Correio do Minho

Braga, terça-feira

Islamofobia

O que nos distingue

Ideias

2015-01-25 às 06h00

José Manuel Cruz

Habituado a zaragatas à portuguesa, estranho que em momento algum tivesse ocorrido um chega-para-lá, umas expressões mais exaltadas. Durante dias as televisões não saíram das ruas, recolheram-se opiniões de todos os quadrantes, em próxima vizinhança com compatriotas muçulmanos estiveram franceses católicos ou não praticantes: e nenhuma exaltação mais inflamada que desafogasse a raiva? Em Portugal, por coisa menor se endereçariam insultos, se tirariam satisfações de algum muçulmano bem-intencionado que viesse atestar a sua solidariedade.

Comento a questão com amigos, e pergunto se na Córsega há problemas com árabes. - Ah não, respondem-me, que os corsos não se deixam calcar! Deploram, as pessoas com quem falo, os excessos de sociabilidade, a brandura e a complacência em relação aos exageros islamitas. Corre o cerco aos irmãos Kouachi. Um canal de informação intervala directos do terreno com elaborações de analistas de estúdio. Subitamente uma questão psicológica: os manos Kouachi seriam órfãos! Explosão de indignação.

Não há orfandade ou tragédia de vida que atenue a barbaridade de um crime de ódio. Por associação, não há nada que me permita compreender as posições de Ana Gomes e de Boaventura Sousa Santos. Vivemos em mundos diferentes. A hipérbole que preside ao retrato caricatural, ao dito satírico, à rábula teatral, cumpre uma função regulatória e criadora. Para pensadores de esquerda, tanto mais com memórias activas do que era a vida em Portugal no antigo regime, é peculiar que o deplorem.

Em 2006, na efervescência despoletada pelas caricaturas do jornal dinamarquês, Sousa Santos divagava sobre a legitimidade da caricatura. Poderíamos caricaturar o “nosso”, não o “outro”. A caricatura do relativo ao “outro” seria sobranceira e ofensiva. Se o “outro” fosse capaz de aceitar a caricatura, admitia Sousa Santos, estaria ele próprio a caricaturar-se. E não estranha Sousa Santos que o muçulmano não seja capaz de realizar uma crítica mordaz? Porquê, não haverá nada a recriminar nas práticas e presunções do islão? Mais, e não vive o muçulmano lado a lado com o cristão, o judeu, o ateu ou agnóstico, no estado francês?

Ninguém está acima de ninguém, e as guerras travam-se com as mesmas armas. Os islamitas, malogradamente, não saberão muito bem o que fazer com um lápis de grafite. Desenha-se, em França, para canalizar um mal-estar social. A traço cheio desmascaram-se as distorções islamitas, ridiculariza-se o traje, a propensão para o uso de armas e explosivos. Longe demais terá ido o integrismo islamita, não as caricaturas que o expõem.

Edwy Plenel, jornalista com pergaminhos de esquerda, defensor das posições muçulmanas, diz-nos que é a islamofobia que cria e alimenta o islamismo radical. Edwy Plenel andará de pernas para o ar, decerto. Existe islamismo radical mesmo nos países muçulmanos, e o radicalismo que transborda para o ocidente é de lá que vem, e financeiramente se sustenta, pelo menos a julgar pelas reivindicações de autoria moral.

Gostaria de poder dizer que nada do que se passou teria efectivamente a ver com o credo islâmico, que os Kouachi e Coulibaly mais não seriam que vulgares criminosos, ainda que particularmente sanguinários. Mas houve um mundo árabe que rejubilou e os enalteceu, houve quem insistisse no total despropósito de novas caricaturas. No fundo, há um mundo árabe que se tem por perfeito e imaculado. Como, se alegremente tiram a vida uns a outros em nome do mesmo profeta? Como, se assassinam e escravizam quem nunca terá sonhado com a menor ofensa ao profeta e seus seguidores?

Pensam, em França, reverter a situação com medidas educacionais a implementar nas escolas, com reforço de formação cívica e laicidade. É caricato, entretanto, que um professor de artes plásticas tenha sido suspenso por trazer as caricaturas à sala de aula. Em resumo, há uma França que hesita em se posicionar.

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