem estar, em média, os trabalhadores.
O relatório conclui então pela importância de serem formuladas políticas que promovam o emprego de ambos os grupos, que facilitem e promovam a mobilidade regional, interna e entre países, que reforcem a importância da educação e da formação profissional e a reforma das estruturas de incentivos da segurança social. Mas sabe-se ainda pouco sobre todas estas relações, nomeadamente dentro de cada país, com a sua cultura própria, a sua legislação e as suas instituições.

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