Correio do Minho

Braga,

Jogos na sombra

A vida não é um cliché

Ideias

2015-03-08 às 06h00

José Manuel Cruz

A poucas horas de estrear na RTP 2 dou a primazia da minha atenção à série “Les hommes de l’ombre” que em Portugal passará sob o título “Os influentes”. Sem puxar por galões de crítico avisado não deixo de me pronunciar sobre a qualidade do produto televisivo. Assim, parece-me uma série dinâmica, bem sequenciada, de verosimilhança raiando o documental do quotidiano. É ficção mas poderia ser real.

Poderia ser real mesmo no elemento despoletador da trama, a saber a acção terrorista executada por um homem-bomba, operário arrastado para o vazio pelo encerramento da unidade industrial em que havia trabalhado. Poderia acontecer a um presidente factual, por exemplo a Hollande, em Novembro último, aquando da sua deslocação à Arcelor-Mittal, apagada unidade siderúrgica do departamento de Moselle, território cuja soberania tem circulado entre franceses e alemães. Interrogar-se-ão os moselanos porque é que os equipamentos fabris definham em França e prosperam na Alemanha, porque encerram empresas e cresce o desemprego de um lado, quando de outro se vive uma situação de pleno emprego, mesmo de carência de mão-de-obra.

Poderia ter ocorrido a um moselano, no limiar do desespero, a ideia duma saída em grande, com estrondo, arrastando consigo políticos de topo. Tantos quantos pudesse.

Embora vivamos tempos particularmente propensos ao desequilíbrio, não é senão de boa-fé que todos nós esperamos que a realidade não se dê ao incómodo de ultrapassar a ficção. Voltando à série televisiva, - entretenimento, por conseguinte - poderemos cair na tentação de a dar por banal. Os conselheiros de comunicação fabricam fantasias políticas e vitórias eleitorais! Olha, e qual é a novidade?

Sabemos de ciência feita que o marketing vale mais do que a substância, e que por conta dessa verdade nua e crua o homem político pode dar-se ao luxo de mais não ser do que um casulo, uma máscara ou conjunto de máscaras usadas de acordo com as circunstâncias.

Polarizam-se políticos e respectivos conselheiros de imagem - de um lado o político altruísta e comprometido com o bem público, secundado por um consultor imbuído dos mais elevados valores éticos; do outro lado o estadista dissimulado, mesquinho, que não se coíbe de jogar sujo, que mais não almeja que protelar-se poder, e este assessorado por um vilão que afina pela mesma bitola. Assim, quanto uma estratégia de imagem se revele filha legítima da deturpação e do ludíbrio, logo outra se oferece a nossos olhos como participante da verdade e potenciadora da virtude. É bonito, mas é romance.

Resisto a resvalar para o moralismo, sequer a fazer a ponte para temas da actualidade em matéria de satisfação de impostos e contribuições sociais. As sociedades aspiram a políticos dignos e exemplares, mas a matéria prima enferma de defeitos primordiais. O bom político é um mito que emparceira com o mito do bom cidadão, do bom vizinho. Tropeçamos no impasse de Rousseau: bom, o homem, apenas no estado ancestral, selvagem, já que todas as formas de associação social contribuem para a sua corrupção.

Quanto a série nos permita reflectir sobre os bastidores do poder, quanto contribua para um acréscimo de independência de pensamento, de exigência e vigilância sobre os titulares dos cargos públicos, poderemos dá-la por conseguida muito para além do valor facial enquanto conteúdo destinado ao lazer televisivo.

Considerações sociais à parte, questiono-me sobre a ausência da ficção francófona dos canais televisivos portugueses. Serão os produtos franceses, ou suecos, proibitivamente caros? Serão horrendos e inconsumíveis? Tão longe como ontem passava no canal franco-alemão “Arte” um filme sobre um desventurado palestiniano de Gaza, pescador de pouco peixe e trágica má-sorte. Não é que saindo ao mar, ao içar da rede, dela lhe irrompe um porco vivo! A fábula é notável e não cometerei eu o erro de a recontar.

Retenho com este exemplo, e outros que não saberei invocar, que há uma produção televisiva europeia que escapa aos radares dos arquitectos das grelhas de programação. É pena, porque há uma estética europeia distinta daquela que nos despejam em cascata a partir do outro lado do Atlântico.

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