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Interrupção letiva versus interrupção de vidas! Nós não vamos de férias!

Franklim Oliveira: o Primeiro Chefe Nacional dos Escuteiros Católicos

Interrupção letiva versus interrupção de vidas! Nós não vamos de férias!

Voz às Escolas

2021-01-27 às 06h00

Flora Monteiro Flora Monteiro

Desde há vários meses que assistimos apreensivos às alterações constantes na nossa vida. Adaptamo-nos a várias realidades novas e desconhecidas. Cumprimos ordens, por vezes contraditórias. – “Põe a máscara, não uses máscara, desinfeta as mãos com SABA, usa álcool de 70º, lava as mãos com água e sabão, para, recolhe, confina, desconfina, vai trabalhar, faz a festa, não celebres, fica em casa, não dês abraço, dá atenção, cuida dos outros, liga o PC, aprende tecnologias, reúne on-line, fica em quarentena, faz isolamento profilático, distancia-te, não convivas, não visites os teus pais, dá assistência aos teus pais”. Sobrevive, sobrevive, sobrevive! Sim, neste momento de profunda anormalidade é fundamental sobreviver para podermos continuar a viver. Parecem contraditórias estas orientações?! Algumas foram, em momentos de falta de informação, de indecisões, de desnorte! Mas o bom senso de cada um permitia descobrir, passo a passo, o que fazer para não piorar a situação à sua volta, para não contribuir para o crescimento da curva, para não lamentar o crescente número de mortes. A informação passou a ser mais vasta, apesar de existirem muitas teorias, muitas opiniões. E a desobediência começou a ser um ato de egoísmo, com consequências muito más.
No meio de todos estes receios, eis que surge a teoria transcendental de que as escolas são seguras! Seguríssimas, com um vírus bem comportado, à prova de máscara, à prova de distanciamento, à prova de número de pessoas por metro quadrado. Nós somos imortais, impenetráveis pelo vírus, como tive oportunidade de (ironicamente) dizer às autoridades de saúde! E a resposta era – “mas o vírus vem de casa, não se propaga na escola”. E nós, no terreno, a receber resultados de testes e mais testes positivos, a confinar turmas ou grupos de alunos (muitas vezes sob a nossa responsabilidade), a receber as declarações de isolamento de docentes e não docentes. E com a noção de que muitos dos contactos não seriam testados! Já não existia capacidade, como já não existia resposta atempada da autoridade de saúde pública. Nas primeiras semanas de janeiro, era gritante o desespero dos diversos serviços, o medo das famílias, a apreensão de muitos alunos, o receio dos professores (que não são de risco! – passo a ironia). Fomos assistindo ao alastrar do vírus, ao aumento exponencial de meninos/jovens em isolamento porque alguém da família tinha testado positivo. No terceiro fim-de-semana, sentiu-se o caos a ser instalado quando gritávamos, via e-mail, pedindo ajuda para a reposta a alguns casos e a ajuda não tinha capacidade de chegar a tempo.
Começou a ser um pesadelo continuar a ouvir “As escolas são lugares seguros” por tantos pseudo-intelectuais! Quem sou eu para dizer que não são?! Humildemente me confessei às autoridades de saúde, dizendo que nada percebia de saúde, só o meu bom senso e sensibilidade, aliados a tantas leituras, me permitiram ultrapassar as minhas competências e “confinar” alunos e aconselhar alunos, pais, professores e assistentes, tentando ouvir, tentando ajudar, tentando acalmar, juntamente com os meus colegas da Direção. E sempre, procurando manter a serenidade. Efetivamente, tendo em conta a evolução pandémica no país, nós subimos muito devagar no número de casos… as regras, dentro da escola eram cumpridas, de forma geral. E cá fora? E a rua? E os hipers ou os centros comerciais? E os passeios higiénicos com toda a família, mais o cão e o gato e as trelas vazias, e as filas, e os ajuntamentos em festas privadas, e as conversas aos domingos de manhã?
Mas, porque é que vão cumprir regras, se os alunos, professores e assistentes vão às centenas, diariamente, para as escolas? Como diria alguém que conheço – tragam-nos os velhinhos para a escola, isto é seguro!!! Pois, mas deixou de ser há algum tempo! Porque os alunos têm família, os professores e os assistentes, também! E perante as novas variantes surge a teoria de que os jovens podem ser de risco!
Perto de 300 PESSOAS/portugueses, vítimas de Covid 19, têm morrido diariamente. Somos quase (dependendo do dia) o pior do mundo em mortes, o pior do mundo em infetados, o pior no número de doentes nos cuidados intensivos. E foi necessário sermos o pior para fechar as escolas!!! Finalmente. E não vale a pena dizer que a medida é tardia. O importante é perceber que é para cumprir o confinamento.
Ouvi dizer – “Está destruída a geração do futuro! Estamos a destruir a infância e a adolescência de uma geração!” Cruzes! Até me deu algum peso na consciência e parei por um segundo para pensar se deveria demitir-me porque não penso assim!
O que destrói gerações é a morte! O que destrói gerações é não ter comida na mesa! O que destrói gerações é estar completamente isolado, o que destrói gerações é não ter escola! Não tenho certezas sobre esta solução da “interrupção letiva e educativa”. Só a poderei compreender se me apontarem fragilidades que não estou a ver… A quebra do ritmo de vida pode provocar desorientação. Três semanas após o Natal, entrar novamente de férias é algo incompreensível para os nossos modelos. A falta das ocupações habituais, em conjunto com o confinamento, pode potenciar maiores dificuldades no futuro. Nós estávamos/estamos preparados para o ensino a distância! A maioria diria SIM, se nos tivessem perguntado! Não quiseram! Não vamos complicar mais! Há males maiores! Vamos defender e salvar as vidas que pudermos e não dramatizar o futuro!
Estamos numa situação de calamidade, catástrofe… é a hora de recolocar as questões essenciais! Estão centenas a morrer por dia, os médicos, enfermeiros e auxiliares estão esgotados e com questões éticas a assombrá-los. Muitos trabalhadores estão desesperados pela falta de trabalho. Muitos agentes da escola estão inquietos, receosos, desesperançados. Vamos aguardar, com alguma serenidade! Vamos cumprir o dever de cada um. Todos os que puderem fiquem em casa, os que não puderem cumpram as regras, porque a prioridade é travar o vírus e salvar vidas!
Agora, com o fecho das escolas há a esperança de que o confinamento seja mais eficaz e que o número de infetados comece a diminuir, que as mortes não sejam uma realidade.
E que não nos falte a esperança! Embora saibamos que não vai ficar tudo bem! Cabe a cada um de nós não se colocar numa posição de egoísmo e egocentrismo, de viver somente os seus próprios problemas. Há muitos e muitas a precisar da nossa ajuda. Não abandonamos os alunos. Muitos de nós estarão on, estarão em contacto para manter alguma proximidade e aquecer a sensação de solidão e isolamento e apoiar pedagogicamente.
Um abraço a todas as comunidades educativas. Nós não fomos de férias. Estamos cá!

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