Correio do Minho

Braga, sábado

Investimento e crescimento económico em Portugal

À porta fechada

Ideias

2018-01-19 às 06h00

António Ferraz

O investimento interno (público ou empresarial) é uma condição essencial para o crescimento económico e o aumento da produtividade. Ele permite injectar nas organizações, os edifícios, os equipamentos e os métodos inovadores, o que permite utilizar de forma mais produtiva os recursos económicos existentes. Uma economia com um baixo investimento ou deficiente afectação em projectos produtivos terá um potencial de crescimento muito débil. Ao invés, uma economia com um forte investimento ou adequada afectação em projectos produtivos trará um ciclo económico virtuoso: “investimento gera crescimento e este mais investimento”. Quanto ao investimento empresarial podemos desde já levantar a seguinte questão: Qual foi a evolução e os determinantes do investimento empresarial no longo prazo em Portugal? Uma resposta bem conseguida encontra-se no livro agora publicado “Investimento Empresarial e o Crescimento da Economia Portuguesa” (Fundação Calouste Gulbenkian), por investigadores da Universidade do Minho e da Universidade de Coimbra e coordenado pelo Doutor Fernando Alexandre.
Do estudo retira-se a ideia de que no caso português o início do presente século pode ser associado ao início de um regime de baixo crescimento económico que se estendeu até ao presente. Esta fase de menor crescimento económico acontece após quatro décadas de forte crescimento (desde meados do século XX) com elevadas taxas de investimento – na ordem dos 30% do PIB e com convergência real (aos níveis de produção) com os países mais ricos da União Europeia (UE). Isso mostra que mais do que um problema de baixo investimento o que sucede na mais recente fase de baixo crescimento é a realização de mau investimento. Assim, nos anos 80 e 90 o crescimento obedeceu a lógica de expansão dos sectores não transaccionáveis, sectores protegidos da concorrência internacional e com baixo potencial de aumento da produtividade, o que é entendível dado o estado na época do desenvolvimento económico muito assente na expansão do Estado Social, urbanização, construção de infra-estruturas. Ora, no século XXI, com um mundo em mudança acelerada, com revoluções tecnológicas na informação e comunicação, com o alargamento da globalização económica e financeira, a criação do euro, o alargamento da UE à Leste, Portugal manteve o modelo de desenvolvimento anterior, o que historicamente poderá ser visto como um grande erro estratégico, uma vez que se perderam novas oportunidades produtivas, nomeadamente quanto aos bens transaccionáveis (exportáveis) em que se baseava o crescimento económico no mundo.
O estudo aponta ainda como central para o crescimento económico futuro o aumento do investimento empresarial, o que passa pelos seguintes objectivos: (a) elevação do produto potencial da economia e o retorno ao processo de convergência real com os países mais ricos da UE (processo interrompido sobretudo após a entrada do nosso país no euro), o que exige, por sua vez, a canalização dos recursos para os sectores transaccionáveis com maior capacidade de aumento da produtividade e maior dinamismo em termos de exportações. Em suma, o novo ciclo de crescimento virtuoso passa pelo agarrar das novas oportunidades geradas pelos avanços tecnológicos e pelas alterações da globalização; (b) criação de um ambiente de confiança tornando atractivo o investimento empresarial o que passa pela sustentabilidade das finanças públicas, melhoria na competitividade fiscal e maior qualificação dos recursos humanos; (c) canalização dos recursos financeiros para os sectores e empresas mais dinâmicas em vez de os delapidar em sectores e empresas incumpridoras das suas obrigações financeiras; (d) aumento do investimento empresarial que deve ter por meta os mercados externos e dada a fragilidade da nossa economia com taxas de crescimento do produto potencial muito baixa e uma evolução demográfica negativa. Também, da análise das características das empresas mais dinâmicas sobressaem as empresas exportadoras com destaque para as empresas do sector da indústria transformadora e que investem em desenvolvimento e investigação (I&D). Se assim for, será expectável que se dê uma alteração estrutural da economia portuguesa e o regresso do país a taxas de crescimento mais altas.
Porém, pensamos ser de acrescentar (por não ter sido contemplado) ao estudo em referência o papel estratégico e de complementaridade do investimento público na alavancagem da economia: (1) resulta de decisões políticas (e não mercantis) e, como tal, visa o interesse colectivo económico e social, ao contrário do investimento empresarial e a sua lógica de máximo lucro, muito volátil por ser dependente das expectativas empresariais num contexto global de grande incerteza; (2) produz efeitos multiplicadores (expansionistas) sobre toda a economia (no consumo e investimento); (3) permite de forma mais decisiva realizar gastos em infra-estruturas (portos, ferrovias, energia, mobilidade urbana, reabilitação de edifícios, etc.) e em serviços públicos de proximidade com os cidadãos: saúde, educação e cultura.

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